crônica de um sonho
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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»
manoel de barros
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«sinta mais, pense menos»
bukowski
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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»
facundo cabral
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repecho
acho que já disse isso, mas vou dizer de novo: o repecho (sítio que foi dos meus ex-sogros) fica ao lado da casa que foi de minha avó. ou seja, o repecho fica ao lado da casa onde meu pai nasceu.
a vida dá voltas e, depois de muito andar, um dia voltei ao lugar onde brincava de subir em árvores quando era guri.
quando cheguei ao repecho pela primeira vez, fazia talvez uns 30 anos que não ia para aqueles lados. mas, conforme fui me aproximando da casa onde meu pai nasceu, não tive dúvidas e disse para a vivi: «minha vó morava aqui».
a casa ficava na encosta de uma colina, junto à orla de uma mata mais extensa, no meio de um jovem bosque de pinheiros e nogueiras, e a cerca de sessenta metros do lago, ao qual se descia por uma trilha estreita. no terreno da frente cresciam morangos e amoras-pretas, e o jardim era sempre vivo e colorido. pelo final de maio, a ameixeira-brava adornava as margens do caminho com suas flores delicadas. depois da curva da estrada havia uma escada... onde a gente sentava e olhava a vida... a vida que passava...
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depois da curva da estrada
tem um pé de araçá
sinto vir água nos olhos
toda vez que passo lá
amora | renato teixeira (1979)
[com letra e imagens]
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«homens não choram
- pai, eu acho que não sou homem...
decepcionado, o pai chorou.
aliviado, o filho sorriu, vendo que o pai também não era.»
gabriel araújo de aguiar - brasília (df)
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no final de 1983, quando chegamos a são luís (ma) — pai, mãe e os três irmãos —, eu levava na bagagem erva, cuia e uma fita cassete. na verdade, fui o último a chegar e o primeiro a sair. meus pais e meus irmãos tiveram breves passagens por aqui, mas acabaram ficando por lá. só eu, depois de vir, nunca mais voltei. nunca mais voltei é forma de dizer — nunca mais voltei para morar, pois retornei várias vezes para visitar a família e duas vezes para me tratar do alcoolismo.
em setembro de 1989, quando saí de são luís, rumo a brasília, para participar do flaac --- festival latino-americano de arte e cultura, levava na mochila, erva, cuia e um sonho. o sonho tinha cheiro de terra molhada e o tamanho exato da paz:
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eu quero uma casa no campo
onde eu possa compor muitos rocks rurais
e tenha somente a certeza
dos amigos do peito e nada mais
eu quero uma casa no campo
onde eu possa ficar do tamanho da paz
e tenha somente a certeza
dos limites do corpo e nada mais
eu quero carneiros e cabras
pastando solenes no meu jardim
eu quero o silêncio das línguas cansadas
eu quero a esperança de óculos
e meu filho de cuca legal
eu quero plantar e colher com a mão
a pimenta e o sal
pastando solenes no meu jardim
eu quero o silêncio das línguas cansadas
eu quero a esperança de óculos
e meu filho de cuca legal
eu quero plantar e colher com a mão
a pimenta e o sal
eu quero uma casa no campo
do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê
onde eu possa plantar meus amigos
meus discos e livros, e nada mais
casa no campo | zé rodrix /tavito (1972)
elis regina chora ao cantar «casa no campo»
(raríssimo!)
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sonho realizado
de volta à cidade
trago na mochila
erva, cuia
e uma história de vida
pra contar
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a beleza dramática da bolívia, a mulher que a perpetua, as nozes, as uvas, o queijo, a inteligência de borges, a inocência de teresa, a neve na suíça, o café em buenos aires, por supuesto.
elliot, rilke, os antigos chineses, florença, atenas, toledo, a lenha queimando no inverno europeu e a carta da minha querida sul-americana.
uma nova ideia, uma velha amiga, a noruega onde descubro minha verdadeira identidade, e o africano que me devolve meu som perdido e antquíssimo, a mulher que estou descobrindo neste exato momento.
alguma canção em granada, a primavera em paris, uma aventura em sevilha, um grande amor em madri. os beduínos e o mistério, jerusalém e a luz, o deserto, os camelos e a nostalgia do sul, o sul, o sul.
minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.
um poema a cada dia, veneza a cada vez, nazaré e a galiléia e os rastros de moisés. beber vinho no jordão, flutuar no mar morto. abrir os olhos em londres e na holanda a verdade, e o sol, e o mar.
minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.
las muchachas, las palomas, o caribe e o prazer, as maravilhas de roma, a ternura de belém. teotihuacan, machu picchu, chagall, o leite e o mel. os ciganos, a alegria, a liberdade e a fé, a fé, a fé.
minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.
mi vida | facundo cabral (1997)
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facundos para o mundo
por enilton grill
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nasceu num canto esquecido da argentina — la plata, 22 de maio de 1937 — veio ao mundo facundo cabral, filho da pobreza e do vento.
cantou em mais de 160 países. conheceu o mundo.
morreu na guatemala em 9 de julho de 2011, assassinado por engano. mas ninguém mata quem já vive nas palavras. facundo não foi embora: virou eco, virou vento, virou voz que à noite repete: «tu és o milagre, não te distraias do espanto».
