quarta-feira, 2 de março de 2016



Américas


*Por Luís Rubira


Texto publicado no Diário Popular
Fevereiro 08, 2005


Durante o quinto Fórum Social Mundial de 2005 foi erguido, próximo ao anfiteatro Pôr-do-Sol às margens do Guaíba, o Palco Atahualpa Yupanqui, numa homenagem a um dos músicos sul-americanos mais respeitados no mundo inteiro.

Cumpre lembrar que no ano de 2003 Kolla Yupanqui, filho de don Atahualpa, elegeu um especialista em música, que mora na cidade de Pelotas, para representar a Fundação Atahualpa no Brasil.

Enilton Grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. Em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil cedês criteriosamente escolhidos.

Conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os discos de Amâncio Prada - uma pedra preciosa da Galícia.

Para se ter uma idéia, Enilton Grill apresentou um dos maiores músicos do Uruguai, Daniel Viglietti, a um dos maiores nomes da música no Brasil: Dorival Caymmi; e no disco Ramilonga - A estética do frio, entre as pessoas as quais Vítor Ramil agradece está o nome de Enilton Grill.

Há quase dez anos apresenta o programa Américas numa rádio da cidade de Pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

Seus programas são um luxo não só sonoro mas educativo, pois partem da música mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros 'caminhos no bosque' como diria o filósofo Martin Heidegger.

Na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de Bob Dylan, Chico Buarque e Atahualpa Yupanqui.

Aproveitando esta homenagem que o Fórum Social Mundial presta a Yupanqui, esperamos que a Fundação Atahualpa receba incentivo para sua concretização.

Afinal já está na hora de que o conhecimento de Enilton Grill não fique reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de Pelotas mas, tal como as 'coplas' de Yupanqui, seja repartido com outras pessoas de nosso país.

*Mestre em Filosofia pela PUC - Rio Grande do Sul.
Doutor em Filosofia pela USP - Universidade de São Paulo
É membro do Grupo de Estudos Nietzsche da Universidade de São Paulo
e do Groupe International de Recherche sur Nietzsche.
Atualmente é professor do Departamento de Filosofia da UFPel
e coordenador do ciclo 'A Filosofia e o Cinema Político'.

terça-feira, 1 de março de 2016



saravá, dorival!

para caiuá, que deu o nome e o incentivo que faltava.

2002. o pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com o daniel viglietti, para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro. e foi o que eu fiz.

eu já sabia que o daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que eu fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. e ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem terra.

o autor de "a desalambrar" só fez uma exigência: a de que eu fosse junto. e foi o que eu fiz.

mesmo indo de ônibus eu cheguei antes do uruguaio que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com o chico. o chico buarque. o daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse o chico na itália.

não faz mal. não tinha o chico mas tinha o dorival.

no dia seguinte daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta do dorival. eu não a conhecia e o daniel queria conhecê-la. alguém teria que se apresentar e apresentá-la. e foi o que eu fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me apresentei à neta do dorival, apontei para o daniel e disse a ela quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele para ela e o marido dela conhecia mais dele do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô. e foi o que ela fez.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com a juliana, ela vinha com um cd do dorival autografado para o daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio. em copacabana.

o daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos. a juliana ainda estava por perto quando o daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse com ela um encontro dele com o avô dela. e foi que eu fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais nem nada de mais.  afinal, dorival convalescia.

a outra condição não foi uma condição foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando a foto eu não sou mais o que era e não há mais dorival.

que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

saravá, dorival!

sábado, 20 de fevereiro de 2016



O velho lobo uiva
e o bardo ainda brada


por Enilton Grill


Bob Dylan
Maio, 24, 1941
Duluth, Minessota
Estados Unidos



Dia desses, Bob Dylan concedeu entrevista para o The Times, e disse que se considera um 'lobo solitário'. "Acho que é a terra onde nasci. As florestas, a vastidão. A terra me criou. Sou selvagem e solitário (...)Sou mais aventureiro do que um homem de relacionamentos", declarou Dylan.

Final dos anos sessenta. Os Beatles estavam na Índia. Os Estados Unidos pareciam embrulhados num cobertor de fúria. Universitários arrebentavam carros estacionados, espatifavam vidraças. 

A guerra do Vietnã colocava o país numa depressão profunda. As cidades rugiam em chamas, os cassetetes estavam descendo. Os testes de ácido seguiam a todo vapor, e o ácido dava a 'atitude certa' para as pessoas.

A nova visão de mundo mudava a sociedade, e todo mundo se movia rápido - em ritmo acelerado. Estroboscópios, luzes negras - as maiores loucuras, a onda do futuro.


Foi nesse contexto que Bob Dylan, sabe-se lá como, abriu caminho para uma torrente de atitude e sabedoria, simbolismo e ambição que explodiu em um turbilhão de inovação, poesia e dissonância. E, ao fazê-lo, completou sua maior obra: a invenção dele mesmo.

"Tento ler através da poeira/ o futuro pra mim já é coisa do passado." Com versos assim, Robert Zimmerman, conhecido no planeta como Bob Dylan, adiantava-se ao seu tempo e, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, não queria apenas ser moderno, ele aspirava ser eterno. E conseguiu.

Aos 74 anos de idade, Bob Dylan está na plenitude. Tanto quanto o esteve na juventude. A prova disso é um de seus mais recente álbum, 'Tempest'.


O nome do álbum recebeu algumas interpretações.

Alguns achavam que era uma referência à peça 'The Tempest', último trabalho de Shakespeare – ideia que Dylan tratou de refutar em uma entrevista afirmando que seu álbum chamava-se apenas 'Tempest'.

E isso significava algo completamente diferente, esclareceu.

Ou seja: nada mais igual ao Dylan de antigamente.

Robert Allen Zimmerman está vivo - já o mataram algumas vezes - e muito vivo.

Longe de muitos dos seus colegas de profissão, Bob Dylan não vive à sombra de um passado de glórias. Coisa de quatro anos atrás, o bardo foi questionado se já considerou a ideia de comercializar a 'nostalgia', de forma similar a vários artistas de sua geração.

Dylan respondeu: "Eu não poderia, mesmo que quisesse ou tentasse. Esses artistas que você está falando, todos eles tinham músicas óbvias e de grande visibilidade. Meu negócio é diferente desses caras. É algo mais desesperado".

Poeta laureado. Profeta num casaco surrado. Napoleão esfarrapado. Um judeu. Um cristão. Bob Dylan é pura contradição. Já foi analisado, classificado, categorizado, crucificado, definido e dissecado. Já foi endeusado, inspecionado e rejeitado. Mas nunca completamente entendido.

Bob Dylan tornou as palavras mais importantes que a melodia. Deu cor às vogais e regulou o movimento das consoantes. Fundiu poesia e música como os beats já tinham tentado antes. E depois, tal qual um vagabundo, botou o pé na estrada. Foi fundo. Ganhou o mundo.

"Ei, ei Woody Guthrie, eu te escrevi uma canção..." Vinte anos tinha Bob Dylan quando escreveu esta canção. Era sobre um velho e engraçado mundo, que estava doente, faminto, exausto e descosturado. Parecia moribundo. Mas acabara de ser batizado.


Bob Dylan chegou a Nova York em janeiro de 1961. Fazia muito frio. O vento soprava e a neve rodopiava nas ruas de luzes avermelhadas. Ele não era conhecido e não conhecia ninguém. Não estava em busca de dinheiro. Nem de amor e nem de amém.

"Quantas estradas precisará um homem andar/ Antes que possam chama-lo de homem?", perguntava Dylan.

A resposta, passados mais de cinquenta anos, parece cada vez mais distante. Mas o vento ainda sopra. O velho lobo uiva. Ouçam Tempest. A voz do bardo ainda brada tanto quanto antes. Mas está mais grave. Parece sair das entranhas. Da mais distante das montanhas para nos alertar que os tempos mudaram e que as águas aumentaram. E o que era outrora delirante está cambaleante.

Enfim. As coisas mudam e o tempo passa. Pode não haver mais caminho de volta. Mas ainda há uma estrada. A roda gira. Temos mais dúvidas e menos verdades. Somos mais jovens do que os nossos pais o eram na nossa idade. E os nossos filhos mais que nós. Isso não tem preço. Tem nome e sobrenome: Bob Dylan. 

A história é circular e há tantas facetas em Bob Dylan que ele é esférico. O passado pode ser prelúdio ou poslúdio. As estradas foram muitas. A que ele está agora parece ser de mais busca e mais descoberta e mais criatividade com o avançar da idade.

Hoje, aos 74 anos, Dylan ainda ajuda a definir estes tempos cambiantes e intolerantes. E isso é muito mais que importante: é determinante e reconfortante.

sábado, 13 de fevereiro de 2016


2003:  um ano que não me sai da memória


Por quê?

Porque 2003 foi o ano da invasão dos Estados Unidos ao Iraque. Porque 2003 foi o ano em que Lula tomou posse como presidente do Brasil. E porque o ano de 2003 guarda um dia mais que importante na minha história.

A cidade de Pelotas era governada por Fernando Marroni. Eu trabalhava numa Auto-Escola e apresentava o Américas na RádioCom. O Theatro Sete Abril estava em plena atividade e, nesse dia, 3 de maio, às 9 da noite, abria, pela segunda vez, suas portas ao uruguaio Daniel Viglietti. Eu, por detrás das cortinas, agradecia aos apoiadores e anunciava essa lenda viva da música latino-americana. Depois me beliscava e me perguntava:

- Será verdade?

Era.

Os arquivos estão aí pra comprovar.

Me ajudem a escutar, e, se for o caso, compartilhar, pois me é difícil acreditar que tenham resistido às ruas que andei, aos tsunamis que passei e às fronteiras que desalambrei.

Me custa acreditar que tenham sobrevivido onde eu descambei.

Gratíssimo
Enilton Grill
1º de maio de 2014


Daniel Viglietti
ao vivo
Theatro Sete de Abril
Pelotas 
3 de maio de 2003


segunda-feira, 19 de outubro de 2015


Vinicius não perdeu nada
(a vida é que perdeu a graça)


Por Enilton Grill


Era 1980. Vinicius já quase não saía. Só recebia os amigos mais íntimos. Havia, na época, uma jornalista que insistia com o poeta por uma entrevista. Vinicius resistia. Até que um dia cedeu. A primeira pergunta foi fulminante:

- Poeta, o senhor tem medo da morte?

Vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu:

- Não, eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.

E essa foi a última entrevista que Vinicius concedeu. Para o poeta já não tinha mais sentido a vida. Ele já estava de despedida. Ele já tinha vivido tudo, a vida não lhe daria mais nada. Só lembrando: a década de 80 ficou conhecida como a década perdida. De lá pra cá,  tudo - ou quase tudo - é efêmero, é passageiro. Vinicius não perdeu nada. A vida é que perdeu a graça.

sábado, 12 de setembro de 2015



Tributo a um Rei Esquecido


Adaptado e ilustrado
por Enilton Grill


Do livro
Eu não sou cachorro, não
De Paulo César de Araújo


"Eu quis gritar seu nome e não pude (...)
O que foi que fizeram com ele?
Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem
Foi um rei"
Benito di Paula,
'Tributo a um rei esquecido', de 1974



Benito di Paula fazia uma homenagem a Geraldo Vandré, autor de 'Pra não Dizer Que não Falei das Flores' – canção-símbolo da luta contra a ditadura, censurada em 1968. Naquele mesmo ano, Vandré se exila no Chile. Voltou preso, em 1973. Um ano depois, a lembrança cantada por Benito di Paula também acabou proibida.



Lançada em 1974, ”Tributo a um rei esquecido” é uma homenagem de Benito di Paula a um dos artistas brasileiros mais visados pela ditadura militar: o cantor e compositor Geraldo Vandré.

O verso "Eu quis gritar seu nome / não pude” é uma referência ao fato de a simples pronúncia do nome Geraldo Vandré ser objeto de censura na época.

A sua voz e a sua imagem estavam praticamente banidas no Brasil. Mas o samba de Benito, além de evocar a memória do artista proscrito, amplificava uma pergunta que muitos brasileiros faziam (e ainda fazem) em relação a Vandré: “O que foi que fizeram com ele?”

Ao longo dos anos a resposta para esta pergunta tem corrido de um extremo ao outro: para a maioria Vandré foi um idealista que não transigia com sua arte e foi torturado até sofrer um processo de lavagem cerebral; para alguns poucos, ele mudou porque mudou. Simples assim.


Seja como for, a origem desta polêmica tem local, data e nome determinados: Rio de Janeiro, Maracanãzinho, 29 de Setembro de 1968, “Pra não dizer que não falei de flores”. Ali, em pleno regime militar, Geraldo Vandré apresentou ao público e ao júri do III Festival Internacional da Canção a mais contundente crítica jamais feita ao Exército brasileiro numa letra de música popular e num momento em que as Forças Armadas controlavam os poderes da República.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão...

A repercussão da música foi imediata. De sua base no Forte Coimbra, no pantanal mato-grossense, o general Aspirante Basto enviou uma “Carta a Geraldo Vandré”, publicada no Última Hora, e na qual ele questionava o compositor:

“O que entende você de pátria, para dizer que nos quartéis se vive sem razão? Que mais você fez nesta vida, sem ser em troca de lucro?”, indagando ainda que “será uma vida sem razão a dos homens que neste momento, como eu, em terras longínquas ensinam a cor da bandeira brasileira?”

Mais adiante ele aconselhava o artista: “Cante o que quiser, mas não coloque nada de pátria no meio. Você não sabe o que é isso. A sua pátria deve ser um copo de cerveja.” E num tom cada vez mais exaltado, o general vaticinava: “Você passará, Vandré. O povo esquece depressa. Sua música causou sensação, mas logo será esquecida.”


Aspirante Basto pode ter sido um bom militar, mas foi com certeza um péssimo vidente. Lançada em meio aos protestos estudantis de 1968, “Pra não dizer que nao falei de flores” (ou “Caminhando”, como ficou mais conhecida) se tornou uma espécie de Marselhesa brasileira, inflamando greves, passearas e manifestações até os dias de hoje.

Na época a composição não venceu o festival e foi proibida pela Censura Federal sob o argumento de veicular uma mensagem “subversiva e atentatória ao regime democrático”.

Mas os militares não estavam satisfeitos; queriam também a "cabeça" de Geraldo Vandré. E logo após a decretação do AI-5, quando já não havia mais regime democrático, foram bater à porta de um hotel em Anápolis, Goiás, onde o cantor se hospedara em meio a uma turnê. Providencialmente, entretanto, Vandré já estava a caminho do Rio, seguindo depois para a fazenda de Dona Aracy Carvalho, viúva do escritor João Guimarães Rosa, no sertão mineiro.


Pouquíssimas pessoas sabiam do esconderijo, no qual Vandré permaneceria durante mais de um mês. O compositor Geraldo Azevedo, um dos poucos que tinham acesso a ele, recorda-se da tensão daqueles dias.

“Para ir lá eu tinha de me comportar como um militante de organização política clandestina; entrava num carro, mudava para outro, fazia tudo para despistar pessoas da repressão que pudessem estar me seguindo para, por meu intermédio, chegar a Vandré.”

Ali, na fazenda dos Guimarães Rosa, enquanto traçava a rota que seguiria no exílio, Vandré compôs em parceria com Geraldinho Azevedo “A canção da despedida”, premonição da sua própria trajetória a partir dali: ”Já vou embora / mas sei que vou voltar / amor, não chora / se eu volto é pra ficar...”


Alguns dias depois, o artista seguiu para o Rio Grande do Sul e em pleno domingo de Carnaval, 16 de fevereiro de 1969, atravessou a fronteira do Brasil com o Uruguai.

Os primeiros boatos diziam que ele estaria preso e incomunicável em alguma guarnição do Exército, de que fora torturado ou até mesmo executado pelo Esquadrão da Morte.

Em Junho de 1969 parte do mistério se desfez quando o jornal O Globo localizou Vandré em Santiago do Chile. “Estou bem vivo. Escrevendo e fazendo da saudade o que posso fazer”, disse ele à reportagem.

Sem visto para permanecer no país, no mês seguinte Vandré foi obrigado a deixar o Chile. Seguiu para a Argélia e depois a Europa: Alemanha, Áustria, Itália.


Muitas vezes em troca de pouso e comida Vandré percorreu povoados do interior da Grécia, Bulgária e Iugoslávia. Na França, fez uma pausa de 18 meses e ali, em novembro de 1970, gravou seu último LP: "Das Terras de Benvirá".

Em março do ano seguinte, foi detido pela Polícia francesa por porte de haxixe e obrigado a deixar o país.

Vandré consegue retornar a Santiago, mas o exílio já se tornara um pesadelo e o artista recorria cada vez mais ao uso de drogas. Num Chile àquela altura convulsionado, com toques de recolher, à beira do golpe militar, acentuaram-se as crises depressivas do compositor, num processo de desintegração psicológica que o fez submeter-se a tratamento psiquiátrico durante 45 dias.


Enquanto isto, no Brasil, sua família articulava negociações para que ele pudesse voltar. E assim, em Julho de 1973, dois meses antes de as tropas do general Pinochet tomarem o poder e cortar as mãos do cantor de protesto chileno Vitor Jara em pleno Estádio Nacional, Geraldo Vandré deixou Santiago, embarcando ao Rio de Janeiro.

Tão obscuro quanto sua saída foi o seu retorno ao país. O autor de “Pra não dizer que não falei de flores” fez uma única viagem de volta, mas desembarcou duas vezes no Brasil. Houve um desembarque real e um segundo desembarque, fictício.

O primeiro foi noticiado pelo Jornal do Brasil em sua edição de sexta-feira, 18 de Julho de 1973. “O cantor e compositor Geraldo Vandré foi preso, ontem, no aeroporto do Galeão, ao desembarcar de um avião. O artista foi levado para uma unidade militar, onde se encontra incomunicável.”


Seguiram-se 33 dias de absoluto silêncio. É quando é apresentado o desembarque fictício de Vandré em terras brasileiras. Na noite de 21 de agosto de 1973, a câmera do Jornal Nacional da TV Globo focaliza a escada de um Electra da Varig no aeroporto de Brasília.

O angulo vai se fechando e o rosto de Geraldo Vandré, barbado e com a expressão cansada, aparece na tela. Neste momento o locutor informa que “o cantor e compositor Geraldo Vandré acaba de voltar ao Brasil”. O artista desce a escada e caminha lentamente pela pista do aeroporto.

A seguir é mostrada a primeira fala de Vandré à televisão brasileira desde 1968. Cabisbaixo e com a voz trêmula, ele afirma que pretendia integrar suas composições “à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranqüilidade” e queixa-se de que sua música foi apropriada por grupos políticos contra a sua vontade:

“Vocês sabem, a arte às vezes é usada por um grupo determinado com interesses políticos e isso transcende a vontade do próprio autor. Eu, o que tenho a dizer é que, na verdade, nunca estive vinculado ou comprometido em toda a minha vida com qualquer grupo político.”

Por fim, ele declara que dali pra frente desejava “só fazer canções de amor e paz”.

É neste espaço de tempo entre a chegada de Vandré em 17 de julho de 1973 e esta "volta" apresentada pela TV Globo, 33 dias depois - que melhor se situa a pergunta formulada no samba de Benito di Paula: “O que foi que fizeram com ele?”


Sabe-se que após aquele primeiro período incomunicável numa unidade do I Exército, no Rio de Janeiro, o compositor também esteve preso numa carceragem da Polícia Federal em Brasília.

E foi provavelmente entre uma cela e outra que a polícia política conseguiu arranjar a retratação ou confissão que Vandré apresentou ao público através do Jornal Nacional.

Geraldo Vandré - O que aconteceu de fato, com ele?

O fato é que, quando num daqueles dias de 1974, Benito di Paula avistou Geraldo Vandré “dizendo um poema para um poste”, o autor de “Disparada” já era uma sombra de si mesmo. Estava com 38 anos, mais gordo e grisalho, vagando a esmo sozinho pelas ruas de São Paulo. E dizia não ver televisão; não ouvir rádio; não ler jornal; não ter emprego; e não pagar imposto.

E recusava-se a gravar disco, fazer shows ou dar entrevistas: “Nada do que eu possa dizer, fazer ou pensar - dá no mesmo ser publicado ou não, porque não tem nenhum valor” , se auto-analisava sem nenhuma indulgência.

Aspectos que tornavam a pergunta do refrão do samba ”Tributo a um rei esquecido” cada vez mais pertinente e atual. “E eu continuo querendo saber: cadê ele? Já deram anistia pra ele? O que foi que fizeram com ele?” , reclama ainda hoje Benito di Paula.


Nos últimos anos alguns jornalistas tentaram fazer esta pergunta ao próprio Geraldo Vandré. E ele, na maioria das vezes, se esquiva da resposta. “A curiosidade sobre isso é uma paranoia, uma doença. Não me sinto responsável em elucidar isso”, respondeu a Brenda Fucuta do Jornal do Brasil.

A jornalista Maria do Rosário Caetano, de O Estado de S. Paulo, foi direta: “Você foi torturado?” A resposta de Vandré, também: “Nunca. E me nego a continuar falando sobre este assunto.”

