o arado, a palavra e a propriedade privada
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«aperto firme a minha mão
e afundo o arado na terra.
há anos que vivo nela,
como não estar esgotado?»
victor jara
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«a propriedade é um roubo.»
pierre-joseph proudhon
.
«voam borboletas, cantam grilos,
a pele me fica negra
e o sol brilha, brilha, brilha.
o suor me abre sulcos,
eu abro sulcos na terra
sem parar.»
victor jara
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caros amigos,
estava lendo uma crônica do luis fernando verissimo
que me fez lembrar de um amigo
um amigo de infância
um amigo que há quase 50 anos não encontrava
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar
(lá pelas bandas do facebook)
refizemos a amizade
mas nossa amizade
amizade facebookiana
felizmente
ou infelizmente
foi uma amizade passageira
sim
durou muito pouco
acontece que o cara é bolssonaro doente
o que pra mim não teria maiores problemas
verdade
acreditem ou não
não me incomoda que as pessoas pensem diferente de mim
o que me incomoda
e muito
é as pessoas se incomodarem por eu pensar diferente delas
que foi o caso desse hoje ex-amigo
mas passa
tudo passa
já passou
ademais
a questão não é essa
a questão é que eu o considero uma pessoa inteligentíssima
e é isso que me intriga
pois
mesmo sabendo que há pessoas inteligentíssimas na direita
penso exatamente como luis fernando verissimo
«não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta pode não ser de esquerda»
e é aí que entra a relação da crônica com a lembrança do meu ex-amigo
sim
pelo que sei
e não sei muito
mas um dia quis saber
e perguntei
não para o ex-amigo
mas para a amiga
mais que amiga
irmã
irmã de alma da mãe do meu ex-amigo
e ela me contou que
durante os primeiros governos do pt
as terras dele e da família dele foram consideradas improdutivas
sendo assim desapropriadas para reforma agrária
e ainda que eles tenham recebido um significativo valor em troca
as feridas ficaram abertas
penso eu
então
que daí o antipetismo
não só do meu ex-amigo
mas da família dele como um todo
mas vamos à crônica
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falando sério
ele disse:
— ora, reforma agrária...
ela disse:
— vai dizer que você é contra?
ele tentou cair fora:
— o assunto é muito complexo.
ela insistiu:
— espera um pouquinho.
— dá um beijo, vai.
— espera, isto é importante. eu quero saber.
— o quê?
— a reforma agrária. você é contra?
— por quê? você é a favor?
— mas só sou.
— você quer que o velho divida as terras dele?
— teu pai é latifundiário?
— tremendo lati.
— eu não sabia!
— tem muita coisa a meu respeito que você ainda não sabe, boneca. vem cá que eu te mostro...
— espera. falando sério.
— dá uma beijoca.
— falando sério, pomba.
— está bem. o que você quer saber?
— seu pai. quantos hectares ele tem? ou acres? é acres ou hectares?
— e eu sei? nunca fui lá.
— quantos?
— um monte.
— mais ou menos?
— olha, eles pegam o jipe da fazenda e, num dia, não conseguem chegar ao fim das nossas terras.
— meu deus do céu!
— é que o jipe quebra sempre. dá um beijo, poxa.
— para.
— vem cá, mulher!
— não vou. olha, nunca pensei, viu?
— o quê? que meu velho fosse fazendeiro? como é que você pensa que eu tô pagando a faculdade? e o carro? e o apartamento? e as nossas alianças de noivado?
— ele tem terra improdutiva?
— tem. exatamente a parte que ele está guardando pra me dar quando eu casar. a nossa terra, amor.
— mas e o seu discurso?
— bom...
— até eu achava radical. e olha que eu sou meio pt.
— não vamos brigar por causa disto.
— tudo o que você vive dizendo... justiça social...
— confere.
— a insensibilidade dos ricos no brasil...
— mantenho.
— os escândalos dos sem-terra num país deste tamanho...
— sustento.
— vem cá. outra noite, aqui mesmo, neste bar, você disse que toda a propriedade é um roubo. eu achei bacanérrimo.
— foi uma frase que me ocorreu na hora. mas escuta...
— e agora vem dizer que é contra a reforma agrária?
— eu não sou contra a reforma agrária. teoricamente, sou a favor.
— e então?
