memórias cantando
••••••••••••••
«muitas vezes, as pessoas tentam explicar os outros a partir daquilo
que elas mesmas sentiriam.
mas nem sempre é assim.
algumas pessoas simplesmente são inquietas,
têm curiosidade sobre a vida, sobre os caminhos que as pessoas escolhem e sobre os padrões que se repetem ao longo do tempo.
talvez por isso eu sempre tenha me interessado mais pelo que está por trás das coisas do que pela superfície.
nunca me fascinou apenas o que aconteceu.
sempre me fascinou o porquê.
por que algumas pessoas mudam?
por que algumas permanecem as mesmas?
por que certos caminhos se cruzam?
por que certas histórias se repetem?
talvez eu nunca encontre todas as respostas.
mas continuo observando.
não para julgar.
não para competir.
mas porque a vida humana é um dos maiores mistérios que existem.
e cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro esperando para ser compreendido.»
scarlet seixas, filha de raul seixas.
••••••••••••••
«o dom você o tem. nunca se esqueça.»
johnny cash
••••••••••••••
o dom
minha mãe tinha fé em mim. queria que eu tivesse aulas de canto, então começou a lavar a roupa das professoras da escola para pagar pelas lições. um dia inteiro de trabalho lhe rendia três dólares, o valor de uma aula. eu não queria nada disso. mas, quando apareci para a primeira aula, encontrei uma boa razão para voltar na segunda: a professora era muito bonita.
porém, ela não era para mim. na metade da terceira aula, depois de me acompanhar em algumas baladas irlandesas, ela fechou a tampa do piano.
«ok, é o suficiente», ela disse. «agora quero que você cante para mim, sem acompanhamento, o que gosta de cantar.» cantei uma canção de hank williams para ela --- acho que foi «long gone lonesome blues».
quando terminei, ela disse: «nunca mais faça aulas de canto. não deixe que eu ou qualquer outra pessoa mude a sua maneira de cantar». então me mandou para casa.
isso me faz lembrar do dia em que minha voz mudou e minha mãe ouviu meus novos tons graves pela primeira vez. eu estava cantando quando entrei pela porta dos fundos. ela se virou do fogão, surpresa, e perguntou: «quem foi que cantou isso?».
cantei um pouco mais, explorando o meu novo alcance vocal, e quando descobri quão longe minha voz podia ir, seus olhos se encheram de lágrimas e ela disse: «você canta igual ao meu pai». depois falou: «deus pôs sua mão sobre você, filho. nunca se esqueça do dom».
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 57.
••••••••••••••
vela no breu
(escrito em 31 de março de 2021)
uma das situações mais difíceis que enfrentei, como instrutor teórico na auto-escola, foi quando tive que reverter uma voz de prisão dada por um juiz de direito em plena sala de aula.
esse curso era um curso misto (1ª habilitação e renovação de cnh). ou seja, estavam juntos, em sala de aula, candidatos a 1ª habilitação e condutores com a cnh por vencer ou já vencida.
na largada do curso, já levei uma chapuletada. antes de pedir para que cada aluno se apresentasse, que era o meu jeito de começar a aula, inventei de contar uma história. era uma história sobre uma situação de trânsito que eu tinha visto minutos atrás antes de chegar na auto-escola. enquanto contava a história, olhei para o aluno sentado na primeira fila, ele tinha a sua frente o código de trânsito e, enquanto eu contava a história, ele lia atentamente algo, que eu nunca soube o que era.
quando terminei de contar a história, fui direto nele.
— seu nome?
e ele:
— já se passaram mais de cinco minutos e a tua aula ainda não começou... meu nome é josé antônio dias da costa moraes.
bem, eu não sabia quem ele era e muito menos que era juiz... (segundo li agora há pouco o mais antigo juiz de direito do rs em atividade)
olhei para ele, e disse:
— sim, a aula já começou, o senhor é que não reparou.
depois que todos alunos se apresentaram, voltei à história que tinha contado e, a partir dela, desenvolvi minha aula aquela noite.
lá pelas tantas, explicando o significado das placas e a diferença entre parada e estacionamento, um magrão, lá no fundo da sala, (1ª habilitação), sai-se com essa:
— na frente do fórum, que era pra ser exemplo, pois tem um monte de juiz e advogado que trabalha lá, NINGUÉM respeita essas placas...
ato contínuo, dr. josé antônio dias da costa moraes se vira pro fundo da aula e exige que o rapaz retire o que disse:
— o senhor retire já o que disse, pois sou juiz de direito, nunca desrespeitei placa nenhuma... muito menos na frente do fórum.
o rapaz, atrevido e impetuoso, não se calou, e manteve o que havia dito. seguiu-se, então, uma discussão acalorada, até que... voz de prisão (por desacato a autoridade).
entrei em cena e dei o intervalo.
fui direto na direção e expliquei o que estava acontecendo...
e a cris:
— o pior tu não sabes, ele é sogro do meu filho...
perguntei se, por ventura, ela não queria interceder, pois a coisa tava muito complicada... já quase fugindo do meu controle.
ela disse:
— vai lá, te vira, dá o teu jeito... confio em ti...
