canção da flor que nasce
«há dez mil anos atrás», li num jornal da capital um artigo intitulado «a chegada da cavalaria». o artigo vinha assinado pelo escritor percival puggina e discorria, se bem entendi, sobre as desilusões de quem um dia acreditou nas utopias das teses esquerdistas. lá pelas tantas, já pro final, o incensado escritor afirma que «na ausência de qualquer coisa boa para apresentar aquém ou além da "tal utopia", pariu-se o coelho do aquecimento global». mais precisamente, disse o escritor que «isso de aquecimento global não existe, que isso é coisa de comunista», para se utilizar do argumento de que «se a cavalaria esquerdista não vier nos salvar, o capitalismo acabará com a humanidade». na mesma hora escrevi uma resposta e enviei para a zero hora. se receberam ou não, não sei. jamais obtive retorno. normal. o que não é normal é o aquecimento global.
carta aberta a um tal percival
outra coisa, percival: segundo um relatório do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas da onu, divulgado no final de março de 2012, o impacto do aquecimento global será «grave, abrangente e irreversível». o texto afirma que a quantidade de provas científicas do impacto do aquecimento global dobrou desde o último relatório, lançado em 2007. e diz mais o texto. diz que «ninguém neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.» presta atenção, percival: «NINGUÉM neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.»
mais uma pro teu arquivo, percival: o ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, quando se iniciaram os registros, ultrapassando o último recorde, atingido em 2015.
pois é, percival... mas talvez nada disso seja verdade. talvez seja tudo mais um delírio esquerdista causado pela «tal utopia». não sei. pode ser que sim. mas, por via das dúvidas, talvez possas da próxima vez ocupar os espaços nobres que te são concedidos na rbs para nos esclarecer mais em relação às coisas do meio ambiente em vez de ficar vendo «diabo vermelho» onde não há. pois, caso contrário, alguém vai ter que vir «tocar a corneta» por todos nós; por mim, por ti, pelos teus filhos e netos — filhos e netos que eu não tenho, mas que tu talvez tenhas.
ah, e quanto à tua tese, me desculpa, percival, mas ela é totalmente sem pé nem cabeça. o aquecimento global não é coisa de esquerda ou de direita. o aquecimento global é um fato científico.
antes que eu me esqueça, percival: vai pro diabo que te carregue!
era isso... sem mais (e até nunca mais) nunca mais, nunca mais
enilton grill (radialista — produtor e apresentador do programa américas)
nota: em uma entrevista de 1995 à revista «mojo», neil young explica que a cidade no «norte de ontario» citada na letra é um «não-lugar». entendedores entenderão.
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o escolhido
sofri de uma ilusão temporária. achava que eu era «o escolhido». de alguma forma, acreditava que era capaz de realizar o que mais ninguém havia conseguido.
às vezes, me apaixono tanto por uma meta que consigo me visualizar fazendo coisas inacreditáveis.
já cometi erros e esse foi um dos grandes — as coisas não saem do jeito que você quer só porque você acredita ou deseja que elas aconteçam de determinada maneira. e se fosse assim? o mundo seria um lugar mais seguro sem as guerras pelo petróleo, mais limpo e sem poluição, mas não foi desse modo que aconteceu. pelo menos, ainda não. mas tenho fé no espírito humano, na inovação, na criatividade e na determinação. alguém um dia vai descobrir uma solução.
neil young --- a autobiografia, p. 77, 78.
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onde você esteve, meu querido jovem?
tropecei pelas encostas de doze montanhas de névoa
caminhei e me arrastei por seis estradas tortuosas
pisei no meio de sete florestas tristes
estive diante de uma dúzia de oceanos mortos
andei dez mil milhas na boca de um cemitério
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair
o que você viu, meu filho de olhos claros? o que você viu, meu querido jovem? vi um recém-nascido cercado de lobos selvagens vi uma estrada de diamantes sem ninguém nela vi um galho negro que pingava sangue vi um quarto cheio de homens com seus machados sangrando vi uma escada branca toda coberta de água vi dez mil oradores com as línguas quebradas vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte é uma chuva forte que vai cair
e o que você ouviu, meu filho de olhos claros?
e o que você ouviu, meu querido jovem?
ouvi o som do trovão e era um aviso
ouvi o rugido de uma onda que poderia afogar o mundo inteiro
ouvi cem bateristas cujas mãos estavam em chamas
ouvi dez mil sussurrando e ninguém ouvindo
ouvi uma pessoa morrer de fome, e muitas rindo
ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
ouvi o som de um palhaço que morreu no beco
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair
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