E para um jovem repórter de O Globo que insistiu em perguntar-lhe se ele era uma vítima do regime militar, Vandré esbravejou com o dedo em riste e os olhos verdescinza arregalados: “Vítima é você! Vítima é você!”

Logo após o encerramento do III FIC, em Outubro de 1968, o então coronel Octávio Costa escreveu no Jornal do Brasil um artigo de grande repercussão intitulado “As flores do Vandré” , no qual ele defendia os militares - "não vivem sem razões os que asseguram à imensa maioria da nação o direito de continuar vivendo democraticamente" - , e cobrava punição para o compositor sob o argumento de que a Justiça não poderia se calar “diante do delito, do delito claramente configurado, à luz dos refletores, contra a lei vigente”.

Numa entrevista de mais de três horas concedida a Paulo César de Araújo, autor do livro "Eu não sou cachorro, não", o general responde sobre Geraldo Vandré ter sido ou não torturado:


“Eu acredito que ele deve ter sido preso e não descarto a possibilidade de ter recebido alguns tapas, uns empurrões contra a parede, 'vamos, faz uma música aí agora', coisas assim. A indignação dos militares contra ele foi tão grande que alguns algozes podem ter dado uns safanões. Já tortura em pau-de-arara, choque elétrico, não creio que tenha sofrido, muito menos lavagem cerebral, que é um negócio bastante requintado”.

Embora negue que tenha havido o uso das formas clássicas de tortura, Octávio Costa é a primeira autoridade militar do governo Médici que admite a possibilidade de que Vandré sofreu algum tipo de coerção física por parte de elementos do Exército.

Bem, de tudo isto, ressalte-se que aquela pergunta (ou paranoia, como diz Vandré), que se repete por três vezes no samba “Tributo a um rei esquecido” - "o que foi que fizeram com ele?" - , só pôde ser veiculada nas rádios do Brasil nos anos 70, porque Benito di Paula valeu-se mais uma vez da linguagem da fresta, driblando um comunicado expedido pela Polícia Federal que proibia a "transcrição ou divulgação de qualquer notícia, comentário ou referência" a respeito do cantor e compositor Geraldo Vandré.”

Benito di Paula chamou-o então de “rei”, valendo-se de imagens presentes na canção “Disparada”, em que Vandré diz “na boiada já fui boi / boiadeiro já fui rei”. E esta era realmente a única forma possível de se cantar brasileiros mortos, presos ou banidos pelo regime de 1964.


Tributo a um rei esquecido
Benito di Paula
1974

quinta-feira, 6 de agosto de 2015



Mas... 
e o PT, hein?!



Por Enilton Grill



Dia desses me perguntaram:

- E o PT, hein?!.

Fiz que não ouvi fiz que não entendi fiz que não era comigo. Desconversei, mudei de assunto. Dali a pouco...

- Bah, mas e o PT, hein?!

É difícil responder quando se esteve tão envolvido num projeto de mudança. É difícil responder quando se dedicou tantos anos de vida e quando se criou tanta expectativa de uma nova perspectiva de vida para todos nós. Difícil, muito difícil. É preciso cortar na carne. Desnecessário dizer que dói..

- Pois é, mas e o PT, hein?!

Não tive alternativa, encarei o sujeito, respirei fundo, estufei o peito e meio sem jeito puxei pela memória. Passou um filme na minha cabeça e encontrei na relação com o cinema a resposta a esta pergunta cheia de ironia e carregada de veneno. É uma lembrança meio apagada. É de uma cena de um filme de Groucho Marx, comediante e ator estadunidense.

Não lembro exatamente como era. Mas, do que eu lembro eu lembro que o comediante perseguia um delinquente em um trem e o trem ia ficando sem lenha. E ele seguia perseguindo o fugitivo colocando lenha no forno da locomotiva e, em um momento, ele vai pegar lenha e não tem mais lenha.

Então, Groucho começa a quebrar os vagões de madeira, um atrás do outro, para alimentar o forno da locomotiva. O importante era alcançar o fugitivo. Groucho não desistia. E tanto alimentou o forno da locomotiva com a madeira dos vagões que lá pelas tantas o fugitivo cansou e Groucho o alcançou. Mas aí já não havia mais vagões, só a locomotiva. Para alcançar seu objetivo, os vagões todos haviam sido sacrificados. O trem chega, mas chega sem trem. 

- Mas, e o PT, hein?!

Pois é, com relação ao PT, o que eu penso é que o importante era chegar. E pra isso, em meio à viagem, a alma foi vendida. A imagem ficou distorcida. A história acabou comprometida. É como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. A verdade está na viagem, não no porto. Não há mais verdade do que a busca da verdade.

É isso aí. Na mosca! O caminho se faz andando e a verdade eu sigo procurando. Mas engana-se quem pensa que eu estou capitulando. Eu não estou rendido e muito menos arrependido. Talvez um pouco órfão de Partido. Acho que isso, sim. Mas minha bússola está voltada à esquerda. Mais à esquerda ainda do que o lugar onde eu estava. Pois, de ser feliz não abro mão. E dos meus sonhos também não, sejam eles impossíveis ou não. 

- Mas... E o PT, hein?

Heráclito dizia que um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Era uma frase que servia de ilustração à sentença basilar da sua filosofia, baseada no seguinte princípio:

“Tudo flui”.

Assim, o rio muda a todo instante, e o homem que nele se banha muda também. Eu, hoje, não sou o mesmo que fui ontem. Mas no sol e na estrela ainda acredito. E na poesia e na utopia também. Do povo brasileiro nunca desacreditei. Mas onde está a verdade, ainda não sei.

O que eu sei é que o PT de hoje não será jamais o da minha juventude. Aquele PT eu o perdi. Nunca mais vou encontrar. Não tenho mais lenha pra queimar e nem vontade de procurar.

terça-feira, 30 de junho de 2015


Mais humildade, por favor


Por Enilton Grill


Se eu dissesse que já li Descartes, Sartre, Nietzsche - e outros mais - você diria que eu sou modesto e humilde ou que eu sou pretensioso e orgulhoso?

Acho que se você tivesse boa vontade diria que eu ao ler estes senhores cheios de sabedoria reconheço minha ignorância e procuro aprender um pouco com quem sabe muito. Mas você também poderia ter má vontade e dizer que eu estou querendo aparecer e mostrar o que sei dizendo o que digo.

E eu, o que digo? Não sei.

Se eu disser que sou pretensioso e orgulhoso, é mentira.

Se eu disser que sou humilde não aprendi nada com o que li. A humildade é a virtude mais humilde porque o humilde nunca vai dizer que é humilde.

Moral da história: Eu tenho orgulho de ler o que li.

Mas preciso ler mais - muito mais - para aprender um pouco. Um pouquinho só que seja. Pois não sei nada. Se soubesse não teria dito o que disse. Pois a falta da virtude da humildade é o orgulho. O orgulho é a ignorância da ignorância. O orgulhoso ignora que ignora.

Mas será que ter orgulho é a mesma coisa que ser orgulhoso?

Não sei. Se você souber, por favor, me ajude. Eu gostaria muito de um dia vir a ser ser humilde. Achei que já era, e ainda não sou.