15 minutos de intervalo (era pra ser 10) entro em sala de aula...
— quando me inscrevi, me disseram que eram 10 minutos de intervalo... já se passaram cinco minutos e a tua aula ainda não recomeçou...
dessas coisas que não tem explicação, fui levando a aula, levando, levando, até que me deu um estalo: disse pra mim mesmo, vou acender o cachimbo da paz entre esses dois (o juiz de direito e o magrão da 1ª habilitação)...
mas como?
enquanto eu desenvolvia o conteúdo, eu pensava em como criar uma situação para acabar com aquele mal-estar... mal-estar, diga-se de passagem, não só com o magrão da 1ª habilitação como comigo também.
comigo foi fácil. não lembro exatamente como foi que fiz, mas lembro que em questão de minutos eu arranquei duas ou três gargalhadas daquele sisudo e, aparentemente intransponível, juiz de direito.
restava agora criar o ambiente para o acordo de paz entre os dois desafetos. um deles, um rapaz de 18 anos de idade, atrevido e impetuoso, que não tinha títulos, nem diplomas, nem carteira de motorista, e o outro, um senhor de idade, juiz de direito, cheio de títulos e honrarias, que estava fazendo um curso de renovação da cnh, pois estava com a mesma por vencer.
mas como?
foi então que me deu mais um estalo: vou ensinar a regra do cruzamento sem sinalização. essa era uma regra de difícil explicação, contudo eu tinha criado um modo muito particular de ensiná-la, qual seja, depois de explicá-la eu perguntava para os alunos se todo mundo tinha entendido e como a maioria quase nunca entendia eu chamava dois alunos para a frente da sala de aula, desenhava no quadro um cruzamento sem sinalização e quatro carros, carro (a), carro (b), carro (c) e carro (d), cada carro, obviamente, numa esquina (vide foto), colocava os alunos na posição dos carros e perguntava para a turma qual dois dois estava à direita do outro. sim, a regra é esta: num cruzamento sem sinalização, a preferência é para os veículos que vierem à direita do condutor.
bem, deixa pra lá a regra, se quando eu era instrutor, e dava aula de manhã, de tarde e de noite, já era difícil de explicar, imagina agora...
voltando ao cachimbo da paz: eu decidi explicar a regra do cruzamento sem sinalização, chamando os dois desafetos para a frente da sala de aula, um deles, um juiz laureado e renomado e o outro, um rapaz de 18 anos, impetuoso e debochado.
na verdade, eu resolvi brincar com o fogo, pois tudo podia acontecer, inclusive eles não aceitarem meu convite e eu ficar com cara de tacho lá na frente. mas, modéstia a parte, em situações assim, não tenho medo de ser feliz, escolho sempre o risco ao invés do conforto.
sendo assim, fui em frente.
e deu certo. eles aceitaram, eu expliquei, brinquei, eles riram, todo mundo entendeu, a turma bateu palmas e os dois, no final, fumaram o cachimbo da paz. isto é, se abraçaram.
digo isso, pois ontem à tarde recebi a notícia que a covid 19 segue sua sina de morte. dr. josé antônio dias da costa moraes, infelizmente, morreu.
é tudo muito triste, a sensação que tenho é que esse caminho é sem volta. olho pra frente e não vejo nada. nada, nada, nada. apenas uma estrada, estreita, sinuosa e esburacada. luz no fundo do túnel? só se acender a vela no breu.
.
esperança?
sempre há
ouço
agora
o canto de um passarinho
o canto é lindo
mas
parafraseando o poeta
o passarinho é um fingidor
ele chora rindo
dizem lá no morro
que fala sozinho
grill
••••••••••••••
ama e lança chamas
assovia quando bebe
canta quando espanta
mal olhado, azar e febre
sonha colorido
adivinha em preto e branco
anda bem vestido
de cartola e de tamanco
dorme com cachorro
com um gato e um cavaquinho
dizem lá no morro
que fala com passarinho
desde pequenino
chora rindo olha pra nada
diz que o céu é lindo
na boca da madrugada
vela no breu | paulinho da viola / sérgio natureza, 1976
••••••••••••••
juiz e esposa morrem vítimas da covid 19
(clique no link)
••••••••••••••
a pessoa é para o que nasce
em 1997, quando o américas estava no auge e eu tinha uma estrada aberta à minha frente, as circunstâncias financeiras me levaram a dar uma virada radical na vida.
apesar de reconhecido e valorizado --- com apenas dois anos de programa já havia entrevistado dois ídolos máximos, mercedes sosa e león gieco, além de ter participado do programa «primeira pessoa» da jornalista ivete brandalise (tve poa)---, nunca consegui traduzir isso em dinheiro.
e no mundo como ele é, sendo as coisas como são, não há relação que se sustente quando um ganha dinheiro e o outro «vive de poesia».
