quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

poema em linha reta

••••••••••••••

quanto mais escrevo
menos leitores tenho
quanto menos leitores tenho
mais escrevo

autor desconhecido

.

– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

••••••••••••••

o poeta que era uma multidão

pelo que se acreditava, fernando pessoa, o poeta de portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas.
no final de 2010, o escritor brasileiro josé paulo cavalcânti conclui sua pesquisa de muitos anos sobre «alguém que sonhou ser tantos».
cavalcânti descobriu que pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo.
seus vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros...
alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.

eduardo galeano | os filhos dos dias, p. 389

••••••••••••••

um homem comum

tenho sérias críticas às redes sociais e afins, e a quem nelas publica apenas seus sucessos e vitórias. está difícil para todo mundo. daí tu abres as redes sociais e é só sucesso, só gente feliz e se dando bem. isso é um passo para tu achares que o problema é teu. em outras palavras: que tu és um merda.

enfim, acho que a exposição exclusiva de vitórias e sucessos, além de ser falsa, pode ser desestimulante para quem nos lê. sim, por mais insignificantes que sejamos, nunca escrevemos para o vazio.

sendo assim, de vez em quando compartilho também minhas derrotas, minhas dificuldades e meus fracassos. talvez isso inspire algumas pessoas a encararem seus tropeços como algo comum. ninguém é campeão em tudo.

grill

••••••••••••••

un hombre común tiene una patria, una bandera,
un amor, una cara, una nariz, alguna miseria,
una alegría, una vieja enfermedad, alguna estrella
un llanto, una deuda, un rencor, una nueva franqueza.

un hombre común tiene un paladar, olor a vino,
un gesto, un apellido, un hijo muerto, un asesino,
un pasado, un presente, un futuro y un destino,
un amor, una idea, un color,
alguno que otro delirio.

hablo de un hombre común.

un hombre común tiene una niñez, un adulterio,
un presidente, un ministro, un patrón, alguna infamia,
una inflación, una traición, un corazón, algún silencio,
un horario, un trabajo, una vergüenza, mucha rabia.

rabia de un hombre
común.

un hombre común tiene un sexo y un apellido,
una cárcel, una herida, un sueño, un inquilino,
tan común como los ojos, los labios, el aliento,
la bronca, el sol, el cuerpo, y yo te quiero
un hombre común, tiene todo común
un nacimiento, un bautismo, una impotencia,
un dios común... que mira sorprendido...
cómo el mundo está confuso y aturdido

y entonces canta, al menos canta

un hombre común
tiene siempre lo que tiene que tener
ganas de vivir la vida, nuestra vida
y que se dejen de joder.

piero / josé (1983)

••••••••••••••

poema em linha reta

nunca conheci quem tivesse levado porrada.
todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

toda a gente que eu conheço e que fala comigo
nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
não, são todos o ideal, se os ouço e me falam.
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
ó príncipes, meus irmãos,

arre, estou farto de semideuses!
onde é que há gente no mundo?

álvaro de campos

••••••••••••••

palavra dada é palavra escrita

[por enilton grill]

escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo, mas sim a frequência com que escrevo.

quanto mais escrevo, melhor me sinto.

não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.

explico: se estou escrevendo sobre álcool, não significa que estou bebendo. se estou escrevendo sobre morte, não significa que estou morrendo. e o mesmo se dá com relação à esperança: se estou escrevendo sobre desesperança, não significa que estou desesperançado.

é como se a vida fosse um teatro e a folha em branco o meu palco — lugar onde tanto posso escrever um texto triste com sorriso nos lábios quanto um texto alegre com lágrima nos olhos.

na minha folha em branco, nada é proibido, tudo é permitido; nada é longe, tudo é perto; nada é errado, tudo é certo. meu palco é sagrado, minha palavra é um mundo em aberto.

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.

••••••••••••••

e a folha em branco?

••••••••••••••

já contei essa história, mas ontem um poeta e amigo, por conta de uma publicação minha, me enviou uma canção pelo whatsapp e me deu uma vontade danada de contar de novo e mais uma vez.

em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís, consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «cara, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». dali pro bar da esquina foi a distância de meia quadra (moradores de satolep entenderão). de lá pra cá jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas. aprendi no aa.

••••••••••••••

e a canção?

••••••••••••••

como se a vida fosse
uma folha em branco
que viraste agora
e com tuas mãos, enfim,
pudesses escrever
uma nova história
tudo por fazer,
o mundo ainda tão novo
te pedindo a escrita
a boca sussurrando
a forma das palavras
que um dia serão ditas

como se sonhasses
um engenho novo
reinventando o tempo
e desses o teu gosto
--- a tua assinatura ---
à arte desse invento
o horizonte aberto,
o sul,o norte incertos,
à espera dos teus passos
na esquina ali em frente,
a esperar a gente
a paz de um novo abraço

mistério de viver, o eterno renascer
a cada novo dia
o que virá, virá! (e sempre há de vir),
o futuro não se adia!
mas escolher a fruta boa, a canção que soa
o tom da nossa voz...
o que fazer de cada dia... essa é a nossa poesia
isso sim, pertence a nós!

como se nascesses
para um novo mundo
neste exato instante
e as coisas simples
fossem doravante
as coisas importantes
um afago, um beijo,
um abraço amigo
um momento a dois
porque o demais não conta,
o tempo das ausências
fica pra depois!

zebeto corrêa (mg) / martim césar (rs)
intérprete: zebeto corrêa

••••••••••••••

lento mas vem

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigila ao sol
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem
as últimas janelas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes

com anjos maltratados
e fiéis andorinhas

devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos

as recordações dormidas
e as recém-nascidas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias

com uma estrela pobre
sem nome ainda

lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

mario benedetti

••••••••••••••

nasça o que nasce
que passe o que passa
nasça o que nasce
e que passe o que passa
mesa cadeira
televisor
sol geladeira
lençol cobertor
árvore telha
vento vapor
pássaro abelha
despertador
leite cigarro
gelo café
plástico ferro
pão chaminé
chave moeda
página pé
fósforo pedra
sangue chiclé

walter franco / arnaldo antunes (2001)

••••••••••••••

antes do fim

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar mas vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

••••••••••••••

#américas