os devaneios do caminhante solitário
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«o homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias. por elas se comunica com o universo».
josé ortega y gasset | reflexões do quixote, p. 52
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por hélida carvalho*
barreiro, 4 de outubro de 1967
(sexta-feira)
hoje nos apareceu um professor novo de organização política. dizem que ele veio corrido de um liceu de coimbra por causa de política e que é um poeta famoso. diferente dos outros professores ele é, com certeza: entrou pela sala adentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão, atirou-a para cima da mesa e nos disse: «desculpem o atraso, mas me enganei de turma...»
depois, sentou-se na mesa e ficou uns cinco minutos, em silêncio, olhando o pátio vazio; nós começamos a cochichar numa algazarra que qualquer outro professor já teria nos dado uma bronca, mas ele não disse nada, como se não se importasse. quando recomeçou a falar conosco, já tinha ganho o primeiro round de simpatia, e veio o mais surpreendente: «eu sou o novo professor de vocês de organização política, mas devo dizer que não entendo nada disso. não tenho culpa que tenham me colocado aqui, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa.»
«as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral», continuou ele, «nós temos que aprender a não ser autômatos, a pensar pela nossa cabeça; vou ensinar a vocês que, além-fronteiras, há outros mundos que não se moldam a essa ditadura de miséria social e cultural.» quando ele terminou, estava todo mundo de boca aberta, sem palavras. «que fenômeno é esse que aterrissou em setúbal?»
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*hélida carvalho foi aluna de zeca afonso no liceu nacional de setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de organização política ser preso pela pide - polícia internacional e de defesa do estado. após a revolução dos cravos, em 25 de abril de 1974, esta organização foi extinta e vários dos seus elementos foram presos.
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cfc senna
das coisas que já fiz na vida, e que mais me orgulho, foi ter dado aula de direção defensiva e legislação de trânsito no cfc senna. cfc (centro de formação de condutores). e creiam! recebi mais elogios do que críticas. uma vez, no entanto, fui informado pela direção de que uma aluna teria dito que minhas aulas seriam melhores não fossem meus devaneios. não fiquei triste, nem zangado e muito menos incomodado. ela tinha razão: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»
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em 1997, no auge do américas, dei uma guinada radical na minha vida. eu era radialista e fiz curso no senac pra instrutor de cfc. não porque eu quisesse, mas porque foi preciso. nunca me imaginei instrutor de cfc, nunca me imaginei explicando o «triângulo dos três "es"» (educação, engenharia de trânsito e esforço legal), nunca me imaginei com um apito na boca explicando a diferença entre um silvo breve e um silvo longo, nunca me imaginei explicando que os gestos do agente de trânsito são ordens que prevalecem sobre as regras de circulação, e que tudo isso está previsto tanto no anexo ii, quanto no artigo 89 do código de trânsito brasileiro. eu odeio regras. eu odeio me ver obrigado a fazer algo que eu não queira. enfim, eu não tinha nada a ver com aquele mundo e nem com aquela linguagem. mas vai entender, o que tinha tudo pra dar errado, deu certo. como? simples: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»
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entre os anos 2003 e 2005, dos 38 aos 40 anos, vivi meu auge como instrutor de cfc. modéstia à parte, eu tava voando. minha interação com os alunos era quase perfeita. digo quase, porque sempre tinha um ou outro que não gostava da minha didática. explico: minhas aulas eram puro improviso, eu linkava o conteúdo do curso com o que eu via na rua ou com o que alguém dizia em sala de aula. de modo geral, acho que os alunos gostavam. mas é impossível agradar a todos. sempre tinha alguém que não gostava. as reclamações eram porque --- segundo os descontentes --- eu falava coisas que não tinham a ver com trânsito e ou com o conteúdo que ia cair na prova. por exemplo, recitar poemas em sala de aula. sim, uma das reclamações, é que eu dizia poesia em meio ao curso. e dizia mesmo. um dos poemas que eu dizia era este (autoria de mario benedetti):
quando éramos crianças
os velhos tinham como trinta
uma poça era um oceano
a morte simplesmente
não existia.
em seguida quando jovens
os velhos eram gente de quarenta
um açude era um oceano
a morte apenas
uma palavra
já quando nos casamos
os anciãos estavam com cinquenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros.
agora veteranos
demos espaço para a verdade
o oceano é por fim o oceano
mas a morte começa a ser
a nossa.
o intuito era de que os alunos, sobretudo os mais jovens, refletissem sobre o valor da vida... e que tirassem o pé do acelerador... e que usassem o cinto de segurança... e que se fossem dirigir não bebessem. mas nem todos compreendiam. fazer o quê?! nunca me acreditei capaz de mudar o mundo, mas sim sempre me acreditei capaz de mudar a mim mesmo.
a verdade é que as minhas aulas eram uma luta ferrenha
minha comigo mesmo
ou seja
para desempenhar satisfatoriamente
tinha que matar um leão/dia
nunca tive o domínio pleno e total do conteúdo
as palavras me saíam meio que de improviso
era mais intuição que conhecimento
entrava em sala de aula
mais disposto a aprender
do que a ensinar
e creiam
foi assim que venci
vitória conquistada
pe(r)di o boné
e parti
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de volta ao começo
(foi dando aula no cfc
que conheci a vivi)
satolep
7 de julho
num dia como hoje
há 14 anos
nossos destinos
traçavam novos caminhos
rumavam para outros ares
pelotas fazia 200 anos
eu estava desempregado
recém havia saído do cfc
vivi era secretária num consultório médico
e nos horários livres confeccionava cupcakes
em virtude da data
surgiu o cupcake laranjal
montamos um blog
divulgamos a cria
a iniciativa foi um sucesso total
surgiram novos cupcakes
deu no diário popular
da matéria no jornal
surgiram novos clientes
o fogão ficou pequeno
a cozinha ficou pequena
a casa ficou pequena
foi nessas circunstâncias
que o repecho cresceu e apareceu
no entanto
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não
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antes do fim
se eu não tivesse caído de para-quedas no cfc
não teria conhecido a vivi
se eu não tivesse conhecido a vivi
provavelmente não estivesse mais aqui
vida que segue...
fim de mais uma história,
e recomeço de outra.
quando dei vida ao américas,
eu tinha 20 e poucos anos.
quando vivi e eu nos casamos,
eu tinha 40 e poucos anos.
17 anos depois,
mais um fim de história.
vivi vai seguir a dela
e eu a minha.
a de vivi vai ser o que será,
e a minha o que sempre foi
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assim os dias passarão
virão as novas gerações
outras perguntas, prováveis canções
outro mundo, outra gente, outras dimensões
e na hora marcada, em algum lugar
uma estrela virá pra lhe acompanhar
assim os dias passarão | almir sater - renato teixeira - paulo simões (1991)
[com letra e imagens]
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#américas
