luz andaluz
(a vida é como um flash)
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«nietzsche está saindo de um hotel em turim. vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe dando chicotadas. nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e explode em soluços. isso aconteceu em 1889. foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por descartes. sua loucura começa no instante em que chora pelo cavalo. é esse nietzsche que amo...»
milan kundera | a insustentável leveza do ser, pág. 284.
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nota: milan kundera afirma que nietzsche veio pedir perdão por descartes porque o filósofo francês rené descartes foi o grande responsável por consolidar a ideia de que os animais não possuem alma, sentimentos ou consciência, sendo meras «máquinas biológicas».
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o cavalo de turim
(o filme)
o filme retoma hipoteticamente o percurso do cavalo e do cocheiro após o episódio famoso.
a primeira cena é das mais impressionantes do cinema mundial pela beleza, pela plasticidade, pela maestria, pelo que ela comporta de trágico e de sublime.
é um plano sequência de mais de cinco minutos do cavalo puxando a carroça com o cocheiro numa paisagem árida, sob um vento impiedoso que levanta uma poeira diáfana e deixa a luz do sol ainda mais difusa.
no fundo uma música crescente faz o contraponto à imagem em movimento com uma melodia que se repete sem parar, envolvendo toda a cena num ambiente onírico, mas ao mesmo tempo hiperrealista.
o cocheiro vive com sua filha e com o cavalo em um tempo indefinido num ambiente inóspito que consiste em uma velha casa de pedras com um estábulo e uma cisterna de onde conseguem o pouco de água para o dia-a-dia.
o local, provavelmente no interior da hungria, poderia ser um lugar isolado em tantas outras partes do mundo onde há solo árido, escassez de água e de alimento.
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o cavalo de turim • trailer original • (2:30)
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«cuidado que a cidade na penumbra não é mais a mesma»
omar dib
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«apenas siga caminhando. da forma que tens caminhado. sempre aqui te lendo e aplaudindo.»
luciano oxley
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a vida é como um flash
em 2007
quando eu saí do ar
e fiquei sem ter onde morar
um amigo foi me resgatar
foi tudo muito rápido.
questão de minutos
quando entramos em sua caminhonete
uma caminhonete importada
com motor de centenas de cavalos
ele me olhou e disse:
«que tristeza, tu não tem nada»
verdade
nem um «mísero» cavalo eu tinha
nem louça
nem mesa
nem sofá
nem cadeira
tudo o que eu tinha
(e ainda tenho)
além de uns quadros na parede
e um pôster do che
eram discos e livros
o resto era nada
ou quase nada
cabia numa sacola furada
enguli em seco
não falei nada
olhei pro lado
contemplei a casa
uma velha casa
que não era minha
nem alugada
era uma casa emprestada
e disse: «podemos ir, não tem mais nada»
ele girou a chave
acionou o arranque
engatou a primeira
depois a segunda
a terceira...
chovia aquele dia
eu olhava pela janela,
procuravava alguma coisa
qualquer coisa
e nada
não via nada
só aquela frase a martelar na minha cabeça:
«tu não tem nada! tu não tem nada!»
e eu olhava pro nada e pensava: «sinta mais, pense menos»
quem pensa que sabe tudo não sabe nada!
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13 de novembro de 2007
convidado por um amigo
um irmão de alma que conheci no aa
fiz a fala de abertura para a apresentação de pedro munhoz no minifúndio café
depois de meses sem ver o sol e a lua
eu me sentia apto de novo a enfrentar as ruas
as ruas
os bares
a fumaça
os copos
as garrafas
o microfone
tudo ia dar certo
minha confiança em mim mesmo era tanta
que cometi o pecado de convidar a vivi
«ilusão, ilusão
veja as coisas como elas são»
na época
eu desconsiderei o fato de que
naquele momento
o único solteiro ali era eu
ou seja
vivi não podia
ela jamais iria
ela estava casada
daí pra frente
por motivos vários
baixei às profundezas
quando levantei a cabeça
e me olhei no espelho
estava em são luís do maranhão
de onde só voltei
movido pelo amor
pelo amor fati e
acima de tudo
pelo amor por mim mesmo
de onde só voltei
movido pelo amor
pelo amor fati e
acima de tudo
pelo amor por mim mesmo
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falando em 2007
o natal deste ano
passei na casa do vitor, do alisson, da dona eli e da cris
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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que a gratidão deixa de ser apenas uma palavra e passa a ter nome, endereço e rostos.]
