sábado, 5 de setembro de 2026


canção de mim mesmo
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mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

carlos drummond de andrade 

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

bebeth

«eu sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e nunca serei medido. empreendo uma jornada perpétua... ninguém, nenhum outro pode percorrer essa estrada por você, você mesmo deve percorrê-la. não é longe, está ao seu alcance, talvez você esteja nela desde que nasceu e não sabia...»

walt whitman

quando começamos a nascer

quando começamos a nascer, é o ponto de partida de uma jornada pessoal, o instante em que a autoconsciência germina e começa a florescer. à medida que a música avança, a mente compreende o choque entre a vertigem e a rotina. revelam-se então as mentiras do mundo, mas também a teimosia de andar. nesse contexto, sonhar e buscar o amor não são meros atos românticos ou de fuga; tornam-se verdadeiras ferramentas de rebeldia. o final da música, com a repetição de «é a minha vida», transmite uma mistura de aceitação melancólica e determinação pessoal. apesar de reconhecer as «derrotas» e «decepções», o indivíduo opta por ficar, opta por viver sua vida do seu jeito. é a minha vida. e eu fico.

quando começamos a nascer
a mente começa a compreender
que vos sos vos e tenés vida
quão pouco é a realidade 
melhor seguir, melhor sonhar
pois o que vale não é o dia
mas o sol, o sol é 
não é de papel, é de verdade 

você tem boca para falar
e começa a perguntar
e conhece a mentira
com suas pernas vai andar
então começam a lhe confinar
e fica aí com sua rotina
¿y qué vas (y que vas) a hacer?
um se cansa de correr

enche suas malas de amor e vai embora
em busca do corpo de uma mulher
e descobre que o amor é mais do que uma noite e ver o amanhecer juntos
aos poucos você se conforma
se não for amor, ela é sua mesmo assim
e você dá a ela o que ela pedir
ma se lhe oferecerem o fim, você dirá
agradeço, mas vou ficar
porque sou eu, porque é minha vida

(sui generis, 1972)

talvez devesse ficar por aqui
quem sabe ganharia mais leitores 
melhor seguir, melhor sonhar

pouca gente por aqui sabe tudo que já fiz na vida. houve um tempo em que minha ex-mulher e eu inventamos de vender cupcakes para ganhar a vida — por encomenda e de porta em porta. dava trabalho, mas deu certo. só por um tempo. pudera: não sou negociante, sou caminante.

hay un español errante 
y hay otro que no camina.
yo soy de los caminantes.

(olympia de paris, 1969)

outra das coisas que já fiz na vida, e que quase todo mundo por aqui já sabe, foi trabalhar no cfc senna. sim, fui instrutor de trânsito. profissão que exerci, com entrega, prazer e orgulho por exatos dez anos da minha vida. e creiam: recebi mais elogios do que críticas. não vou falar dos elogios, prefiro falar das críticas. uma vez fui informado pela direção de que um aluno teria dito que minhas aulas seriam melhores não fossem meus devaneios. não fiquei zangado, nem triste, nem incomodado. fiquei feliz.

é melhor ser alegre
que ser triste 
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração

(afrosambas, 1966)

quando cansei de devanear no cfc
fui devanear na rua. 
bebi, caí e apanhei. 
um dia cansei e voltei. 
voltei porque quis.

eu quero uma casa no campo
onde eu possa compor muitos rocks rurais 
e tenha somente a certeza dos amigos do peito 
e nada mais

(elis, 1972)

outra coisa que fiz e que não sei se vocês sabem foi plantar horta no repecho. a horta tava indo... um dia, porém, uma vizinha foi nos visitar e, com sorriso nos lábios e olhar maroto, disse: — o canteiro tá torto...

olhei pro canteiro e vi a estrada,
lembrei da vida e dei risada.

«o saber a gente aprende com os mestres e os livros. a sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes».

cora coralina


eu tinha apenas 17 anos
no dia em que saí de casa
e não fazem mais de 4 semanas
que eu estou na estrada

(sá, rodrix & guarabyra, 1972)



o pó da estrada gruda no meu rosto
como a distância, matando as palavras
na minha boca sempre o mesmo assunto
o pó da estrada

(sá, rodrix & guarabyra, 1973)

(10 anos juntos, 1983)


«tento ler através da poeira. pra mim o futuro já é coisa do passado.»

bob dylan

eu ainda sou
aquele sonhador
desculpe se o que eu sinto
é muito antigo

(sá & guarabyra,1982)

ao vento

o presente é como o vento quando vê já passou
o passado já era tá tudo lá

lá onde?

eu me repito? pois bem, eu me repito.
sou imenso, contenho a mim mesmo.

grill 

.

de volta ao começo

eu nasci remediado
criado solto no mundo 
se viver fosse reisado 
se eu me chamasse raimundo 
andorinha no inverno 
beijo terno alma boa 
escrevi no meu caderno 
não passei a vida à-toa

(ceumar e zeca baleiro, 1999)

e o navio?
que navio? 
da pintura 
que pintura? 
de jim daly

há de vir um tempo de vento veloz,
quando a brisa não vai respirar.
como a calma que vem antes do furacão,
na hora em que o navio chegar.
e o mar que se abriu vai se fechar,
fazendo a areia da praia tremer.

e o som da maré vai romper na manhã,
na claridade de um novo dia.
os peixes no ar darão uma cambalhota,
e as gaivotas vão gargalhar.
e até as rochas vão rolar para o mar,
na hora em que o navio chegar.

as palavras ditas
para confundir a tripulação
não farão mais sentido.
pois as correntes do mar
vão se quebrar na noite
e afundarão no chão do oceano.

uma canção será ouvida 
quando a vela for descida 
e o navio por fim aportar.
e o sol respeitará
cada rosto no convés
na hora em que o navio chegar.

oh, os inimigos vão despertar com o sono ainda nos olhos.
saltarão da cama pensando que estão sonhando, 
mas vão se beliscar e gritar, 
e saberão que é verdade 
na hora em que o navio chegar.

então as areias estenderão
um tapete de ouro
para seus pés cansados tocarem,
e os sábios do navio
vão lhe lembrar mais uma vez
que o mundo inteiro está assistindo.

então eles erguerão as mãos, dizendo: «estamos entregues!»
gritaremos então da proa: «seus dias estão contados!»
e como a tribo do faraó, eles serão afogados pela maré. 
e como golias, serão derrubados.

(bob dylan, 1963)

e nelson? que nelson? nelson coelho de castro.

bom, acho que quase todos aqui já sabem, mas não custa nada repetir. sigo seus passos, versos e notas desde quando surgiu na cena musical do rio grande do sul. levei-o comigo, numa fita-cassete, quando fui para são luís do maranhão. um dia a fita caiu nas mãos de zeca baleiro. o resto é história. história que já contei e poderia contar de novo, mas deixemos que o próprio zeca a conte nas páginas de seu livro que está por vir. 

corre o vento, o rio passa..

em 2011, na fábrica cultural em pelotas, encontrei nelson, num único e brevíssimo encontro, e contei de minhas andanças com seus discos pelas ruelas e becos da ilha do amor. ele olhou pra mim e sorriu. não era um sorriso qualquer: era um sorriso aberto, de quem diz que mesmo longe estamos perto. nelson estava certo.

não resta mais nada
que duvide da real felicidade

(nelson coelho de castro, 1981)

antes do fim

falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno 
o tempo custa pra passar 
também a gente pode crescer

(nelson coelho de castro, 1981)

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas