vencidos
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carla -- ixpia so esta foto que resgatei na bebeth, acho que somos nós dois!
eu -- acho que sim. tu és tu, eu é que não sei se eu sou eu...
carla -- creio que sim, és tu, não nos separávamos nesta época,
como em outras tantas épocas.
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«não sei: talvez seja um sonho, tudo um sonho. (isso me surpreenderia.) vou acordar, no silêncio, e nunca mais dormir. (serei eu?) ou sonhar (sonhar de novo), sonhar com um silêncio, um silêncio onírico, cheio de murmúrios (não sei...).
você precisa continuar, é tudo o que sei.»
(samuel beckett em «o inominável»)
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tempo sem tempo
preciso de tempo, necessito desse tempo
que os outros deixam de lado
porque lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele
tempo
em branco
em rubro
em verde
mesmo em castanho escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu não posso abrir
e fechar
como uma porta
tempo para olhar uma árvore, um farol
para caminhar à beira de um descanso
para pensar que bom que hoje é inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e dar-me conta
e dar-me corda
preciso do tempo necessário para
chapinhar algumas horas na vida
e investigar por que estou triste
e acostumar-me ao meu velho esqueleto
tempo para esconder-me
no canto de um galo
e para reaparecer
em um relincho
e para estar em dia
para estar à noite
tempo sem recato e sem relógio
vale dizer, preciso
ou seja, necessito
digamos que me faz falta
tempo sem tempo.
mario benedetti
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whatsapp, 5 de julho de 2026
carla: muy buenos días, quase subo em um ônibus em direção a pelotas pra te ver, abraçar e conversar.
eu: à tua espera, hermanita del alma. muita saudade. beijo grande.
carla: na vida da nossa geração que possui tutano cerebral não foi e não é fácil pra ninguém... não fugi pra estrada porque a maria luiza, minha neta, está aqui em casa conosco depois de alguns meses sem nos ver.
eu: oh, hermana, por enquanto ainda tô me readaptando à cidade...
carla: não te preocupa, carinho, quero fugir mas podes ter certeza de que já não fujo assim, no mais, como há mais de 45 anos atrás... minha casa segue sendo tua casa, conta comigo...
eu: e a minha a tua, nossa estrada é a mesma, o ca(r)minho que vem é o mesmo que vai... conta comigo...conto contigo...
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canção de mim mesmo
«me canto e me celebro, me celebro e me canto. e se me canto e me celebro, te celebro e te canto, porque cada átomo que me pertence, te pertence, porque cada átomo que te pertence, me pertence, porque tu e eu somos a mesma coisa», dizia o velho whitman (em «canção de mim mesmo»).
sem mais o que dizer, só me resta cantar...
grill
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um certo dia eu perguntei a maria
se hoje é noite de são joão
meu quarto tem bandeiras
eu perguntei a maria dos santos
seu nome era benedito da lagoa
e tinha vinte e quatro anos de folia
e vinte anos de agonia no coração
eu perguntei a respeito das doenças da mente
da decadência do nosso grande hospital
e perguntei a respeito do planeta
girando numa roleta
bola do bem e do mal
eu perguntei a maria dos santos
quanto custa pra se viver?
maria dos santos | alceu valença (1977)
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«e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
por aqueles que não podiam escutar a música.»
nietzsche
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o universo é música
eu ia guiando o meu carro pelos caminhos de minas gerais enquanto ouvia o «messias» de haendel. percebi então, repentinamente (as revelações sempre acontecem de repente), as razões por que amo tanto aqueles lugares. é que lá eu retorno, ainda que por um curto espaço de tempo, ao mundo barroco, e experimento a felicidade da alienação... tudo é harmonia.
rubem alves
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com muito amor para todos os seres!
que possamos encontrar nosso reflexo em tudo o que vive!
re-habitando nosso poder.
reconhecendo que somos um com a mãe terra.
que possamos encontrar nosso reflexo em tudo o que vive!