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«graças à vida que me deu tanto
deu-me a marcha de meus pés cansados
com eles andei cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planícies
e tua casa, tua rua e teu pátio»
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em 1983, ano em que foi registrada a menor temperatura no mundo — -89,2 °c, em vostok, na antártida —, fomos embora do rio grande do sul para o maranhão. meu pai estava cansado daqui e nos levou para lá. sem querer, esse foi o maior presente que ele me deu. são luís foi um capítulo especial na formação do meu ser. para dizer a verdade, foi mais que especial: minha passagem pela ilha foi o destino necessário para que eu me tornasse quem eu sou.
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mas o tempo passa e as coisas não são mais como eram. a pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido - ninguém mais é, todo mundo está. nada é para sempre, tudo se desfaz. os sonhos, no entanto, permanecem. quem viveu o que eu vivi, jamais esquece.
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um dia, minha vida deu uma guinada. eu perdi o rumo da estrada. fui longe, e o longe era nada. é como diz o poeta: «o pobre que anda sin copla por esta vida prestada, mais que pobre é um fantasma e mais que fantasma é nada.»
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martim matou a charada, e me escreveu uma balada.
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«moeda que está na mão, quiçá se deva guardar. moeda que está na alma, se perde se não se dá».
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luz, quero luz
depois de me aventurar no escuro
encontrei a luz
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o pampa delira nos versos de borges
onde o tempo circula e o que foi voltará
artigas traído cavalga ao exílio
e o brilho de halley se faz lua no olhar
a carreta que cruza uma estrada sem fim
vê o primeiro avião navegando no céu
um visionário constrói seu castelo no campo
e neruda povoa de magia o papel
luz andaluz
estrela cadente brilhando pra sempre
nas noites do sul
luz andaluz | matim césar / hélio ramirez 2004
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e a balada?
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poderia dizer muita coisa sobre «balada para johnny cash»
poderia dizer
por exemplo
que eu pedi que fosse um dos dois
paulo timm ou hélio ramirez
que fizesse a música
mas não vou dizer nada
martim já disse tudo
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eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta
eu tenho uma balada
para johnny cash…
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
eu tenho uma balada
para johnny cash… eu tenho
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
mas, johnny, tu bem sabes
que a canção não tem país
e que a américa é bem maior
que o tio sam e o tenessee
de ushuaia ao maranhão
de jaguarão a são luís
qualquer instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...
balada para johnny cash | martim césar/paulo timm 2014
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«👏👏👏 para todos os posts!!!
adoro o jeito como escreves! és um grande contador de histórias!»
flávia mauricio
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enfim
tudo passa...
só as palavras ficam
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«a palavra é um vírus. o homem moderno não conhece mais o silêncio. tente deter o discurso subvocal. experimente dez segundos de silêncio interior. você vai se deparar com um organismo resistente que te obriga a falar. esse organismo é a palavra.»
william burroughs | the ticket that exploded (1962)
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«falaria mesmo se me calasse, porque agora não sou senão uma única palavra.»
franz kafka, em «cartas a milena»
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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que transcende a linguagem. não importa se falamos ou permanecemos em silêncio: nossas atitudes, nosso olhar e nossa presença acabam revelando aquilo que somos. quando uma verdade nos atravessa por completo, ela se torna parte da nossa própria existência.]
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«você não está cansado, mas inquieto;
simplesmente tem medo de dar um passo nesta terra cheia de armadilhas.»
franz kafka, , em «cartas a milena»
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[às vezes, o que sentimos é tão profundo, que tudo parece uma armadilha, cada decisão se torna pesada, e até o simples ato de seguir em frente desperta insegurança.]
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«a grandeza não é alcançada quando tudo vai bem, mas sim quando a vida nos testa, quando tropeçamos, quando nos decepcionamos, quando a tristeza nos domina. porque só estando no fundo do vale é que se pode saber quão magnífico é estar no topo de uma montanha.»
anthony hopkins
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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que o topo de uma montanha nada mais é que uma pequena casa perdida no meio de uma avenida de grandes luzes. só quem conheceu a escuridão profunda do vale consegue enxergar o brilho das luzes e valorizar a solidez de um refúgio.]
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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»
josé saramago
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casi casi nada me resulta pasajero
todo prende de mis sueños
y se acopla en mi espalda
y así subo muy tranquilo la colina
de la vida
la colina de la vida | león gieco (1974)
(legendado)
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#américas
