segunda-feira, 14 de setembro de 2026


itamar assumpção:
pra sempre agora
[dedicado a glênio rissio]


clique no título para ler sobre glenio rissio
contador de hitorias da cultura de pelotas

(brasil de fato, 16 de agosto de 2021)


prezadíssimos ouvintes
(como se fosse o américas)

[clique nos títulos das músicas para ver e ouvir]

minha avó já morreu, o meu pai lá se foi
só ficou minha mãe pra rezar

(itamar assumpção, 1981)
(por batuque de umbigada e anelis assumpção)

bisneto de escravos angolanos francisco josé itamar de assumpção nasceu na pacata cidade de tietê (sp), no dia 13 de setembro de 1949 e passou boa parte de sua infância ouvindo os tambores dos terreiros de candomblé no quintal de sua casa.

negro falava de umbanda
branco ficava cabreiro
fica longe desse negro
esse negro é feiticeiro
hoje o preto vai à missa
e chega sempre primeiro
o branco vai pra macumba
já é babá de terreiro

(pretrobrás, 1998)

itamar não participava do movimento negro – nunca foi «raízes africanas». se casou com uma mulher loira, filha de italianos, do paraná, com quem viveu 35 anos, elizena brigo de assumpção.

as questões da negritude, entretanto, perpassam sua obra. vale lembrar os versos de «cabelo duro»

eu tenho cabelo duro
mas não o miolo mole
sou afro brasileiro puro
é mulata minha prole
não vivo em cima do muro
da canga meu som me abole
desaforo eu não engulo
comigo é o freguês que escolhe
sushi com chuchu misturo
quibebe com raviole
chopp claro com escuro
empada com rocambole
tudo que é falso esconjuro
seja flerte ou love story
quanto a ter porto seguro
tem sempre alguém que me acolhe
é com ervas que me curo
caso algum tombo me esfole
em se tratando de apuro
meu pai xangô me socorre

(isso vai dar repercussão, 2004)

o duelo verbal lhe apetece como defesa da integridade do artista e – ao observador atento assim parecia – dá-lhe prazer triturar argumentos dos que tentam dirigir o seu processo de criação.

pela rebeldia, ousadia e audácia, artistas como ele ganharam a alcunha de «malditos».

«maldito quer dizer o quê? livre?»

polemista, se saía bem, talentoso que era com as palavras não só no âmbito poético. odiava ouvir que só fazia música para intelectual.

em uma de suas tiradas mais famosas disse:

«se tivesse que ouvir conselho, pediria ao hermeto pascoal…»

artista livre. artista brasileiro. gênio, vanguardista, visionário. mas incompreendido, considerado marginal, maldito. a verdade é que «benedito joão dos santos silva beleléu/vulgo nego dito, nego dito cascavel» era tão grande que não se encaixava nos padrões impostos pela indústria da arte.

eu me invoco eu brigo
eu faço e aconteço
eu boto pra correr
eu mato a cobra e mostro o pau
pra provar pra quem quiser ver e comprovar

(beleléu, léu, eu, 1980)

verdade seja dita, itamar não cabia em uma palavra. era múltiplo. são, ao menos, duas versões dele, que se revezam e dialogam entre si.

nasceste no rio, estácio
eu em são paulo, tietê
os nossos passos com passos
afirmam ter tudo a ver

não só na tonalidade
e também no jeitão de ser
circula pela cidade
que sou cover de você

tu és o pérola negra
já desde setenta e dois
eu inventei beleleú
só oito anos depois

além desta pele preta
coisa comum em nós dois
idéias músicas letras
não são só feijão com arroz

dizem formarmos de fato
um belo par de malditos
te chamam de negro gato
me tratam de nego dito

e já que talento é inato
isso tudo estava escrito
num mundo cheio de chatos
(e bota chato nisso!)
até que somos são beneditos

(bicho de 7 cabeças, 1993)

sob a influência das obras de adoniran barbosa, cartola, clementina de jesus, jimi hendrix, miles davis e ray charles e do convívio com alice ruiz, alzira espíndola, arrigo barnabé, chico césar, jards macalé, paulo leminski, ná ozzetti, paulinho le petit, susana salles, rita lee, mônica salmaso, jane duboc, vange milliet, virgínia rosa, zizi possi, zélia duncan entre outros músicos, a obra de itamar assumpção, para além dos rótulos de maldita, underground ou marginal, se afirma pela sua força poética, ao mesmo tempo em que, a partir de doses regulares de lirismo e ceticismo, expõe dores de amor, dramas urbanos, comédias cotidianas.

dentro de instantes, logo após os comerciais
voltaremos com mais lenha neste inverno
eu fico louco, faço cara de mau, falo o que me vem...