re-habitando nosso poder.
reconhecendo que somos um com a mãe terra.
hiri canaro | palo mango (video oficial)
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nota
não conhecia essa música nem a banda; fui apresentado a elas pelo algoritmo. pedi, então, informações sobre o grupo ao gemini (ia). ei-las:
«palo mango é uma banda de música de medicina, meditação e xamanismo. hiri canaro é uma de suas canções mais conhecidas. «hiri» é um termo de línguas indígenas, é um chamado espiritual ou mantra. «canaro» remete a canto ou ao pássaro canário. a música usa cantos sagrados para cura e conexão. ela usa instrumentos suaves e vozes repetitivas. isso ajuda a relaxar a mente e entrar em estado de paz.»
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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»
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tava nessa vibe quando, do nada, olho para o lado e dou de cara com um disco de cátia.
— que cátia?
— cátia de frança.
— qual disco?
— 20 palavras ao redor do sol.
surge então a canção «ensacado»: uma condução de vogais que faz contraponto a imagens vividas.
para ouvidos atentos, ali pulsa o barulho de sopa fervida — o alimento ensacado dos moinhos que sustenta a própria persona, que não é outra senão a do imaginário.
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moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol
ensacado | cátia de frança / sérgio natureza (1979)
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«disseram que eu inventava coisas.
eu apenas via o avesso do mundo que eles teimavam em chamar de real.»
autor desconhecido
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saúde mental
fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. e eu também pensei. tanto que aceitei. mas foi só parar para pensar para me arrepender. percebi que nada sabia. eu me explico.
comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. homens que tenho no meu coração. e logo me assistei. foram todos desajustados e infelizes.
van gogh, walter benjamin e maiakóvski cometeram suicídio. nietzsche ficou louco. fernando pessoa era dado à bebida. cecília meireles sofria de uma suave depressão crônica.
ajustamento produz contentamento.
a criatividade e a imaginação vêm do desajustamento.
as pessoas que amo não tinham saúde mental. então por que as amo? pelas coisas que elas produziram. as pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer a engrenagem funcionar. mas só as desajustadas pensam outro mundo.
rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 177
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«quisiera ser niña otra vez, medio salvaje, intrépida y libre...»
emily brontë
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oh, hermana,
certa vez, quando eu era guri, de calça curta ainda, em santa vitória do palmar, tive a sorte de a carla nos visitar e passar uns dias conosco. foi então, e com ela, que ouvi pela primeira vez os beatles.
depois, quase adolescente, fui apresentado por ela a um disco de chico buarque. foi com ela que ouvi pela primeira vez cálice, pequeña serenata diurna, pedaço de mim, pivete, até o fim, tanto mar, feijoada completa e apesar de você.
na sequência vieram elis, tom, milton, bethânia, gal, caetano, gil... ednardo, elomar, dylan, os discos de jazz, os discos de rock, livros, revistas, artesanato, pintura...
mi hermanita é um mundo aberto, e foi de andar tão perto que o mundo se abriu para mim. hoje estamos longe, mas é como se estivéssemos perto. e assim será... até o fim...
disso estou certo.
grill
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a rosa também se muda
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto
https://www.youtube.com/watch?v=8jLm-Q1lVL0&list=RD8jLm-Q1lVL0&start_radio=1
cantiga de manoel leandro | folclore do piauí
por: tarancón
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto
https://www.youtube.com/watch?v=8jLm-Q1lVL0&list=RD8jLm-Q1lVL0&start_radio=1
cantiga de manoel leandro | folclore do piauí
por: tarancón
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ao vento
de tudo que acabei de falar
o que mais me admira
são os dez anos que trabalhei
como instrutor de trânsito
tendo que falar de improviso
para turmas heterogêneas
e no final dos cursos
os alunos
via de regra
me aplaudirem de pé
acho que era a necessidade
ela opera milagres
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não
grill
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«velho chico vens de minas
de onde o oculto do mistério se escondeu
sei que o levas todo em ti, não me ensinas
e eu sou só, eu só, eu só, eu»
caetano
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«mi voz es opaca y sin brillo
vale poca cosa para reforzar un coro
sin embargo
me sirve para rezar yo sólo.»