— você não entende? agora não é teoria. agora são as terras do velho!
verissimo
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– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.
bukowski
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la marea – quando leio algo seu, digo a mim mesmo: «lemaitre tem um problema com a autoridade». você ridiculariza os homens de poder o tempo todo. você era rebelde quando criança ou era um aluno dócil?
pierre lemaitre – eu era um aluno muito ruim. não porque tive uma infância miserável ou porque fui rebelde. na verdade, o que estava acontecendo comigo é que fui esmagado pelas imposições da sociedade. há jovens que falham muito cedo devido à incapacidade de corresponder às expectativas dos pais. acho que não me afasto muito desse padrão.
marzo - abril/2023
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ao vento
para que perder tempo com bobagens como fama, sucesso e sorte se tudo que se precisa para viver está dentro de nós? basta descobrir o amor à vida e cultivá-lo. como? não sei. não tem fórmula. os que encontram, encontram à sua maneira. foi o meu caso. larguei tudo sem pensar em nada... e é por aí que os meus pés caminham e a minha cabeça voa.
porque não sou dono de nada
tenho tudo
não me sinto estrangeiro
(em nenhum lugar)
a terra é minha casa
o universo é meu lar
vivo em guerra e paz
em guerra com o mundo
em paz comigo mesmo
nada é meu
tudo é nosso
e o arado?
o arado não é(ra) nosso
é(ra) de um amigo
e a propriedade?
não é minha
nada é meu
«yo no vendo, yo no compro»
hoje é de quem a comprou
ontem era de quem a vendeu
grill
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«se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara»
saramago
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«é a ceguera de dexá
um dia de ser pião
de nun comprá nem vendê
robá isso tomém não
de num sê mais impregado
i tomém num sê patrão»
elomar
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«eu não vendo, eu não compro
eu não mudo, eu não impeço
eu não empresto, eu não escondo
e por isso sou feliz»
facundo cabral
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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar e criar coisas».
bob dylan
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traduzir-se
explicando o processo criativo. mas antes abro um parêntese: alguns hão de dizer que não há processo criativo algum aqui, pois os versos acima não são meus, isto é, parto do que outros dizem para dizer o que quero dizer. e é isso mesmo: é assim que faço, sempre fiz e sempre vou fazer — seja para concordar, seja para discordar —, até porque, se bem me lembro, quando nasci, não sabia caminhar, não sabia ler, não sabia escrever, não sabia falar. só sabia sorrir e chorar.
sobre o processo criativo? acabei de explicar. mas vou explicar de novo: comecei pensando em fazer uma coisa e acabei fazendo outra.
moral da história:
«não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar»
«caminante, no hay camino / se hace camino al andar»
«tudo flui, nada permanece»
«a rota para cima e para baixo é uma e a mesma»
já não sou o mesmo / mas sou igual.
aqui abro outro parêntese. não sei se ponho aspas na última citação ou não. por quê? porque de tanto dizê-la, não sei mais de quem ela é. aliás, penso que se as palavras pudessem dizer de quem elas são, elas diriam que as palavras são de quem as diz.
grill
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se perdi a vida, o tempo
tudo joguei como um anel na água
se perdi a voz na profusão do mato
resta-me a palavra
se sofri a sede, a fome,
tudo o que era meu e acabou sendo nada.
se cruzei as sombras em silêncio,
resta-me a palavra.
se abri os olhos para ver o rosto
puro e terrível de minha pátria.
se abri os lábios até rasgá-los,
resta-me a palavra.
me queda la palabra | blas de otero / aguaviva 1971
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antes do fim
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«não me esperem para a colheita, estarei sempre a semear»
guevara
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«morrer semente é continuar lutando
mesmo sabendo que serão as próximas gerações
que participarão da colheita»
autor desconhecido
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afirmo bien la esperanza
cuando pienso en la otra estrella;
nunca es tarde me dice ella
la paloma volará.
vuelan mariposas, cantan grillos,
la piel se me pone negra
y el sol brilla, brilla, brilla.
y en la tarde cuando vuelvo
en el cielo apareciendo
una estrella.
nunca es tarde, me dice ella,
la paloma volará, volará, volará,
como el yugo de apretado
tengo el puño esperanzado
porque todo
cambiará.
el arado | victor jara 1965
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#reformaagráriajá
#américas