Outra coisa:

Você poderia ser maldoso e dizer que eu sou mentiroso, que eu não li nada disso. Você pode até achar estranho, mas se você dissesse isso eu não diria nada. Não acharia nada de mais. Muito pelo contrário, eu acharia normal. Sabemos, os que lemos Nietzsche, que a verdade é uma convenção social. E o que seria essa verdade? Nietzsche nos responde em seu livro "Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral":

'[...] a verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. (...) Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.'

É isso, entendeu? Estranho, na verdade, pelo menos pra mim, é o rebanho, que se acha grande coisa e é só a mesma e velha manada, acomodada e manipulada. Só isso e mais nada.

domingo, 19 de abril de 2015


Galeano, meu caro amigo


Por Enilton Grill


Dizem que morreste e que foste velado com honras de ministro de estado.

Dizem que foste cremado.

Dizem, dizem e dizem. Mas dizem tanta coisa que não é verdade.

Dizem que a esquerda morreu. Dizem que a história acabou. Dizem tanta mentira que, às vezes, como agora, sinto que me roubaram até as palavras.

Como pode...

Tento disfarçar a minha dor e não consigo. As veias estão abertas e escrever me dói.

No entanto...

Lembro de tuas palavras, aquelas que dizem que as pessoas escrevem para denunciar a dor e compartilhar o prazer e que as pessoas escrevem contra sua própria solidão e a dos demais.

E então me dá vontade de escrever um pouco mais.

A verdade é que fiquei sabendo o que soube através de um amigo comum. Nos cumprimentamos e ele me disse o que não queria dizer e eu ouvi o que não queria ouvir.

Mas foi melhor assim.

Melhor ter escutado do Soler do que de uma estação de televisão qualquer. O Soler é de carne e osso. E muito coração.

Já a televisão...

Desde muito cedo aprendi a gostar da solidão. Isso não quer dizer que eu seja um solitário. Ao contrário. Sempre tive amigos.

"A amizade é o encontro de duas solidões e quando duas solidões se encontram surge a comunhão", já dizia uma poeta.

E estava certa, caro amigo.. Estava certa...

No mundo inteiro, somos muitos. 

Somos muitos os que pensamos com tua cabeça, caminhamos com tuas pernas, escrevemos com tuas mãos

Somos muitos os que nos abraçamos com teus braços.

No mundo inteiro, somos muitos os que nos conhecemos através de teus livros e crescemos com tuas palavras e falamos com tua voz.

E a palavra, já disseste, já escreveste, "quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha.”

Por isso, é preciso tornar a começar. Por mais que doa, e hoje dói, é preciso continuar a dizer e não deixar de escrever. Como diz um compositor, poeta e escritor, amigo nosso, "eu não vou desesperar, eu não vou renunciar".

Dizem que morreste, amigo. Dizem que morreste.

Coitados, não sabem nada.

Esse é o primeiro dia de uma longa vida para viver. O mundo que queremos (ainda) não é. Mas será. Quem viver verá.

¡Nos estamos viendo! ¡Nos estamos viendo!

Assim nos despedimos nós os que nos despedimos sem que nenhum de nós se vá.

sexta-feira, 10 de abril de 2015


É isso aí, meu camarada...
(isso aqui não tá com nada)



Por Enilton Grill



Há quem diga que ele fugiu outros que morreu e outros que enlouqueceu. Fugiu não fugiu, morreu não morreu e se enlouqueceu ou não não sei. O que sei é aquilo que todo mundo sabe, pois ele nunca escondeu....

Ele viveu pra se dar e se deu.

Depois ninguém sabe bem o que aconteceu.

Sabe-se, pois é é visível, que anda distante. Quanto a isso, disse uma médica militante:

“…Conheci Vandré quando ele foi internado na emergência psiquiátrica da Clínica de Botafogo. (...) Aparentava ‘tranquilidade’, mas sua fisionomia era de tristeza e de dor..."

Foi isso que aconteceu. Geraldo Vandré sofreu mais do que foi capaz seu coração de suportar.

Difícil de aceitar?

Pra nós, pode ser que seja, pra ele, talvez não.

Difícil de entender?

Acho que não, acho que é fácil de explicar.

Só na tristeza e na dor alguém pode entender que a dor tem que acabar.

Mas quem quer escutar? Quem quer entender?

Se você quiser, eu vou tentar...

Ele foi mandado embora e tratado por alguns como escória. Perdeu o trem da história e andou a esmo. Caminhou, cantou, mas virar o mundo não virou. Não deu. Chorou, sofreu... entristeceu e não voltou mais.

Ele vive ainda exilado num país por ele inventado.

Onde é, não sei, mas acho que é num reino onde não tem rei.

Às vezes ele aparece. Nas raras vezes que isso acontece ele parece cansado e mesmo quando fala permanece calado.

Talvez tenha sido torturado e ainda esteja condicionado e amordaçado.

Não sei, ninguém sabe, se está arrependido, doente, deprimido, desiludido, constrangido, ainda revoltado ou já tresloucado.

Quando fala se mostra reticente, às vezes irônico e outras irritado.

Talvez esteja injuriado ou se fazendo de rogado.

A verdade é que não perde a chance de mostrar que está sendo importunado.

Sempre sagaz, parece dizer:

- Cuidem da vidinha de vocês e me deixem em paz!

É isso aí, meu camarada, isso aqui não tá com nada.

Numa e noutra coisa deu uma melhorada e no mais não evoluímos em nada. E de resto...

De resto, não mudou nada, a esquerda segue fragmentada e desarticulada e a direita, cada vez mais, retrógrada, conservadora e manipulada.

quinta-feira, 2 de abril de 2015


Não à redução

(Por um país onde livros e educação valham mais que algemas)


Por Enilton Grill


Sou contra a Redução da Maioridade Penal.

Se me perguntassem o porquê eu poderia dizer...

Porque o sistema prisional não suporta mais pessoas.

Porque o número de crimes cometidos por menores é tão pequeno que não justifica uma mudança na Constituição.

Porque em outros países onde isso se dá não diminuiu em nada a criminalidade.

Porque na idade entre 12 e 18 anos a criança/adolescente está recém formando sua personalidade - e por isso requer um tratamento diferenciado.

Porque educar é mais eficiente que punir e porque o medo de uma punição mais rigorosa não educa ninguém, até porque se assim fosse o problema seria fácil de resolver e já estaria resolvido.

Enfim...

Eu poderia (ainda posso, ainda me deixam) dizer mais um monte de coisa.

Mas a verdade é que não sou uma pessoa letrada nessa área (nem em área alguma). Reconheço a insignificância dos meus dizeres. Por isso, passo a palavra para quem sabe os porquês relativos ao tema e (por isso) diz o que diz.

Disse o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Antônio Mello:

Porque cadeia não conserta ninguém.

Porque não devemos dar uma esperança vã à sociedade, como se pudéssemos ter melhores dias alterando a responsabilidade penal.

Disse o Ministro do TJ -SP, José Renato Nalini:

Porque a redução tenderá, mais tarde, a passar para 14, depois para 12.

Porque deveríamos nos preocupar com as causas da delinquência.

Porque qualquer emenda tendente a retirar do patrimônio jurídico um avanço, um direito que já se integrou ao patrimônio jurídico, é considerada um retrocesso.

E disse mais...

Disse ter a impressão que o Supremo, com a atual composição, não vai deixar passar isso.

