quarta-feira, 5 de agosto de 2026


pecado capital

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«dinheiro na mão é vendaval
é vendaval
na vida de um sonhador
de um sonhador»

paulinho da viola»

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em 2005, depois de me separar, aluguei uma casa na rua sturbelli e mobiliei-a com tudo, tudo o que eu tinha, quadros, discos e livros. eu tinha, também, na época, um fogão, um colchão e uma geladeira. armários e televisão eu não tinha. a vida era uma maravilha (ou devia). eu morava sozinho, trabalhava no cfc, gostava do que fazia, fazia o que queria e o salário, ó! dava e sobrava. enfim, tinha tudo pra dar certo, mas eu sou um «sonhador» e o «sonhador» é muito hábil em criar armadilhas para si mesmo. a armadilha era: fazer o que com o que sobrava?

a primeira coisa que fiz foi entrar num bar
tomei umas 5 ou 7
entrei numa revenda de automóveis...
e saí com um fiat 147

corria o ano de 2007
eu recém tinha completado 42
outro dia vi uma entrevista do chico buarqie
na qual ele dizia que não tava preocupado com a «crise dos 40»
normal
chico estava com 36
contudo
vendo-o falar
me lembrei de 2005
quando fiz 40
meu desejo era passar pela tal «crise» sem nenhum sobressalto
quanta ignorância de mim mesmo
dos 39 aos 43
minha vida virou de cabeça pra baixo
dos 39 aos 40 atingi meu auge
pousei no cume da montanha
olhei para o precipício
e me atirei
tentar tentei
mas voar
não voei
só de avião
rumo a são luís do maranhão
caí e levantei
mais de uma vez
aprendi a lição
muda
tudo muda
eu também mudei
caí
me casei
levantei
me separei
penei
sofri
chorei
quase caí
mas ainda estou aqui
ainda não sei o que quero
mas já sei o que não quero


pensando bem
não sei se era o que eu queria
mas eu podia ter sido tarso de castro
morrido como ele

pensando melhor
a pessoa é para o que nasce
tarso está lá
eu ainda estou aqui

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tarso de castro

[por tom cardoso]

na sua nova rotina de solteiro, tarso podia ser visto em dois lugares no rio de janeiro. o primeiro era o bar joia, pertinho da sua casa, lá mesmo no jardim botânico. para o outro reduto era preciso ir de carro, se é que se podia chamar de carro o velho dodge dart que o jornalista pilotava até o restaurante plataforma, no leblon.

tarso tinha um apreço todo especial pelo seu dodge dart. os amigos nem tanto. sérgio cabral jamais esqueceu do dia em que deixou o filho serginho dar uma voltinha no quarteirão com o «tio tarso». praticamente não saíram do lugar: a barra de direção soltou na primeira curva evitando um acidente mais grave. josé trajano não teve a mesma sorte, lembra ele:

um dia, em ipanema, saímos de um bar completamente bêbados. o tarso, dirigindo o dodge dart, entrou na visconde de pirajá a mais de 100 km/hora, como um alucinado. um cara passou no sinal vermelho e bateu na gente. entramos com meio carro dentro de uma loja. no meio do tumulto, passou por ali o [ator] stepan nercessian. ele viu que era a gente e se ofereceu para nos levar ao hospital miguel couto, só sei que algumas horas depois, às 10 da manhã, já estávamos os dois, cheios de curativos, bebendo na padaria com o stepan.

pilhas de multas chegavam todos os dias à casa do antigo dono do dodge dart, que jamais teve coragem de repassá-las ao novo proprietário. para tom jobim, passar a vida se responsabilizando pelas barbeiragens do jornalista não chegava a ser um sofrimento. o duro mesmo era evitar os tradicionais e temidos selinhos de tarso de castro.