(às próprias cusas s/a, 1981)


venha até são paulo ver o que é bom pra tosse
venha até são paulo, dance e pule o rock and rush
entre no meu carro vamos ao largo do arouche
liberdade é bairro mas como japão fosse

(bicho de 7 cabeças, 1993)

seu desejo firme de liberdade de criação e sua recusa de pertencer ao esquema ditado pelas grandes gravadoras, procurando outras formas de divulgação, trouxeram-lhe a pecha de maldito, condição também extrapolada ao recriar interpretações de canções clássicas da música popular brasileira, como as canções do sambista ataulfo alves.

o meu nome ninguém vai jogar na lama
diz o dito popular
morre o homem fica a fama

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)

desde que agitou a cena musical paulistana em 1980 com «beleléu, leléu, eu», até lançar o amargurado «preto brás», em 1998, suas músicas nunca figuraram entre os sucessos das rádios fms. fato que lhe dava uma mistura curiosa de orgulho e dissabor. o grande público tinha uma dificuldade danada de entendê-lo. talvez porque tentar compreender fosse uma missão inútil.

cansei de ouvir abobrinhas
abobrinhas não

(pretrobrás, 1998)

«itamar tinha parceria com o demônio da palavra musicada: apenas começava a cantar, e a música continuava sozinha, no ar», afirmou josé miguel wisnik, à folha de s. paulo. já para outro parceiro, naná vasconcelos, «as músicas de itamar são mantras. chegava ao auge da sabedoria com simplicidade. era o astro do intelecto».

meu amor por você chegou ao fim
é tudo que tenho a dizer
também não precisa sair assim
espere o dia amanhecer

fim de festa
(isso vai dar repercussão, 2001)


isso não vai ficar assim
vai dar repercussão


eu assessorado de mais dois chegados
bartolomeu, ptolomeu
partimos pra comemorar
não lembro o que numa boa boite

escabrosa noite
deu blackout na paulista
breu no trianon
cadê o vão do museu? sumiu

tenebrosa noite
faltou light na paulista
breu no trianon
cadê a consolação?
escureceu o museu
onde está o chão?

(sampa midnight, 1983)

o músico elegante e melancólico se tornou uma das mais perfeitas traduções musicais de são paulo. «por oposição, se pode compará-lo com jorge ben. a música dos dois é comunicativa. mas jorge é alegre, do dia, e itamar era mais amargo, da noite», explicou o grande parceiro arrigo barnabé.

em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é

(bicho de 7 cabeças, 1993)

ao mesmo tempo em que vivia ao lado dos «descolados» e universitários de são paulo, recusava-se a se mudar do bairro da penha, na zona leste, então uma região desvalorizada da capital.

ela me abandonou
porque moro no lado leste da cidade
o lado leste é meu santuário

(beleléu, léu, eu, 1983)

no quintal de sua casa penhense dedicava-se à outra paixão: cuidar de plantas e flores, com carinho especial às orquídeas.

que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
nós somos orquídeas

(bicho de 7 cabeças, 1993)

lançado em dezembro de 1993 (pelo selo alternativo baratos afins), o primeiro volume da trilogia «bicho de sete cabeças» ganhou o prêmio sharp de «melhor disco pop-rock». apesar da qualidade do álbum, a fama de maldito não saia de si.

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

(pretrobrás, 1998)

o próximo disco, «pretobrás», soou como um desabafo do artista que se amargurava pela falta de entendimento do público. «o resultado foi uma raiva exposta como ferida aberta no iracundo «pretobrás'», escreveu o jornalista pedro alexandre sanches.

nem bem cheguei me feri
foi bala na cidade grande
compondo sobrevivi
cantar estancou o meu sangue

(pretrobrás, 1998)

cantor, compositor, escritor, instrumentista, ator, produtor, artista. itamar assumpção foi tudo isso e mais um pouco. foi um homem preocupado com o seu legado. não se vendeu. manteve sua dignidade intacta. defendeu a liberdade. exaltou a negritude, seus ancestrais. criticou a mídia, o racismo, o sistema brasileiro. cuidou das orquídeas. deu comida aos pássaros. coou seus cafés. fez amizades. andou pelas ruas da penha, o bairro de são paulo que se tornou quase o quintal da casa dele. pagou caro por suas escolhas, mas jamais baixou a cabeça.

já cantei num galinheiro
cantei numa procissão
cantei ponto de terreiro
agora eu quero é cantar na televisão

(sampa midnight, 1983)


créditos finais


«quis, quero, quisera
que em beleza caminhe
que haja beleza diante de mim
e beleza atrás
e abaixo
e acima
e que tudo ao meu redor seja beleza
ao longo de um caminho de beleza
que em beleza termine»

possivelmente, assumpção se insira naquilo que paul gilroy chamou de pérolas do atlântico negro, uma das formas culturais de expressão ricamente produzidas pelos descendentes da diáspora dos africanos nas américas. 
ter um fim bem no meio
nenhuma rima em or
um começo que não veio
nossa história de amor

seja meu versejar
cantar como quem resiste
resistir como quem deseja

meu versejar seja
sorriso que te visite
a brisa que te beija
e que te festeja

não
tristeza não
corre, anda, rasteja

peleja sim, coração
em busca da beleza

(empório brasil, 1989)


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#américas