Pois é. E se assim é (e é) então que assim seja.

É o que tenho dito (quando me perguntam) e quando não me perguntam mas me dá vontade de dizer.

É o que tenho dito (quando me perguntam) e quando não me perguntam mas me dá vontade de dizer.

E se me perguntassem o porquê de dizer o que muita gente já disse eu diria que disse o que disse pelo simples prazer de dizer. E aconselho você a dizer também.

Mas, se você já disse, (a você) só me resta bater palmas...

E  dizer amém.

sábado, 28 de março de 2015


(In)justiça com as próprias mãos


Cuidado! Preste atenção! "Bandido bom é bandido morto" mais que uma expressão é um desejo, mais que um desejo é um delito, que já está sendo praticado. O gatilho já foi apertado. E será outras vezes mais se permanecermos calados. Indignemo-nos!


Por Enilton Grill
(com a ajuda de Georges Bourdokan)


O que você acha de viver um país onde não se paga médico, não se paga remédio, não se paga aluguel, não se paga escola, onde o estudante, qualquer estudante, que quiser se aperfeiçoar em universidades no exterior recebe uma substancial bolsa de estudos do governo?

Volta e meia, os reacionários, os retrógrados, os coxinhas, que é tudo a mesma coisa (são todos de direita), questionam onde - em que lugar do mundo - acontece esse outro mundo possível que nós defendemos e eles desdenham.

Eles perguntam porque não sabem, se tivessem lido o Livro Verde saberiam...

A Líbia de Kadhafi era assim. Não é mais. Deixou de ser depois da invasão dos Estados Unidos e da Otan. Agora a Líbia é mais "civilizada" e mais "democrática".

Falando sem aspas:

A Líbia vive o caos quase quatro anos após a derrubada e o assassinato de Muamar Kadhafi.

Mas o que isso tem a ver com o título?

Explico (e peço ajuda ao Bourdokan):

Em 1969, Kadhafi derrubou a monarquia de Idris I e sua primeira atitude foi nacionalizar os poços de petróleo e aplicar os recursos em benefício da população, que até então vivia em total exclusão.

Vou desenhar (com a mão do Bourdokan)...

A Líbia é um país desértico, começou a se transformar num oásis e numa ameaça para os governos das nações vizinhas.Eram nações dominadas por elites entreguistas e corruptas. Por isso, quando Kadhafi iniciou a distribuição de renda, as retaliações, lideradas pelos Estados Unidos, não tardaram em vir.

Destruir Kadhafi tornou-se uma prioridade.

A partir daqui então sigo sozinho (sem o Bourdokan e sem ninguém mais).

Entra então em ação a já conhecida operação midiática (de âmbito global) que vende a imagem de quem quer que seja como eles querem que seja e como eles querem que a gente 'Veja'. Se a imagem será boa ou má dependerá única e exclusivamente de seus interesses e dos interesses de quem os paga. No caso de Kadhafi pintaram a pior possível, com mentiras e requintes de crueldade.

Pronto.

Depois de escolhido o alvo e de tê-lo solapado e arruinado o ato seguinte se dá sob os olhos, os desejos e os aplausos de meio mundo (e com o beneplácito de deus).

Pois que seja feita a vossa vontade...Se bandido bom é bandido morto, Kadhafi está morto e a Líbia destruída.

E assim é a vida (a)baixo a pena de de morte.

PS: Ei, justiça, presta atenção! Andam falando em ti em vão, para em teu nome (e em nome do petróleo), fazer (in)justiça com as próprias mãos.

terça-feira, 24 de março de 2015


Apesar de vocês 


Por Enilton Grill


A questão aqui não é se há ou não esquerda e direita. A questão é saber quem é de esquerda e quem é de direita. E concordo que tem muita gente (e partido) se dizendo de esquerda e fazendo política de direita.

Já disse uma vez (e direi outras mais) não sou maniqueísta. Não é disso que se trata. Trata-se de deixar bem claro que há dois lados. O que não significa dizer que um é do bem e outro do mal.

Mas, partindo do princípio que quem chegou até aqui sabe - ou pelo menos tem conhecimento - em relação a origem dos termos, vamos ao que interessa.

Os sentimentos que movem uma pessoa de esquerda não são os mesmos de uma pessoa de direita. E vice-versa.

Senão vejamos:

Quando uma menina aborta na favela, quando um índio é queimado, quando um mendigo é espancado quando um negro é perseguido, quando um sem-teto é despejado, quando um sem-terra é massacrado, quando uma mulher é desrespeitada...

Quando tudo isso acontece, na melhor das hipóteses, vocês dizem:

-Eu não tenho nada a ver com isso.

Vocês não ligam, não é com vocês, vocês não estão nem aí. E é bem aí - ou mais aí - que nos afastamos. Vocês - quase sempre e em quase tudo - acham que não têm nada a ver com nada, a não ser com vocês, com os de vocês e com os que vocês consideram iguais a vocês.

Vocês, por exemplo, são contra a Comissão Nacional da Verdade e a favor da volta da ditadura. Vocês, na verdade, não estão nem aí para a democracia, que está onde está não (por causa) de vocês e sim (apesar) de vocês e que só não é mais participativa (como deveria ser) porque vocês não querem e não deixam que ela seja.

Outra coisa:

Vocês são a favor da meritocracia, onde "os de cima sobem e os de baixo descem". Vocês são contra os Direitos Humanos, vocês acham que bandido bom é bandido morto e vocês acham justo esse sistema que põe preço nas coisas e nas pessoas, onde quem mais vale é quem mais tem.

Vocês não se importam com a construção de um país mais justo e menos desigual. Vocês não estão nem aí pra isso. Vocês só estão preocupados com uma coisa: melhorar as coisas para vocês e (olhe lá) para os de vocês.

Outra coisa só:

Para vocês, da direita, que acham que estão mudando alguma coisa eu acho que vocês estão se achando. A vida não se resume a manifestações bancadas pela Rede Globo.

Chega de hipocrisia! Vocês dizem que (por causa) de vocês amanhã vai ser outro dia. Pois eu digo que (apesar) de vocês amanhã há de ser outro dia.

Uma coisinha só mais:

Desnecessário dizer (mas eu digo) que o título deste texto - onde eu digo o que digo - remete a um velho (e caro amigo) que disse o que disse qual vocês não queriam que ele dissesse. Mesmo assim - e apesar de vocês - ele disse.

Só mais uma coisa:

Dizer que vocês, da direita, são contra a corrupção - como vocês dizem que são - não só não é verdade como é uma baita de uma cretinice.

Agora...