«na boca, não» gritava o compositor toda vez que os dois se encontravam em algum bar ou restaurante do rio. apesar do apelo, raramente escapava do malho. tarso era apaixonado por tom. ao chegar ao rio, em 1962, um de seus orgulhos de juventude era ser confundido, no bar jirau, em copacabana, com o músico. com o tempo, tornaram-se íntimos. bebiam juntos, acompanhados de vinicius de moraes, na churrascaria carreta, em ipanema.

na mesa de jobim eram bem-vindos joão ubaldo ribeiro, chico buarque, antônio pedro, miguel farias, paulo mendes campos, sérgio cabral e, claro, tarso de castro. nos últimos tempos, tom se queixava a cabral que tarso adquirira outro hábito repugnante, ainda pior que a tradicional bitoquinha: «cabralzinho, ele agora deu de ficar apertando o meu pau. dói pra cacete». as tardes passaram a ser menos divertidas. no restaurante, tarso, debilitado por uma cirrose hepática, teria a primeira das oito hemorragias que o levariam à morte em menos de um ano.

durante anos, amigos tentaram, inutilmente, convencer tarso a parar de beber. luiz carlos maciel o levou ao alcoólatras anônimos (aa). seu argumento para não frequentar as reuniões foi convincente: «prefiro a morte ao anonimato». uma namorada o aconselhou a passar um tempo em casa, sedado, para «limpar o organismo». «mas me diga uma coisa: e se o governo cair? se eu acordar e mudou o governo? aí, porra, vou ficar irritado com todo mundo durante anos! eu quero estar presente! é uma espécie de doença, mas paciência», confidenciou à revista playboy, em 1983. palmério dória pediu a ele que, pelo menos, deixasse de beber pela manhã. a resposta estava na ponta da língua: «prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira do que viver a vida inteira pela metade».

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passo a palavra para jaguar:

«tarso era um extremado em tudo: era capaz de virar a noite na redação, mas também de sumir num dia de fechamento do jornal. nunca vi uma resistência igual. saía de um cti e ia parar de novo no cti, para recomeçar tudo de novo.»

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voltamos a tom cardoso:

quando tarso, depois de uma nova hemorragia, deu entrada, em coma, na clínica são vicente, seu médico, o clínico-geral pedro henrique paiva, assinou o atestado de óbito e avisou a família: «podem comprar o caixão». não sabia com quem estava lidando. horas depois, enfermeiros foram surpreendidos por um grito vindo da uti: era o «morto» pronto para mais uma dose: «poooooooorra, me tirem daqui!». paulo césar peréio, impressionado com a resistência do «canalha», só aceitou levar tarso para a churrascaria se ele prometesse por escrito doar o superfígado depois de morto.

na oitava hemorragia de tarso, miguel kozma, velho companheiro desde os tempos de passo fundo no rio grande do sul, entrou em ação. conseguiu com o jornalista fernando morais, então secretário estadual de educação de são paulo, um quarto no hospital das clínicas, onde tarso seria tratado pelo médico silvano raia, o maior especialista em doenças do fígado do país. segundo raia, só havia uma saída para o paciente: o transplante de fígado, desde, claro, que ele decidisse parar de beber. levado de ambulância do rio para são paulo, a primeira providência de tarso foi se livrar dos tubos de soro grudados em seu braço.

miguel kozma conseguiu a proeza de convencer o amigo a parar de beber por algumas semanas. para um grupo de ciganos, conhecidos de tereza, mulher de miguel, o milagre não ocorreu por acaso. a história cheia de lances macabros e confirmada pelo próprio tarso, durante entrevista para o jô soares onze e meia, do sbt, começou no dia em que um dos ciganos, impressionado com o estado de saúde do jornalista, cismou que havia no rio um trabalho de magia negra contra ele. foram todos de carro até o méier, subúrbio da cidade, onde encontraram um boneco, um mini-tarso, com uma coroa de espinhos na cabeça e agulhas em todo corpo, com maior incidência na região do fígado. o vodu foi queimado lá mesmo e o cigano garantiu, de pés juntos, que a partir dali o doente estaria curado.

não era a primeira vez que o jornalista tinha o seu nome usado num ritual. vinte anos antes, ao sair completamente endividado de o pasquim, em 1971, uma namorada resolveu fazer despacho para o amado sair logo da crise financeira. levou ao terreiro um par de meias, o mesmo que tarso havia pedido emprestado para chico buarque durante uma festa na casa do compositor. conclusão: tarso continuou duro por um longo tempo e chico ganhou seu primeiro milhão ao fazer um tremendo sucesso com o disco construção.

com ou sem despacho, tarso voltou a beber. conseguiu convencer --- não se sabe como --- todas as enfermeiras do hospital das clínicas de que era importante ele ter duas garrafas de uísque debaixo da cama. só não conseguiu seduzir o diretor do instituto do fígado, jorge pagura, como lembra fernando morais: «o pagura, um escroto da pior linha, ligado a paulo maluf, me ligou dizendo: "se ele quer beber que faça isso num botequim e não num hospital. tira esse vagabundo daqui!"»

não precisou: no dia 20 de maio de 1991, vítima de cirrose hepática, tarso foi beber em paz com vinicius de moraes.

o desejo da família era que o corpo fosse enviado imediatamente para passo fundo, logo depois do velório na assembleia legislativa de são paulo. de novo, fernando morais ofereceu ajuda. ligou para luiz antônio fleury filho, que havia acabado de ser eleito governador de são paulo, apoiado por seu antecessor, orestes quércia, e fez o pedido:

governador, preciso que o senhor libere um jatinho para levar o corpo de um amigo com urgência até passo fundo.

quem morreu?
o jornalista tarso de castro.
quem?
o tarso.
aquele que chamava o quércia de a «dama de ferro» todo dia no jornal?
ele mesmo.
você está louco? não posso fazer isso.
governador, o quércia não precisa ficar sabendo.
tudo bem. mas pelo amor de deus, se ele souber, eu sou enterrado junto com o tarso.

em passo fundo, logo que o corpo chegou ao saguão do aeroporto lauro kurtz, tarso recebeu a primeira «homenagem». ao saber que ali estava sendo transportado o corpo do polêmico jornalista, romeu tuma, então superintendente da polícia federal, não se conteve: «aquele subversivo boca-suja?». ser chamado de boca-suja por um ex-diretor do dops era um elogio e tanto. a segunda homenagem partiu do amigo otto lara resende, articulista da folha de s. paulo, em texto publicado dois dias após sua morte:

«tinha um pacto de felicidade com a vida. pouco importava que a vida não cumprisse a sua parte. eu interpelava os astros: de quem foge tarso de castro? que persegue tarso de castro? ele ria. e o riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. a vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança? na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. sua morte nos punge como um remorso. tantas imposturas, tantos vencedores! adeus, tarso!»

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ao vento

tava olhando aqui
quanto mais eu escrevo
menos leitores eu tenho
sinal que sigo no caminho certo
caminho que eu mesmo escolhi
quando saí da casa dos meus pais
e peguei a estrada

grill

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seu pai falava muito de você.
é?
dizia que você não tinha ambição.
tinha razão.
é mesmo?
minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
você é estranho.

bukovski

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«apenas somos
quando em nada nos tornamos.
é quando perdemos nossas pernas
que nos tornamos corredores.»

rumi

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«aos cavalos não foi dito que tinham que correr para vencer
os cavalos não correm para vencer
os cavalos correm para correr
assim sou eu também
não vivo para vencer
vivo para viver»

fausto wolff

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ao vento


eu sou da geração x
nasci em 1965
conforme li por aí
uma das características dos indivíduos dessa geração
é a ruptura com as gerações anteriores
outra é a autoconfiança
por outro lado
há quem diga que os nascidos na geração x são avessos às mudanças
nada mais distante de mim
nunca tive problema com mudanças
muito pelo contrário
o vento sou eu

grill

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o vento

espalha as sementes, conduz as nuvens, desafia os navegantes.
às vezes limpa o ar, e às vezes suja.
às vezes aproxima o que está distante, e às vezes afasta o que está perto.
é invisível e é intocável.
acaricia você, golpeia você.
dizem que ele diz:
— eu sopro onde quiser.