«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»
sendo assim, fui à luta.
manhãs e tardes perdidas, batendo perna na rua pedindo emprego.
uma manhã de domingo, lendo os classificados, encontrei um anúncio de um curso no senac para instrutores de trânsito.
o processo para tirar carteira de motorista estava em plena mudança.
olhei pra minha companheira, na época, e disse: --- taí uma coisa que acho que sou capaz de saber fazer... ensinar as pessoas a dirigir...
segunda-feira, 8 da manhã, toquei o telefone pro senac (pelotas) buscando informações a respeito do curso.
— as turmas já estão completas, não há mais vagas.
eu estava entusiasmado... insisti...
a moça, sem saber mais o que fazer, disse o que eu precisava ouvir:
— em rio grande está por abrir um curso...
dito e feito, me inscrevi para o curso em rio grande (60 km de pelotas).
só havia vagas no período noturno.
de segunda a sexta, pegava o ônibus às 5 da tarde, chegava às 6, o curso começava às 7, terminava ás 10 e meia, eu pegava o ônibus das 11 e chegava à meia hora em casa.
com uma semana de curso, cheguei à conclusão que ensinar as pessoas a dirigir não era coisa pra mim.
descendo as escadas, comentei com um colega a minha decisão de cair fora, de partir pra outra...
atrás de mim, vinha o mendes, um dos instrutores do curso... foi ele que me convenceu a não desistir.
ele disse que tinha uma promessa de emprego como instrutor no cfc senna, mas que não poderia arcar com o horário integral dos cursos... que precisava de alguém junto com ele e que eu era a pessoa certa.
quando abri o sorriso, ele deu o xeque-mate:
— aguenta mais um pouco, vai dar tudo certo...
e deu mesmo...
mas por vias tortas.
eu nunca me imaginei dando aula teórica, eu me imaginava dando aula prática...
daí pra frente
muita coisa aconteceu
muita água rolou
foram dez anos de história
e dez anos não são dez dias
nem dez meses
cheguei com 30
saí com mais de 40
hoje tenho 61
corre o vento
o rio passa
mas determinadas coisas na vida
a gente nunca esquece
como dizia o poeta
«o que entra na cabeça
da cabeça logo vai;
o que entra no coração
fica e não sai nunca mais.»
••••••••••••••
lo que dentra a la cabeza
de la cabeza se va
lo que dentra al corazón
se queda y no se va mas
tu quieres saber por qué?
escúchalo bien, escúchalo bien:
al corazón sólo dentra la pura verdad
¡que al corazón solo dentra la pura verdad!
la pura verdad | atahualpa yupanqui / pablo del cerro (1974)
última canção gravada por atahualpa yupanqui, em água escondida, cerro colorado, província de córdoba, argentina. retiro rodeado de natureza onde compôs várias de suas obras. seus restos mortais estão enterrados na propriedade, sob um carvalho.
na introdução, don atahualpa recita os versos do poeta espanhol león felipe: «mi voz es opaca y si brillo, no servirá jamás para reforzar un coro, sólo a mí me sirve para poder decir aquello que me alegra, aquello que me duele, aquello que me revela, aquello que me enmudece. sólo yo puedo decirlo, a veces sentirlo, talvez jamás pronunciarlo. mi voz no servirá jamás para reforzar un coro, es opaca sin brillo sólo para uno, sólo para mí, pido perdón...»
••••••••••••••
batendo na porta do céu
escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar
grill
••••••••••••••
antes de me despedir, mais uma sobre o dom.
••••••••••••••
o valor do dom
fui muito feliz, reconhecido e valorizado como instrutor teórico e prático. mas não nasci com o dom de ganhar dinheiro, essa é a pura verdade. eu era instrutor e os alunos me chamavam de mestre. teve um, porém, que uma vez foi além: convidou-me para ser pastor. repito: PASTOR! verdade... juro que é verdade. o aluno olhou para mim e disse: «irmão, com esse dom que deus te deu, tu podias ganhar muito dinheiro». o que dizer numa situação dessas? eu apenas sorri e agradeci.
••••••••••••••
mil graças, sim senhor
da vida e da morte,
por ser apenas isto:
um sopro efêmero e leve.
e o de passar meus dias
finais neste mundo,
com as mãos vazias
e o coração profundo.
testimonio final | j. e. seri / atahualpa yupanqui (1979)
••••••••••••••
#américas
