quinta-feira, 27 de agosto de 2026


ave rara! ave rada!
[morrendo e aprendendo] 

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«aprendi a cantar atrás dos tambores»

rubén rada 

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entrevista com rubén rada 

por: ariel fagundes
para: revista noize

8 de novembro, 2023

noize: como o público negro uruguaio recebeu seu som, o que achou de misturar o candombe com outras musicalidades?

rubén rada: é porque o candombe, como todos os ritmos do mundo, como o samba, o frevo, tudo, não tem música, é um ritmo. e nós, os músicos, roubamos o ritmo para fazer música. mas o ritmo na rua não precisa de música. você pode cantar o que quiser. eu aprendi a cantar atrás dos tambores. ali eu aprendi a entender o ritmo e a gostar disso. quando eu era muito pequeninho, tinha a banda policial, a banda da marinha, e eu ia atrás, sem sapatos, nada. descalço, atrás da banda.

noize: mas as pessoas entenderam quando surgiu o chamado «candombe-beat»?

rada: não, eles não entendiam, especialmente os negros. a gente sabe que, no mundo inteiro, as raças, ainda que sejam a mesma, todas pensam diferente. então a maioria dos negros não gostava. mas outros, que eram mais modernos, entendiam e gostavam dessa música. mas tem muito mais brancos no uruguai. nós éramos, na época, nos anos 1950 ou 1960, uns 10% da população. e depois os militares [na ditadura de 1973-1985] derrubaram os cortiços, que eram como se fosse o harlem, onde moravam todos os negros, e todo mundo fazia a sua música. em uma festa de negros, você entra e já tem festa. em uma festa de brancos, ninguém fala, até que comece o álcool ou o baseado, e as pessoas comecem a ficar à vontade. em uma festa de negros, chega um negro com uma roupa toda azul e com uma boina verde, por exemplo, e todo mundo: «olha, parece um passarinho», e aí começa a festa. 

noize: hoje não há dúvidas de que você é uma das pessoas mais importantes para a cultura afro-uruguaia, se não a mais importante.   

rada: sim. eu trabalhei muito para isso. sofri muito também.  

noize: que tipo de sofrimento?

rada: de racismo. todo mundo critica todo mundo. e nós, negros, criticamos também. quando eu tive uma namorada branca, minha mãe disse: «não, ela vai rir de você. deixa isso. quando tiverem um filho, ele vai ser diferente na escola». todos somos racistas, o negro também. se você for à áfrica, e for uma mulher branca, a família do negro prefere que você se case com uma mulher negra. e isso é uma coisa que eu não tinha a consciência que agora eu tenho. 

noize: essa questão vem avançando no uruguai?

rada: sim, mudou no mundo. eu me lembro do primeiro casamento do sammy davis jr., que se casou com uma mulher branca e judia. a minha esposa é branca e judia. mas naquele momento foi uma coisa que as pessoas não conseguiam entender, que nem quando o john lennon se apaixonou pela yoko. o pobre inglês odiava aquela mulher, e fizeram muito mal a ela somente porque era japonesa. o mundo foi muito cruel e é muito cruel agora também. então, o importante é o que minha mãe falou pra mim: «você não está mal, não está doente, os doentes são eles». então aprendi isso, se tem uma pessoa que não gosta de mim porque eu sou negro, bom, que siga seu caminho. eu sigo o meu. devo isso à minha mãe. como falava malcolm x, eu não posso esperar que o branco entenda que o preto é igual a ele. era isso o que propunha o martin luther king: paciência com o branco. e o malcolm x dizia: «eu tenho uma vida só, não tenho tempo de vida pra ter paciência e esperar que o branco me entenda, eu quero viver agora».

noize: e além do racismo, você teve também que enfrentar a ditadura no uruguai.

rada: sim! mas era tão ignorante a polícia do uruguai. eu havia gravado uma canção que dizia: «si te gusta comer manzanas/ son más frescas por la mañana» [«se você gosta de comer maçãs/ são mais frescas pela manhã»]. então eu era muito conhecido como um homem divertido. e aí nós vínhamos em um táxi, cinco pessoas, e os militares nos pararam. e eu havia gravado com totem: «dedos son dedos, días son días/ madres son madres, hijos son crías/los pensamientos son todos míos/ pero mi lengua ya no es tan mía» [«dedos são dedos, dias são dias/ mães são mães, filhos são crias/ os pensamentos são todos meus/ mas minha língua já não é tão minha»]. porque você não podia falar. mas eles não entendiam essa letra, eles pensavam que o rada era um negrinho que cantava «las manzanas». «ah, vocês estão com o negro rada! canta pra mim!», e nos deixaram passar. mas eu era de esquerda, estava contra eles. apesar de que eles mataram muita gente de esquerda, eu pensava que os comunistas eram inteligentes, por isso que [os militares] iam e queimavam os livros, os quadros e tudo da gente. eles não eram bobos, sabiam que havia gente capaz. e bom, assim foi sempre. foi duro chegar aos 80 anos. e agora todo mundo me quer, todo mundo me respeita. mas politicamente sempre estou do lado do povo. sempre. 

noize: e como você vê a ascensão da extrema direita no uruguai e aqui no brasil?

rada: bom, eu não gosto, mas não posso falar mais nada. porque, quando você fala fora do país, eu jamais falo «eles, os uruguaios». não, eu falo «nós, os uruguaios». eu sou culpado de tudo o que acontece no meu país, de mau e de bom. então, eu não gosto, mas tampouco saio apontando dedos, nada disso [«antes de apontar o dedo para alguém, lembre-se de que três dedos apontam para você»]. eu luto com a cultura.  

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ay, ay, ay, que se va la vida
mas la cultura se queda aquí

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rubén rada y león gieco
80 años
en vivo 

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ave rara! ave rada!

em 1996, com apenas um ano de américas, viajei para porto alegre para o cantamérica e entrevistei, entre outros, mercedes sosa, león gieco e rubén rada. com relação a este último, a única referência que eu tinha, na época, era a gravação de nei lisboa para «candombe para gardel». quanta ignorância! apesar de ter praticamente furado o vinil pensar en nada, de gieco, de tanto escutá-lo, eu não tinha atentado para o fato de que a percussão e a bateria de «la cultura es la sonrisa» eram obra e graça do negro rada. vai vendo... negro rada voando e a gente aqui: morrendo e aprendendo.

grill

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la cultura es la sonrisa con fuerzas milenarias
ella espera mal herida, prohibida o sepultada
a que venga el señor tiempo y le ilumine otra vez el alma

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león gieco : voz e violão
rubén rada: bateria e percussão
dino saluzzi: bandoneón
osqui amante: backing vocals

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#salacheguevara
#casadosaedos
#averada
#américas