galeano

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lá vai uma vela aberta
se afastando pelo mar
branca visão que desperta
anseios de navegar

vela aberta | walter franco (1980)

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pouco antes de buda morrer alguém lhe perguntou: quando um buda morre, para onde ele vai – ele sobrevive ou simplesmente desaparece no nada?

dizem que buda respondeu: é exatamente como uma nuvem branca desaparecendo.

lembro de quando havia nuvens brancas no céu. agora, elas não estão mais lá. para onde foram? de onde vieram? como surgiram, e como se dissolveram novamente?

a nuvem branca é um mistério – o vir, o ir, o próprio ser dela.

uma nuvem branca existe sem nenhuma raiz. mas ainda assim existe.

a existência inteira é como uma nuvem branca – sem qualquer raiz, sem qualquer causalidade – ela existe. existe como um mistério.

uma nuvem branca não tem, na realidade, nenhum caminho próprio. vagueia. não tem onde chegar, não tem objetivo, não tem destino a ser cumprido. não tem fim.

você não pode deixar uma nuvem branca frustrada, porque onde quer que ela chegue, é a meta. se você tem uma meta, está destinado a ficar frustrado. quanto mais a mente é orientada para uma meta, mais angústia, mais ansiedade e mais frustração possui – porque quando você tem uma meta começa a se mover em direção a um objetivo fixo.

a existência inteira existe sem qualquer destino. o todo não está indo a lugar algum; não possui nenhuma meta, nenhuma finalidade.

uma nuvem branca deixa-se levar para onde quer que o vento a dirija – não resiste, não luta. o vento é o senhor do seu destino. uma nuvem branca não é um conquistador, e mesmo assim flutua acima de tudo. você não pode conquista-la, não pode vencê-la. ela não tem nenhuma mente para ser conquistada.

uma nuvem branca não tem para onde ir. movimenta-se, vai para todos os lugares. todas as dimensões lhe pertencem, todas as direções lhe pertencem. não rejeita nada. tudo é, existe, numa total aceitação.

por isso chamo meu caminho de «o caminho das nuvens brancas»

como cheguei a ele? lendo
lendo, lendo, lendo
lendo e escrevendo
que é o que vou seguir fazendo
vai vendo...

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de volta ao começo

quando morava com meus pais, eles me diziam um guri sem ambição. e tinham razão. eu não me interessava por nada, só queria que as coisas fossem diferentes do que são.
foi então que saí
para ver se eram
pensei que eram
mas não são

grill

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o medo sem saber fui procurar
e conhecer duas quadras mais além
o ar era igual, as pessoas iguais
me deu na telha dizer pra um cara tchau
o cara me olhou, não entendeu.
ali dobrei duas quadras para lá
oi tudo bem dois guris da minha idade
um me disse tchê, queres fumar?
eu quase disse não, mas aceitei
e tossir, e sentir, e olhar, descobrir e voar
e voar, voar
a descobrir que pasa en la ciudad
e saber como são as pessoas mas alla de aca
como será, como será, como será
como será, mas como será?
e voar, voar, a descobrir que pasa en la ciudad
eu quero voar e voar e saber
como são as pessoas mas alla de aca
o pão que fui comprar e me olvidei
as ruas todas novas e não sei, não sei
querer querer voltar e não saber
os gritos de mamá sobre mi piel
o hálito de menta que inventei
a culpa de fumar e de escapar
mamá espera no pegues, quiero hablar
mamá espera no pegues quiero hablar
vos vas a ver cuando vuelva papá
vos vas a ver cuando vuelva papá
pero para mamá...
vos vas a ver...
vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver
quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar
yo fui a volar, volar
a descubrir que pasa en la ciudad
yo quiero volar y volar y saber
como es la gente mas alla de aca
para la libertad, la libertad...
y volar, volar...

miedo niño | piero (1982)

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de volta ao futuro

tudo isso
foi no mês que vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

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#américas