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nasceu e morreu migrante e errante. um dia antes de seu nascimento, seu pai abandonou a família — a esposa e sete filhos. o oitavo, facundo, nasceu nas ruas de la plata, após o avô paterno expulsar a nora e os netos de sua propriedade. sem um teto para morar, a mãe e os filhos migraram de la plata para a terra do fogo, no extremo sul da argentina.
a infância pobre e desprotegida levou facundo à marginalidade e, mais tarde, a um reformatório. o álcool entrou em sua vida muito cedo, o que logo o levou à prisão. ali, um jesuíta o ensinou a ler e a escrever. inteligente e inquieto, o jovem logo teve contato com a literatura universal de autores como melville, conrad, dante e cervantes.
anarquista convicto — herança da avó materna —, facundo cabral tinha frases geniais e expressava-se com uma ironia brilhante:
«sou forçado a roubar porque cheguei muito tarde; desde antes de eu nascer as coisas já eram de alguém. por exemplo, dom quixote de miguel de cervantes, folhas de relva de whitman, tristão e isolda de wagner, a espanha era de franco, guernica de picasso, sophia loren de ponti, o oscar de marlon brando. a glória era de gardel, as vacas eram alheias e, se sobrava mais alguma coisa, julio lglesias levou. até a própria injustiça já tinha proprietário, assim como a desesperança é privilégio do tango. se eu gosto de uma mulher, ela está namorando ou casada; se sou ladrão, a culpa é da propriedade privada.»
sua mãe o criou com mãos sozinhas e olhar de horizonte, e sua infância foi uma longa caminhada sem sapatos nem escola, mas com a alma aberta ao espanto. não sabia ler, mas já sabia sentir.
aos nove anos fugiu de casa procurando por deus e o encontrou na voz de um velho vagabundo que o ensinou a olhar para as árvores como hinos verdes. mais tarde, a prisão ofereceu-lhe teto e pão, e foi lá, atrás das grades e silêncios, que aprendeu a ler.
seu caminho não foi de fama nem palco, mas de palavras como sementes, que foi deixando pela américa e pelo mundo. cantava como quem reza, falava como quem acorda. conheceu borges, a morte e o exílio. conheceu também o amor, embora sempre soubesse que o amor não se resume a um só lugar, nem a uma só pessoa.
suas canções eram sermões sem templo, sua voz — rouca de terra e clara de luz — ia da dor à ternura com a naturalidade de quem viveu o suficiente para não mentir. «não sou daqui nem sou de lá», cantava, e nessa frase se fez bandeira dos errantes, dos livres, dos que acreditam que o mundo cabe em uma gaita de boca.
nos anos 70, a ditadura o empurrou para fora da sua pátria, mas nunca conseguiram calá-lo. foi peregrino da alma: falou de buda, de cristo, de whitman e dos povos sem nome. cada palco era um altar; cada verso, uma porta.
em 1978, sua mulher, e sua filha (de um ano de idade) morreram em um acidente de avião. o choque foi tão grande, que ele desaprendeu a caminhar e a falar.
durante dois anos, esqueceu os oito idiomas que falava. ficou meses prostrado e deprimido, arrasado e desiludido. ficou quase cego, quase morreu.
madre teresa, ao inteirar-se do drama, convidou-o a segui-la. em calcutá, banharam leprosos e tiraram das ruas centenas de crianças abandonadas.
voltou a amar e a confiar na vida como o dia confia na noite e a noite na chuva e a chuva no vento. e então escreveu seu testamento: «senhor e mestre de mim mesmo, sem bandeira e sem espada, devolverei ao vento as maravilhas que me foram emprestadas».
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«una milonga sureña, un par de botas tejanas
una esperanza infinita y una flor en la ventana
una canción inconclusa y un jorongo mejicano
amores en todo el mundo y nada preso en la mano
un amigo en el desierto y un maestro en la montaña
la libertad más hermosa y la idea más extraña
esas cosas dejaré el día que yo me vaya
querida perdóname si a ti no te dejo nada»
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antes do fim, voltemos ao começo
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«mãe, por que todo mundo tem casa, menos a gente?», e sara respondeu: «eles são pobres porque só têm uma casa; nós temos o mundo para percorrer. continue andando!»
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«quando saí de casa, ainda criança, minha mãe me acompanhou até a estação e, quando entrei no trem, ela me disse: "este é o segundo e último presente que posso te dar: o primeiro foi te dar a vida, o segundo, a liberdade para vivê-la"».
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«morro feliz porque estás cada vez mais parecido com o que cantas». essas foram as palavras com as quais sara se despediu do filho pouco antes de morrer.
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e o senhor disse a abraão:
«deixe sua terra natal
e a casa de seu pai,
e vá para a terra que eu lhe indicar.
farei de você uma grande nação,
e o abençoarei
e, por meio de você, todos os povos da terra serão abençoados»,
o senhor disse a abraão.
essa bela e sábia ordem
foi a que convenceu meu coração
a decidir que o mundo fosse minha casa.
o mesmo mundo que colocou
ao alcance do meu espírito
a canção que me reflete
como nenhum espelho.
sou um caminhante de sais e madeiras,
apaixonado pela poeira das estradas.
construo minha casa dia após dia
e volto a destruí-la quando o sol
me propõe outras noites em claro.
sozinho, e sem querer ser ninguém,
protegido e amadurecido pela minha mente,
em busca das luzes misteriosas
onde os passos são lentos e eternos,
e alguém sabe tudo para decidir tudo.
enfrento a neve, as chuvas e os mares
e conheço o delírio das plantas,
das quais aprendo os cantos
que canto para ti,
ao deter-me apenas
pelo tempo que durem esses versos
e a fogueira que o amor provoque.
sou um caminhante,
uma espiga a mais,
um fruto em movimento,
inquieta paisagem que veio derrubar
os muros que, por medo,
levantou o covarde.
sou um caminhante que,
por estar sempre partindo,
sempre retorna,
porque tudo é circular
e isso o sol sabe como ninguém.
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não sou daqui, nem sou de lá
não tenho idade, nem porvir
e ser feliz
é minha cor de identidade
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no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»
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#américas