Para nós - tanto faz da esquerda quanto da direita - que dividimos a humanidade entre os do bem e os do mal - ouçamos um bom conselho - nos é dado de graça:

Leiamos um pouco mais de Nietzche.

terça-feira, 17 de março de 2015


Negros e negras

No desafio por trabalho e renda

Dias 20 e 21 na Câmara Municipal:
 “1º Congresso de Negros e Negras de Pelotas”


Por Carlos Cogoy


Saúde, educação, cultura e religião. Alguns dos eixos que serão debatidos no 1º Congresso de Negros e Negras, que acontecerá sexta e sábado no Legislativo Municipal. Para a servidora da UFPEL, Catharina Beatriz dos Santos Motta (Foto), todos os temas são importantes mas “tem uma questão que, no meu ponto de vista, é fundamental: trabalho e renda. Considero que essa temática deve ser aprofundada. Afinal, temos muitos jovens que estão se formando, e pra quê? No momento da escolha dos profissionais, sempre nos passam a perna”, avalia Catharina. Licenciada em educação artística, atualmente ela integra o grupo de trabalho “Etnias” da Asufpel (Sindicato dos Servidores da UFPel). Em relação ao tema que destaca, Catharina menciona: “O 1º Congresso de Negros e Negras de Pelotas será importante instrumento de discussão de vários temas. Considero que a geração de renda será fundamental para refletir a situação da ocupação dos negros. O racismo, seus efeitos e mecanismos de reprodução, tem impactado de modo expressivo e perverso a sociedade brasileira, pois os indivíduos são selecionados com base no pertencimento racial”.

PELOTAS – Catharina há dezessete anos participa do movimento negro. Na trajetória, esteve integrada ao então “Lanceiros Negros”, Fórum de Mulheres Negras de Pelotas, Seminário de Consciência Negra de Pelotas (SECONEPE), Grupo DEA e projeto de extensão “De mãos dadas com nossas raízes e nossos irmãos”. Em relação à cidade natal, ela reflete: “Pelotas é uma cidade conservadora. Na sua história de charqueadas, casarões, enfim, cada lugar que se ande, sentimos a mão escrava. E principalmente nas ruas onde pisamos, pois as pedras dos calçamentos foram assentadas pelo suor de muitos negros. Nas charqueadas, o sangue dos escravos se misturava ao sal e suor. Mesmo assim, com essa relevância no passado, a cidade nos despreza. Somos sempre os últimos em tudo. O preconceito ainda impera e está muito presente. Aos negros cabem os piores empregos, piores salários, piores moradias. Avanços? Poucos, e muitos por causa de ações afirmativas do governo federal, lógico que impulsionadas pela militância negra e movimentos sociais. Muitos negros hoje moram um pouco melhor, alguns já estão na universidade, mas a grande maioria ainda continua nas vilas, em condições precárias de habitação, sem saneamento básico, sem emprego, sem atendimento digno na questão da saúde. No comércio local já visualizamos um ou outro negro na linha de frente do atendimento. Mas a proporção ainda é pequena, muito pequena”.

PAÍS – Vinculada ao Partido dos Trabalhadores (PT), Catharina integrou o diretório e militou “em função da causa negra”. Ela analisa a questão em âmbito nacional: “No Brasil, apesar de alguns avanços, como a lei 10.639, que institui às escolas o ensino da história africana, a mudança ainda está muito devagar. Notamos que após dez anos, apesar do esforço de alguns professores, praticamente nada aconteceu. O governo petista, mesmo que alguns setores considerem que ainda não priorize a questão negra na sua agenda de compromissos, na minha opinião tem proporcionado melhorias. Projetos como Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Prouni, Cotas etc., ajudaram bastante a questão étnica. Ressalto que a maioria dos beneficiários é de negros, que estavam abaixo da linha da pobreza”.

DEBATE – Catharina menciona sobre a trajetória no movimento negro, e as perspectivas do congresso em Pelotas: “Em relação ao congresso, tivemos mobilizações semelhantes. No início dos anos 2000, Pelotas sediou a Pré-Conferência da Comunidade Negra. A culminância foi a Conferência Estadual em Caxias do Sul, com grupos de diversas cidades. À época governos Fernando Marroni no município, e Olívio Dutra no Estado. Naquele momento, a comunidade negra estava mais inserida nos partidos políticos, tínhamos mais ‘trânsito’, e conseguíamos realizar determinados eventos. Então, sobre o congresso neste mês, creio sim que podemos lançar novas ideias. E principalmente mostrar a jovens lideranças, que estão chegando, que o caminho é a discussão, enfrentamento e respeito pela causa. Acredito que o congresso será marco histórico e terá sequência, pois haverá a participação de muitos estudantes e profissionais de diferentes áreas. Eles levarão adiante a ideia, que poderá ser a cada dois anos, ou de quatro em quatro anos. Afinal, não é quando os ‘aguapés’ começam a se mexer?”.

DEFINIÇÕES do congresso, conforme a opinião da servidora pública: “Os negros historicamente recebem os menores salários, muitos em condições desumanas de trabalho. Também sofrem com o assédio moral. Mesmo com algumas mudança nas condições de vida das mulheres e homens negros, consequência de iniciativas governamentais em relação à política de promoção da igualdade racial, ainda persistem os diferenciais que, comparativamente aos brancos, colocam os negros em desvantagem. Com o congresso considero que, certamente após a conclusão dos debates, teremos a deliberação de documento. Com isso, poderemos cobrar das instâncias governamentais, o devido respeito à comunidade negra local. Estaremos deixando bem claro o quanto contribuímos com esta cidade, e por isso reivindicamos reconhecimento e atitude”.

domingo, 15 de março de 2015


Um inconformado...


Por Enilton Grill


Um inconformado é um obsessivo compulsivo. Tem pensamentos que o incomodam. Sente-se na necessidade de repetir algumas ações várias vezes, sem nenhum motivo aparente.

Um inconformado é um renitente, às vezes um herói, e, na maioria das vezes, uma pessoa pouco inteligente.

Assim como eu...

Eu queria ser como a maioria dos meus amigos.

Tomar uma ou duas cervejas ou uma ou duas doses de uísque ou um ou dois martelinhos, jogar conversa fora oitavado num balcão de bar, e depois ir embora para casa dar um ou dois tapas (num baseado) dormir e viajar.

Assim era eu. Eu queria fazer o que (a maioria) dos meus amigos fazia, eu queria ser como eles eram.

Quando eu descobri que eu não era como a maioria dos meus amigos já era tarde demais. Eles tinham uma casa para morar e eu já não tinha para onde voltar.

Esse é o problema do inconformado. Ele não se conforma com a derrota. Ele sempre inventa uma desculpa para voltar a brigar.

Às vezes, o inconformismo é uma virtude e o inconformado um herói.

Em outras, é só uma doença (uma obsessão). 

Neste caso, ou o paciente se trata ou providencia a extrema-unção.

quinta-feira, 12 de março de 2015


Brizola
 (e os 'filhotes da ditadura')


Por Enilton Grill


(À memória de meu pai)


Não tenho intenção de ser (e não sou) - em nenhum sentido e tampouco no marxista - revisionista. Muito menos estou sendo acometido por alguma recaída pró-brizolista.

Mesmo que estivesse não ia adiantar mais - o Brizola não está mais aqui e outro como ele nunca mais. Além do mais, quando tive a oportunidade de escolher entre o Brizola e o Lula já era petista de carteirinha e não me arrependo nem um pouco da escolha que fiz, pois a fiz senhor de mim e na plenitude das minhas faculdades mentais.

E dizendo isso, digo mais...

Quem diria que mais de vinte anos depois do histórico debate para presidenciáveis da Band - onde Brizola chamou Maluf e a plateia toda (composta de assessores e jornalistas) de "filhotes da ditadura" - estaríamos todos nós (da esquerda) envolvidos em escaramuças com eles, os "filhotes da ditadura". Quem diria que estamos de novo tendo que ir pras ruas pra defender a democracia. Quem diria que estamos tendo de novo que dizer (gritar) e escrever "Ditadura nunca mais!". Quem diria?

