quarta-feira, 29 de julho de 2026


não sou daqui, nem sou de lá
[para maria eduarda grill]

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o mendigo e o sapateiro

deus assumiu a forma de um mendigo e desceu à cidade.
procurou a casa do sapateiro e disse-lhe:
— irmão, sou muito pobre, não tenho nem uma moeda no bolso e estas são minhas únicas sandálias, que estão rasgadas. você poderia me fazer um favor?
o sapateiro respondeu:
— estou cansado de que todos venham pedir e ninguém venha dar.
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar o que você precisa.
e o sapateiro, desconfiado ao ver um mendigo, perguntou:
— você poderia me dar o milhão de dólares de que preciso para ser feliz?
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar dez vezes mais do que isso, mas em troca de algo.
— em troca de quê? — perguntou o sapateiro.
— em troca das suas pernas.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero dez milhões de dólares se não vou poder andar?
então o senhor disse-lhe:
— posso te dar cem milhões de dólares em troca dos seus braços.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero cem milhões de dólares se nem consigo comer sozinho?
então o senhor disse a ele:
— posso te dar mil milhões de dólares em troca dos seus olhos.
o sapateiro pensou um pouco e perguntou:
— para que eu iria querer mil milhões de dólares se não vou poder ver minha esposa, meus filhos, meus amigos?
então o senhor disse a ele:
— ah, irmão, irmão! que sorte tens e não percebes.

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pois é...

outro dia, lendo a coluna de paulo santana, deparei-me com o tema da felicidade — um de seus prediletos. santana contava que certa vez passou por uma sinagoga e entrou. estava lotada de judeus e de curiosos. falava um rabino. e o rabino discorria sobre os sonhos do homem, que são três: ser rico, ser forte e ser sábio.

de acordo com o rabino:

1. o homem quer ser forte, mas pensa que ser forte é dominar os outros. engana-se: ser forte é dominar-se a si próprio.

2. o homem quer ser sábio, mas imagina que ser sábio é abeberar-se da cultura dos livros, dos ensinamentos que os sábios nos legaram pela escrita. quando, na verdade, ser sábio é outra coisa: ser sábio é aprender com cada pessoa que se encontra na vida.

3. o homem quer ser rico, mas não sabe que ser rico não é amealhar toda a riqueza, ganhar e juntar todo o dinheiro que se possa. ser rico, acrescentou o rabino, é contentar-se com o que se tem.

das reflexões e ensinamentos do rabino, paulo santana concluiu: «esta é a sabedoria, este é o jeito de ser feliz: mostrar-se satisfeito com o que se possui. e não querer se tornar feliz desejando aquilo que não se conseguiu ou não se pode conseguir. venham por mim», convidou paulo.

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o trecho acima é o início de um texto que escrevi e enviei para o e-mail de paulo santana. o texto, na íntegra, está logo abaixo. nele, faço uma analogia entre o que disse o rabino e o que dizia facundo cabral. esperei uma semana, um mês, dois meses, três meses... e nenhuma resposta de paulo. um dia estou escutando o sala de redação e um dos participantes diz: «muito bonito aquilo do facundo cabral na tua coluna de hoje, santana...» fui correndo à banca mais próxima e na coluna do santana havia uma série de frases de facundo cabral e uma pequena citação dizendo haver recebido um e-mail meu (se mostrando surpreso por nunca ter ouvido falar em facundo cabral). procurei esta primeira coluna para compartilhar aqui, mas, infelizmente, não encontrei. na sequência, paulo escreveu, pelo menos, mais duas colunas citando facundo cabral — ipsis litteris — do texto enviado por mim a ele (sem dar os créditos, é claro...). não fiquei triste, nem revoltado. fiquei feliz. afinal de contas, o que eu queria, enviando meu texto para paulo, era popularizar o nome de facundo cabral, não o meu — e isso eu consegui.

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antes do texto, vejamos o que diz a inteligência artificial sobre a relação de paulo sant'ana com facundo cabral.

«o cronista gaúcho paulo sant'ana admirava profundamente o cantor e compositor argentino facundo cabral, citando-o frequentemente em suas colunas em zero hora como uma referência de sabedoria popular, liberdade existencial e profunda sensibilidade poética sobre a vida e o tempo.

ambos compartilhavam de um olhar lírico, melancólico e intensamente filosófico acerca do cotidiano e da mortalidade.

sant'ana usava pensamentos e trechos de apresentações de cabral para ilustrar reflexões profundas sobre a solidão humana, a alegria simples e a grandeza de existir.»

