segunda-feira, 21 de setembro de 2026


casa de um poeta na grécia


dizem que todo poeta precisa de proteção
dizem que todo poeta deve cair
mas juro que vejo meu reflexo
em algum lugar bem acima deste muro

vejo minha luz brilhando
do oeste até o leste
a qualquer momento, a qualquer momento
serei libertado

bob dylan


a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

manoel de barros


o poeta descreveu sua casa para sua mãe
«tem um terraço enorme com vista para montanhas imponentes e casas brancas brilhantes. os cômodos são amplos e arejados, com janelas profundas embutidas em paredes grossas. Imagino que tenha cerca de 200 anos e muitas gerações de marinheiros devem ter vivido aqui. Farei pequenas reformas todos os anos e, em poucos anos, será uma mansão... moro em uma colina e a vida aqui continua exatamente igual há centenas de anos. durante todo o dia, ouço os chamados dos vendedores ambulantes, e eles são realmente muito musicais... geralmente, acordo por volta das 7h e trabalho até o meio-dia. de manhã cedo é mais fresco e, portanto, melhor, mas adoro o calor de qualquer maneira, especialmente quando o mar egeu está a 10 minutos da minha porta.»

esta é hydra como era nos anos 60 e as pessoas que leonard cohen conheceu lá e com quem passou alguns anos de sua vida.

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(filmes: «girl in black» com elli labetti
«the boy and the dolphin» com sofia loren.)


no final da década de 1960, em meio às águas azuis do golfo de argos, leonard cohen encontrou consolo em uma casa tradicional pitoresca na ilha grega de hydra. mal sabia ele que esta ilha paradisíaca se tornaria o cenário de uma das histórias de amor mais encantadoras do século xx.

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(marianne e cohen em hydra)

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cinema em detalhe (em português)
[recomendo]


a história de amor de leonard e marianne
hydra, no final dos anos 1960, era um refúgio para artistas, escritores e boêmios que buscavam inspiração e tranquilidade. leonard cohen , o icônico cantor e compositor canadense, estava entre os atraídos para esta idílica ilha grega. ele adquiriu uma casa tradicional caiada por meros US$ 1.500, uma decisão que mudaria sua vida para sempre.

foi em hydra que leonard cohen encontrou o amor, não apenas pela ilha em si, mas também por marianne ihlen, uma mulher norueguesa que conquistou seu coração. a história de amor deles se tornou uma lenda, imortalizada na música e na poesia de cohen. marianne serviu como sua musa, inspirando canções atemporais como «so long, marianne» e «bird on the wire». diferente, por exemplo, da canção «hey, that’s no way to say goodbye» (uma das canções memoráveis do clássico álbum de estreia de leonard cohen, lançado em dezembro de 1967).

cohen conta que escreveu a música quando morava em um quarto do penn terminal hotel, em nova york: «é um nome sinistro para um hotel. fiquei lá muitas vezes, e sempre achava que seria a última. e o quarto também era horrível. a janela era distante, a torneira não parava de gotejar na pia de porcelana, o aquecedor assoviava. eu estava com a mulher errada no lugar errado, como de costume, mas como dizem os metafísicos orientais, todo esse contexto sombrio me ajudou a escrever uma boa canção».

ei, isto não é maneira de dizer adeus

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[legendado em português]

(leonard cohen, 1967)

por sete anos felizes, cohen e ihlen viveram juntos naquela casa em hydra, onde a criatividade fluía tão livremente quanto as águas cristalinas da ilha. cohen escreveu algumas de suas obras mais profundas e icônicas durante esse tempo, incluindo seu romance de estreia, «beautiful losers», e o álbum «songs of leonard cohen».

o caso amoroso deles acabou, mas a lembrança de hydra e do tempo que passaram juntos perdurou no coração de cohen. ao saber da saúde debilitada de marianne ihlen em 2016, cohen escreveu uma carta de despedida sincera, expressando seu amor eterno e gratidão pelo tempo que passaram na ilha que os uniu.

ele disse: «bem, marianne, chegamos a esta época em que somos tão velhos que nossos corpos caem aos pedaços; acho que a seguirei muito em breve. saiba que estou tão perto de você que, se estender sua mão, acredito que poderá tocar a minha. você bem sabe que sempre a amei por sua beleza e sua sabedoria, mas não preciso me estender sobre isso, você sabe tudo. só quero lhe desejar boa viagem. adeus, velha amiga. te vejo na estrada.»

dois dias depois, marianne perdeu a consciência e faleceu.

venha até a janela, minha querida
eu gostaria de tentar ler a palma da sua mão.
eu costumava pensar que eu era um cigano
antes de eu deixar você me levar para casa.

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[subtitulado en español]

leonard cohen (1967)


de marianne para suzanne


suzanne
dizem que foi um dos momentos mais impressionantes da música popular norte-americana. em 1970, na isle de wight, costa sul da inglaterra, um povoado pacato repleto de iates e de aposentados da marinha britânica, um mar se seiscentas mil pessoas, esperavam pela atração que se seguiria à performance explosiva de jimi hendrix. era a terceira edição do festival de rock que até então atraía cerca de cento e cinquenta a duzentos mil participantes --- o auge foi em 1969, quando bob dylan voltou a se apresentar após o famoso acidente de motocicleta. talvez em homenagem a dylan, alguém resolveu chamar o lugar onde aquelas seiscentas mil pessoas esperavam pela próxima atração de «desolation row» --- a travessa da desolação --- uma referência à faixa sombria que termina o clássico álbum highway 61 revisited (1966).