león felipe
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cantar
cantar e cantar e cantar
ao vento,
como quem respira por necessidade.
whitman diria que a américa é um coro de vozes rudes;
cecília, que o instante é o sopro do poeta;
galeano, que o silêncio é a morte do mundo;
drexler, que a música é o silêncio que aprendeu a soar;
espinosa, que a alegria é o grito da potência que se afirma.
e gonzaguinha, na voz de drexler,
canta que a beleza é a insistência
de continuar soltando a voz,
mesmo quando ela não ecoa.
grill
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y la vida
¿qué es la vida, mi hermano? esa es la cuestión
¿es acaso el latido de un corazón?
¿o una dulce ilusión? ay, vida
¿será que es maravilla o es sufrimiento?
¿será que es alegría, tal vez un lamento?
¿qué será, mi hermano, que la vida es?
¿qué será que es? | gonzaguinha (1982)
canta: jorge drexler
[clipe feito com imagens de super 8 do cantor e seus irmãos na infância.]
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ostra feliz não faz pérola
(fragmento)
no seu ensaio sobre «o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música», nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. tragédia era tragédia. não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. a resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. a beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. a felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. ela se basta. mas ela não cria. não produz pérolas. são os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.
rubem alves
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«comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.»
(idem)
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esto que estás oyendo
ya no soy yo
es el eco, del eco, del eco
de un sentimiento
su luz fugaz
alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva
y que trae el viento
eco | jorge drexler (2004)
(con letra)
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whatsapp, 7 dejulho de 2026
carla: «quem sabe direito o que uma pessoa é...», isa está fazendo sua cnh, meses atrás comentei que em outras circunstâncias tu podias ser seu instrutor para ela jamais cometer uma infração ou uma barberagem! te quiero mucho! um abraçaço
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oh, as irmãs da misericórdia
elas não partiram ou se foram
elas estavam esperando por mim
quando eu pensava que não poderia continuar
e elas me trouxeram seu conforto
e depois elas me trouxeram esta canção
oh, espero que você as encontre
você que tem viajado por tanto tempo
sister of mercy | leonard cohen (1967)
[live in london - legendado em português]
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nota
antes de tornar pública a nossa charla pelo whatsapp, perguntei a mi hermanita del alma, o que ela achava, se ela se importava...
mi hermana respondeu: «gosto muito do que escreves tenho uma identificação profunda com tuas palavras em tudo que escreves, conta comigo, possuis todo meu respeito e admiração.»
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aos terapeutas
albert camus escreveu no seu diário um pensamento que julgo ser merecedor de cuidadosa meditação dos terapeutas, especialmente psicanalistas: «por uma psicologia generosa: ajudamos mais uma pessoa dando dela própria uma imagem favorável do que apontando constantemente os seus defeitos e as suas derrotas.
rubem alves | ostra feliz não faz pérla, p. 178
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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração»
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anos atrás, num almoço de páscoa, me chamaram idealista
e disseram que assim eu não chegaria a lugar algum.
tudo numa boa. conversa em alto nível. sem estresse.
no entanto, não era a primeira vez que acontecia.
cresci ouvindo isso. nada mais normal, portanto,
que estivesse preparado pra responder à altura.
foi o que fiz. falei de vencidos e de vencedores.
me disse dom quixote e lembrei
león felipe e darcy ribeiro.
grill
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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»
darcy ribeiro
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cuántas veces, don quijote,
por esa misma llanura,
en horas de desaliento
así te miro pasar
y cuántas veces te grito:
«hazme un sitio en tu montura
y llévame a tu lugar.»
vencidos | león felipe / joan manuel serrat (1971)
(con letra)
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#américas