E quem chamaria (e chamou) a imprensa golpista deste país de "filhotes da ditadura"?

Mais de vinte anos atrás?! Só o Brizola...nenhum outro mais.

Mas pode ser que esteja enganado (e tenham denunciado, alertado, brigado, vociferado outros mais). Já faz tanto tempo que nem lembro mais. Eu tinha vinte e poucos anos (e tinha meu pai). Hoje eu tenho vinte e alguns anos (a mais) e tenho memória de menos e saudades demais.

Unión!Unión!
(pediu, antes de morrer, um tal Simón)


Por Enilton Grill


07 de outubro de 2001. Afeganistão.

Mais uma vez os Estados Unidos apertavam o gatilho da morte e as primeiras bombas eram jogadas sobre o solo afegão.

Mais de uma década atrás tinha início mais uma guerra na história do mundo. Antes havia sido a Coréia, o Vietnã, Cuba, Nicarágua, México, o financiamento aos anos de chumbo no continente....

E qual será a bola da vez?

Não precisa ter bola de cristal (basta ler qualquer jornal) pra saber que a Venezuela está na mira.

No entanto, com Bush a mira era mais certeira. Com Obama ela está um pouco mais desfocada. Mesmo assim, não nos enganemos, a mira está apontada. Não há do que duvidar. É só esperar a ordem de apertar o gatilho e atirar.

A história é circular, dizem alguns. Se é ou não é, não sei (e duvido quem saiba). Mas, por via das dúvidas, é bom lembrar o que os Estados Unidos já fizeram outras vezes. Eles miram num alvo menor para acertar num maior.

Pois então, botemos as barbas de molho e nos armemos das armas que sabemos usar e as usemos. Pois ao mirar na Venezuela é na Nossa América que os ianques (mais uma vez) querem acertar.

Se vão acertar ou não, até acho que não. Basta recordar Playa Girón.

Seja como for, não custa lembrar:

Unión! Unión! (pediu, antes de morrer, um tal Simón).

domingo, 8 de março de 2015


Mujer bonita es la que lucha


Por Enilton Grill


Soledad foi uma militante comunista paraguaia, que vivia no Brasil e fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária VPR.

Soledad lutava contra a ditadura no Brasil.

Soledad antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar "Viva Hitler!" e "Abaixo Fidel!".

Soledad era mulher do Cabo Anselmo, que a traiu e a entregou para a execução, em 1973.

Soledad estava grávida do Cabo Anselmo e apresentava marcas de algemas nos pulsos e equimoses espalhadas pelo corpo quando foi assassinada nos arredores do Recife (PE), num episódio conhecido como o Massacre da Chácara São Bento.

Soledad era neta do escritor anarquista Rafael Barret, era de uma família culta e politizada; e ainda que não fosse bela (como era), de uma beleza de causar encanto, Soledad seria (e era) uma mulher mais encantadora ainda (e bela) por ser uma mulher batalhadora e sonhadora (como era).

Soledad era uma mulher lutadora que sabia que o terreiro de casa não se varre com vassoura se varre com ponta de sabre e bala de metralhadora.

E são as mulheres que são o que Soledad foi que fazem qualquer dia ser um dia especial.

A vocês ofereço um roseiral, vermelho e virginal.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015


Relatos selvagens

A crueza alegórica do cotidiano voraz

Em sessões às 17h e 21h50min, produção argentina “Relatos Selvagens” está em exibição na sala 5 do Cineflix no Shopping

Por Carlos Cogoy

Após jejum de filmes razoáveis, uma bela obra em exibição no Shopping Pelotas. Em duas horas, seis relatos que espiam o abismo. Cada episódio uma sentença. Reunidos, chegaram com fôlego à indicação para o Oscar de filme estrangeiro. “Relatos selvagens” não levou a estatueta. O que pouco importa, considerando-se que “Selma” – aborda a questão negra nos EUA -, também não venceu como melhor filme. Enquanto o Oscar prossegue “selvagem”, contundentes e lúcidos relatos aguçam a sensibilidade e inteligência. Com direção do talentoso Damián Szifrón, “Relatos selvagens” também remete a inescapável comparação com a produção cinematográfica no País que “Lava Jato”. Nem tudo é ruim, mas tem sido frequentes as idiotices cujos elencos, para atrair bilheteria, escalam celebridades das novelas de tevê.

SEIS episódios à procura de uma razão. No filme argentino, surpresas perante tramas inusitadas, apreensão com desfechos imprevistos, riso diante da ficção que espelha o cotidiano. Em cada história, atores transitam sobre o abismo que separa razão e loucura. Na abertura, voo emblemático. No avião, poucos minutos são suficientes para inquietar. E a “turbulência” é tão intensa que sacode, além dos passageiros, também os espectadores na sala de cinema. Afinal, o que se insinua como o trivial início de viagem corriqueira, gradativamente vai se desdobrando num percurso rumo a destino tragicômico. Na bagagem, a bomba não é artefato explosivo, mas também possui elevada capacidade de destruição. Trata-se de viagem aos traumas do passado. E alegoricamente um psiquiatra está na aeronave. O pouso não será acidental.

COLESTEROL da porção de batatas fritas, como causa para a morte de mafioso. Num café à beira de rodovia, o cliente é atendido por garçonete. Ela o identifica e recorda momento doloroso. A cozinheira do lugar ouve o desabafo da colega. Num dos momentos mais hilariantes, surge a dúvida se o “veneno para rato”, com validade vencida, torna-se mais eficaz ou menos nocivo. Ex-presidiária, a cozinheira afirma que “na prisão era mais livre do que essa merda toda”. Com a chegada de adolescente, filho do cliente, Fanta sobre a mesa.

PNEU furado pode ser fatal. Numa rodovia, Audi tripulado por “bon vivant”. À frente, arrastando-se sobrecarregado, carro popular bem rodado. A estrada é o abismo entre dois mundos e realidades sociais antagônicas. O episódio é caricatura que transcende o vulgar litígio no trânsito. Trata-se de relato sobre o cotidiano voraz, sem inocência ou ingenuidade, tanto do endinheirado quanto do espoliado. A crueza acelera e o fim da viagem tem conotação que ridiculariza as pretensas diferenças. Todos rodam no mesmo chão.

SISTEMA explora. Numa teia burocrática com filas, guichês e funcionários treinados na “lógica binária” - sim e não -, armadilhas estão à espreita. As “minas” explodem no bolso do contribuinte. E podem estar armadas em banalidades como o simples estacionamento do veículo. O meio-fio não estava “marcado”, mas o carro foi guinchado. A vítima é o engenheiro interpretado pelo ator Ricardo Darín. Especialista em explosivos, ele desafia o sistema.

FILME tem ainda dois episódios excelentes. No penúltimo, jovem de classe média alta atropela e mata gestante. O que sucede, em interpretações magistrais, é uma ciranda de venalidades, corrupção e propina. Na festa de casamento, relato que encerra a obra, ciúme gera comemoração surrealista. Aos convidados, ódio, rancor, ironia, cobiça, medo e ternura.