ninguém esperava por aquela multidão, muito menos os organizadores do evento. todos estavam tensos. as pessoas se aglomeravam. bebidas e drogas eram passadas adiante sem nenhuma restrição. hendrix havia simplesmente tocado fogo no palco e na própria guitarra. era o auge da loucura da guerra do vietnam, o ápice do que a chamada contracultura poderia chegar em influência global.

enquanto isso a próxima atração simplesmente dormia. estava em seu trailer, vestido em uma espécie de macacão que poderia servir tanto como pijama e como uniforme de um exército particular. aliás, era esse o nome da banda que o acompanhava: o exército. nada mais incorreto quando o antimilitarismo era a moda da vez. como se não bastasse, ao contrário da microfonia e da distorção de hendrix, o set list das canções que seriam tocadas previam bandolins, coros femininos, violões, violinos e pouca percussão. sem contar o conteúdo das letras: não haveria nenhuma referência à guerra nuclear, aos políticos corruptos de washington e ao fim do mundo, mas, sim, dilemas existenciais, canções sobre a morte e declarações de amor.

quando o acordaram, não sabia se ainda sonhava ou se já estava desperto. talvez fosse o efeito dos quaaludes que tomara antes de dormir, talvez fosse o fato de que eram três e meia da madrugada. acordou, olhou para bob johnson, o produtor que o acompanhava na turnê, pegou o seu violão e foi para o palco. kris kristofferson, que havia sido vaiado algumas horas antes, o olhou apreensivo; joan baez, que encantara o público com suas letras pacifistas, não sabia o que poderia acontecer. ao empunhar o violão, viu as seiscentas mil pessoas que o esperavam. aproximou-se do microfone e disse: «não estou vendo vocês. não estou vendo ninguém. é possível que cada um acenda um fósforo? assim posso vê-los melhor». lentamente, fagulhas de luz foram surgindo na multidão escura. «isso mesmo, isso mesmo, acenda cada um seus fósforos, assim poderemos conversar melhor», continuou a dizer, a voz meio sonambúlica, meio hipnótica. e então começou a dedilhar alguns acordes e sem nenhum aviso cantou pausadamente como se quisesse que cada um ali ouvisse as vogais e consoantes de cada verso. «suzanne takes you down to her place near the river / you can hear the boats go by / you can spend the night beside her / and you know that she's half crazy / but that's why you want to be there.» («suzanne te leva até a casa dela perto do rio / dá pra ouvir os barcos passando / você pode passar a noite ao lado dela / e sabe que ela é meio maluca / mas é por isso que você quer estar lá.»)
e ela te oferece chá e laranjas
que vêm diretamente da china
e justamente quando você está prestes a dizer a ela
que não tem amor para lhe dar
então ela te coloca na mesma sintonia que ela
e deixa que o rio responda
que você sempre foi seu amante
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que ela vai confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com sua mente

e jesus era um marinheiro
quando caminhou sobre as águas
e passou muito tempo observando
de sua solitária torre de madeira
e quando teve certeza
de que apenas os que se afogavam podiam vê-lo
ele disse: «todos os homens serão marinheiros, então
até que o mar os liberte»
mas ele próprio estava abatido
muito antes de o céu se abrir
abandonado, quase humano
ele afundou sob sua sabedoria como uma pedra
e você quer viajar com ele
e você quer viajar às cegas
e você acha que talvez vá confiar nele
pois ele tocou seu corpo perfeito
com sua mente

agora suzanne pega sua mão
e ela te leva até o rio
ela está vestindo trapos e penas
dos balcões do exército da salvação
e o sol derrama como mel
sobre nossa senhora do porto
e ela te mostra para onde olhar
entre o lixo e as flores
há heróis nas algas
há crianças pela manhã
elas se inclinam em busca de amor
e ficarão inclinadas assim para sempre
enquanto suzanne segura o espelho
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que pode confiar nela
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a mente dela

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[live at the isle of wight 1970]

(leonard cohen,1967)


avalanche
o público ficou quieto durante o resto da apresentação de duas horas e, no final, aplaudiu efusivamente.

assim como fez na isle de wight em 1970, leonard norman cohen impôs elegantemente a sua liberdade ao público que o acompanhou em cinquenta anos de carreira. é uma liberdade muito peculiar: não se trata de aceitar o que o público queria e sim de se reinventar a cada momento, conforme as necessidades da vida, conforme os obstáculos que encontrava na jornada rumo a um pouco de unidade interior, na aceitação de que tudo passa e nada fica neste mundo. talvez essa reinvenção tenha uma raiz única --- a questão judaica da qual ele não hesitaria em satirizar, chamando a si próprio de «o pequeno judeu que escreveu a bíblia» --- mas é também provável que seja algo que devemos ter como meta, quiçá como exemplo. como um pássaro preso no arame farpado, ele tentou ser livre ao seu modo. mas também entrou na avalanche em que quase perdeu o que lhe era mais precioso. a sorte é que viveu o suficiente para acompanharmos sua vitória.

eu entrei em uma avalanche
que encobriu minha alma
quando não sou esse corcunda que você vê
eu durmo embaixo da golden hill

você que deseja conquistar a dor
deve aprender o que me torna amável
as migalhas de amor que você me oferece
são as migalhas que eu deixei pra trás

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[legendado em português]
(leonard cohen, 1971)


ao vento

ao contrário das pessoas
as grandes músicas
são como os sonhos.
sonhos não envelhecem.

grill


oh, o vento, o vento sopra
pelos túmulos o vento sopra
a liberdade logo virá
então nós sairemos das sombras

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[legendado em português]

(versão: leonard cohen 1969)


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