domingo, 16 de agosto de 2026

 

canção da flor que nasce 

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a flor e a náusea

uma flor nasceu na rua! passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
sua cor não se percebe. suas pétalas não se abrem. seu nome não está nos livros. é feia. mas é realmente uma flor.
sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. é feia. mas é uma flor. furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

drummond

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«há dez mil anos atrás», li num jornal da capital um artigo intitulado «a chegada da cavalaria». o artigo vinha assinado pelo escritor percival puggina e discorria, se bem entendi, sobre as desilusões de quem um dia acreditou nas utopias das teses esquerdistas. lá pelas tantas, já pro final, o incensado escritor afirma que «na ausência de qualquer coisa boa para apresentar aquém ou além da "tal utopia", pariu-se o coelho do aquecimento global». mais precisamente, disse o escritor que «isso de aquecimento global não existe, que isso é coisa de comunista», para se utilizar do argumento de que «se a cavalaria esquerdista não vier nos salvar, o capitalismo acabará com a humanidade». na mesma hora escrevi uma resposta e enviei para a zero hora. se receberam ou não, não sei. jamais obtive retorno. normal. o que não é normal é o aquecimento global.

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carta aberta a um tal percival

caro percival,
não me conheces. nunca me viste. eu também não te conheço. mas te vejo seguidamente. és figurinha repetida nos meios da rbs.

horas atrás, li teu artigo na zero hora sobre o aquecimento global e a tal utopia. mas que barbaridade, percival! pelo que entendi, trocando em miúdos, quiseste dizer que a esquerda tomou para si a bandeira da preservação do meio ambiente. ora, percival, deixa de troça, vocês é que estão, agora, querendo botar a mão numa bandeira que sempre foi nossa.

pois é, mas posso não ter te entendido muito bem. admito e reconheço minhas limitações em relação ao tema. mas acho que entendi pelo menos uma parte: a parte relativa às utopias. para ti e para os que pensam como tu, a tal utopia é algo absolutamente desnecessário. utopia pra quê, né, se ela é inatingível. sim, percival, quem acredita na utopia sabe, melhor que tu, que a utopia é inatingível... mas e daí, percival, qual o problema? das utopias, já disse um poeta: «se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las... que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas.»

bacana, né? se bem que não sei o que tu pensas a respeito de poesia, e tampouco sei se sabes quem é mário quintana. sei muito bem o que tu pensas a respeito da foice e do martelo e do sol e da estrela. por falar em estrelas, caro percival, fotos recentes da nasa mostram que o universo tem um novo tipo de buraco negro. as fotos das estrelas xz tauri e hh 30 revelam jatos de gás ejetados a milhares de quilômetros por hora. o interessante é a fonte de brilho próxima do centro da imagem. ela cresceu anos-luz de intensidade nos últimos meses.

sabias disso, percival? para quem escreveu o que escreveste, acho que não.

outra coisa, percival: segundo um relatório do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas da onu, divulgado no final de março de 2012, o impacto do aquecimento global será «grave, abrangente e irreversível». o texto afirma que a quantidade de provas científicas do impacto do aquecimento global dobrou desde o último relatório, lançado em 2007. e diz mais o texto. diz que «ninguém neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.» presta atenção, percival: «NINGUÉM neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.»

mais uma pro teu arquivo, percival: o ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, quando se iniciaram os registros, ultrapassando o último recorde, atingido em 2015.

pois é, percival... mas talvez nada disso seja verdade. talvez seja tudo mais um delírio esquerdista causado pela «tal utopia». não sei. pode ser que sim. mas, por via das dúvidas, talvez possas da próxima vez ocupar os espaços nobres que te são concedidos na rbs para nos esclarecer mais em relação às coisas do meio ambiente em vez de ficar vendo «diabo vermelho» onde não há. pois, caso contrário, alguém vai ter que vir «tocar a corneta» por todos nós; por mim, por ti, pelos teus filhos e netos — filhos e netos que eu não tenho, mas que tu talvez tenhas.

ah, e quanto à tua tese, me desculpa, percival, mas ela é totalmente sem pé nem cabeça. o aquecimento global não é coisa de esquerda ou de direita. o aquecimento global é um fato científico.

antes que eu me esqueça, percival: vai pro diabo que te carregue!

era isso... sem mais (e até nunca mais) nunca mais, nunca mais

enilton grill (radialista — produtor e apresentador do programa américas)