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facundo cabral

[por enilton grill]

admirador de diógenes e são francisco de assis, da poesia de whitman e da genialidade de borges, facundo cabral foi um crente fervoroso e um anarquista convicto. através de suas canções, histórias e pensamentos, ele transformou a busca incessante pela felicidade em uma profunda reflexão sobre a vida e a humanidade — sempre guiado pelos valores inabaláveis da liberdade, da igualdade e da solidariedade.

tal qual um trovador da idade média, o compositor argentino transformava cada um de seus recitais e entrevistas numa oportunidade para narrar histórias e transmitir suas ideias e pensamentos.

pela sinceridade de suas palavras, facundo cabral parecia um discípulo direto de diógenes. aliás, o compositor e escritor argentino costumava citar o filósofo grego em seus recitais: diógenes, sempre que passava pelo mercado, ria porque dizia que achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz ao ver quantas coisas havia no mercado das quais ele não precisava. ou seja, rico não é quem tem mais, mas quem precisa de menos, dizia facundo cabral.

uma das frases mais célebres do trovador argentino é: foge dos que compram o que não necessitam, com dinheiro que não têm, para agradar quem não vale a pena. nela, o misto de poeta, compositor, escritor e profeta resumiu várias de suas críticas à escravidão do homem em relação à sociedade de consumo.

inumeráveis declarações, sentenças e versos expressam o pensamento filosófico e ajudam a entender melhor o ideário de facundo cabral. por exemplo: no soy de aquí, ni soy de allá / no tengo edad, ni porvenir / y ser feliz es mi color / de identidad. verso este, aliás, que o aproximava mais ainda de diógenes, que, muito antes de facundo, já dizia: não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.

outra: gente infeliz, essa que vive se comparando.
mais uma: quando não tens nada, pensas que não vales nada.

sobre essa sociedade que insiste em reduzir as relações humanas ao jogo sinistro do consumo e da competição, diz facundo cabral: o conquistador, por cuidar de sua conquista, se converte em escravo do que conquistou. diz mais: quem não está disposto a perder tudo, não está preparado para ganhar nada.

essa civilização, que confunde quantidade com qualidade — dize-me quanto consomes e te direi quanto vales —, propaga, em quase todos nós, o medo, a desconfiança e a competitividade desenfreada. dou a cara ao inimigo, as costas ao bom comentário, porque aquele que aceita um afago começa a ser dominado; o homem acaricia o cavalo para montá-lo..., ensina facundo cabral.

mas suas palavras podiam ser luminosas também: cada manhã é uma boa notícia, cada criança que nasce é uma boa notícia, cada homem justo é uma boa notícia, cada cantor é uma boa notícia, porque cada cantor é um soldado a menos... outra: fui analfabeto até os 14 anos, por isso quando me dizem «NÃO POSSO», eu digo «NÃO FODE».

não entendeu? o mestre explica: sempre, com o que se tem, se pode, se deve começar de novo; o dever do homem é ser feliz.

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e sobre o plágio? fala mais sobre o plágio...
pois é, sobre o plágio a pergunta que não quer calar é:
e se fosse o contrário, isto é, se o plagiador fosse eu e o plagiado, paulo?
não sei, ninguém sabe.
o que eu sei é que, como o plagiado fui eu, não aconteceu nada
- por quê?
- porque eu não quis

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companheiro que passas pela estrada,
seguindo pelo rumo do sertão
quando vires a cruz abandonada,
deixe-a em paz dormir na solidão.

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já ia embora
mas resolvi voltar
me lembrei de julio iglesias
e de sua passagem por porto alegre

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https://www.youtube.com/watch?v=YwUhurFvX7Q
julio iglesias e paulo santana - teatro do sesi - 2008
[recuerdos de yapacaraí]

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a propósito de julio igliesias...
com a palavra, facundo cabral

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«estávamos em nova york um dia e, quando saíamos do teatro do lincoln center, um jornalista se aproximou de mim e disse: "sr. cabral concordo com tudo o que o senhor disse esta noite, exceto que deus é sempre justo. se deus fosse sempre justo, o senhor teria tanta visibilidade e tanto sucesso quanto julio iglesias. ao que respondi: "claro que deus é sempre justo. julio iglesias tem mais exposição e mais sucesso do que eu, pois ele precisa de dinheiro muito mais do que eu para viver. eu, que preciso de mais liberdade que julio para viver, deus me fez mais livre.»

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«minha avó gostava muito de julio iglesias, por isso toda vez que o via na televisão me dizia:
- você deveria fazer um dueto com esse homem. seria uma dupla extraordinária.
- por que avó?
- imagine, ele as excita e você as faz pensar.»

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de volta ao começo

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facundo veio ao mundo nas ruas de la plata. na véspera de seu nascimento, seu pai abandonou a família. sem um lar, sara e seus oito filhos iniciaram uma longa migração em direção à terra do fogo, no extremo sul da argentina.

conta facundo:

«vagamos sete anos de cidade em cidade atravessando campos. um dia, queixou-se um irmão e disse: "todo mundo tem uma casa, menos nós". e minha mãe disse a ele: "eles são pobres porque só têm uma casa. nós somos ricos porque temos un mundo para andar, segue andando".»

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«e o senhor disse a abraão: sai-te da tua terra e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.»

gênesis 12.1

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

https://www.youtube.com/watch?v=KeoIZ523q38&list=RDKeoIZ523q38&start_radio=1
no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»

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