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falando em utopia
lembrei de eduardo galeano

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[legendado em português]

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falando em horizonte
lembrei de neil young

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há uma cidade no norte de ontário com sonho, conforto, memória, desespero e na minha mente ainda preciso de um lugar pra ir
tudo o que em mim mudou ficou lá

janelas azuis atrás das estrelas a lua amarela a despontar grandes pássaros cruzam o céu projetando sombras sobre os nossos olhos

desamparado, desamparado, desamparado meu bem, você me ouve agora? as correntes estão cruzadas trancando minha porta meu bem, meu bem, dê um jeito, mas cante comigo

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[live at farm aid 1993]

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nota: em uma entrevista de 1995 à revista «mojo», neil young explica que a cidade no «norte de ontario» citada na letra é um «não-lugar». entendedores entenderão.

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o escolhido

sofri de uma ilusão temporária. achava que eu era «o escolhido». de alguma forma, acreditava que era capaz de realizar o que mais ninguém havia conseguido.

às vezes, me apaixono tanto por uma meta que consigo me visualizar fazendo coisas inacreditáveis.

já cometi erros e esse foi um dos grandes — as coisas não saem do jeito que você quer só porque você acredita ou deseja que elas aconteçam de determinada maneira. e se fosse assim? o mundo seria um lugar mais seguro sem as guerras pelo petróleo, mais limpo e sem poluição, mas não foi desse modo que aconteceu. pelo menos, ainda não. mas tenho fé no espírito humano, na inovação, na criatividade e na determinação. alguém um dia vai descobrir uma solução.

neil young --- a autobiografia, p. 77, 78.

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de volta à estrada

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onde você esteve, meu filho de olhos claros?
onde você esteve, meu querido jovem?
tropecei pelas encostas de doze montanhas de névoa
caminhei e me arrastei por seis estradas tortuosas
pisei no meio de sete florestas tristes
estive diante de uma dúzia de oceanos mortos
andei dez mil milhas na boca de um cemitério
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair

o que você viu, meu filho de olhos claros? o que você viu, meu querido jovem? vi um recém-nascido cercado de lobos selvagens vi uma estrada de diamantes sem ninguém nela vi um galho negro que pingava sangue vi um quarto cheio de homens com seus machados sangrando vi uma escada branca toda coberta de água vi dez mil oradores com as línguas quebradas vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte é uma chuva forte que vai cair

e o que você ouviu, meu filho de olhos claros?
e o que você ouviu, meu querido jovem?
ouvi o som do trovão e era um aviso
ouvi o rugido de uma onda que poderia afogar o mundo inteiro
ouvi cem bateristas cujas mãos estavam em chamas
ouvi dez mil sussurrando e ninguém ouvindo
ouvi uma pessoa morrer de fome, e muitas rindo
ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
ouvi o som de um palhaço que morreu no beco
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair

quem você encontrou, meu filho de olhos claros? quem você encontrou, meu querido jovem? encontrei uma criança ao lado de um pônei morto
encontrei um homem branco que andava com um cão negro encontrei uma jovem mulher com o corpo em chamas encontrei uma menina que me deu um arco-íris
encontrei um homem ferido pelo amor encontrei outro homem ferido pelo ódio
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte é uma chuva forte que vai cair

e o que você vai fazer agora, meu filho de olhos claros? e o que você vai fazer agora, meu querido jovem? vou voltar lá fora antes que a chuva comece a cair
vou caminhar pelas profundezas da floresta mais escura onde as pessoas são tantas e as mãos tão vazias onde grãos de veneno inundam as águas
onde o lar no vale encontra a prisão suja e úmida onde o rosto do carrasco é sempre bem escondido onde a fome é feia, onde as almas são esquecidas
onde o preto é a cor, onde o nada é o número e eu possa contar e pensar e falar e respirar e refletir do alto da montanha para que todas as almas vejam
e ficarei de pé sobre o oceano até começar a afundar mas conhecerei bem minha canção antes de começar a cantar

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(live 1976)
[tradução ing/port]

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a chuva cai
o vento sopra
as pedras rolam
as águas mudam
as águas mudam
as pedras rolam
o vento sopra
a chuva cai
eu subo

eu subo
uma flor nasce

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no manatial
eu vi nascer
uma rosa
baguala

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carpe diem
chove em satolep
bom domingo