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terça-feira, 13 de outubro de 2026

 

devir... a ser

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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eu posso resumir num verso todo o processo que, de repente, seja visto como processo acabado? 
não, não posso, porque antes que o conteúdo esteja pronto o próprio verso estará modificado.
mas eu quero, mesmo sabendo do empecilho das leis físicas que me ensinaram a evolução interminável. é inquietante que eu queira interromper o trajeto das coisas fazendo-as prontas quando julgar que estão. é lamentável que eu ouse dar-lhes um peso, uma força, uma velocidade, uma fora e o meu próprio conceito de massa.
dou-me o uso das palavras, o desejo de um poema e a ordem de «faça-se a luz». 
inútil. a ideia não se cristaliza em tempo, porque eu também sou trânsito e, antes que o raciocínio atinja as pretendidas dimensões, outros mistérios do pensamento tornam precárias minhas conclusões. pensar, eu penso, ainda que nesta rota apareçam dúvidas. 
sou meu próprio ditador, impondo o que me escraviza. eu me decreto um verso definitivo ao meu espírito sabedor do transitório. 
está em mim o meu pior inquisidor na hora do interrogatório, sutil e cínico na condição de questionário. 
impessoal, sem ser anônimo; sem voz, embora me fale. 
sou eu quando não posso. 
o que eu quero é um verso final que resuma o processo de um produto. 
o que não posso é mentir um conteúdo que, por ser fictício, foi modificado. 
primeiro me dispo e vejo meu corpo. 
e ouço minha voz, e aspiro meu cheiro, e sinto meu gosto. 
nova mentira na transparência mentida. 
e invento que já não posso me escutar, mas aspiro meu cheiro e sinto meu gosto. 
sou a terceira mentira. 
transparente, surdo e sem poder sentir meu cheiro, mas sinto meu gosto. 
concluo que a quarta é a derradeira mentira, não me vejo, não me aspiro, não me toco, perdi o gosto. 
incorpóreo, eu penso.
penso que, imaterial, eu ouço um verso definitivo, que eu não escrevo. 
porque é abstrato no meu eu de fato, final e acabado... meu substrato.

deogar soares

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no momento em que eu me percebo um pouco desesperançoso, eu resisto, entende?
eu resisto. quer dizer, eu brigo contra mim mesmo, ou brigo comigo mesmo.
eu analiso a razão de ser da minha desesperança para poder superar essa razão de ser.
no fundo, eu sou inveteradamente esperançoso.
eu tenho um certo gosto... um gosto histórico de viver a esperança.
paulo freire

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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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tem quem pensa que é
eu penso que não sou
que vou ser
quando 

grill 

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cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

viglietti

♦

«en el 2003, invitado por mi amigo de lucha, enilton grill, tuve el placer de tocar con daniel viglietti, en el theatro sete de abril de la ciudad de pelotas rs, aqui va un registro de aquel momento inolvidable»
lyber bermúdez

♦

se trata cósmicos de ser más fértiles,
de no ser tímidos, de ser más trópicos,
de ir a lo pálido, volverlo térmico,
sentirse prójimo de lo más lúdico,

con verdes lápices trazar el ámbito
de lo que mágico rompe los límites,
buscar lo hidráulico de lo volcánico,
librar la métrica, cambiar de sílabas.

y con elásticas formas anárquicas
tocar lo afónico que suene homérico,
fundar metáforas, crear la hipótesis
de que lo asmático se vuelva oxígeno.

situar la brújula al sur paupérrimo,
armar las síncopas contra los déspotas,
cambiar la tónica por una séptima,
tocar en triángulo sones esféricos.

y a los dogmáticos tan poco orgásmicos,
casi ni eróticos de ser tan púdicos,
a esos acríticos de sesgo andrógino
decirles «gélidos, no sean retrógrados».

y con armónicos cantar bien nítido
contra lo frígido luchando tórridos,
con armas múltiples llamando cálidos
fondos oceánicos de lo más lúbrico.

el ritmo cíclico del vals esdrújulo
es cual la sístole que va a la diástole,
todo cardíaco de andar eufórico,
nada presbítero, más bien sacrílego.

amando nínfulas que sueña grávidas,
el vals acróbata cruza los vértices
llamando gráciles criaturas prístinas,
seres prolíficos de lo aún inédito.

y a los arácnidos volverlos líricos
y a sus ejércitos juzgarlos rápido
mediante un árbitro de juicio ecuánime
que encierre en cárceles impunes pérfidos.

y los políticos de gesto tránsfuga,
los impertérritos, los siempre cómplices
caerán patéticos en lo espasmódico
cuando lo enérgico les corte el tránsito.

con lo poético del vals arrítmico,
que está en lo crítico de sus propósitos,
no pueden síncopes ni golpes fúnebres,
ni es por patíbulos que quede acéfalo.

ni es por trifásicas que olvide históricas
luchas titánicas por lo inalámbrico,
por lo que ubérrimo se alza eufórico
y anuncia próximos cambios históricos.

cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

(daniel viglietti, 1992)
participação especial: lyber bermúdez
theatro sete de abril
pelotas, rs

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#lula13
#américas 

sábado, 10 de outubro de 2026


a página do relâmpago elétrico

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o início, o fim e o meio
(parafraseando josé, joão, raul e vandré)

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entre o céu e o valão

por josé falero
a maior frustração de minha infância foi não conseguir desfrutar plenamente da maldita motoca de plástico. motoca que, diga-se de passagem, nem sequer era minha: pertencia a minha irmã. tanto quanto me lembro, jamais funcionou bem. primeiro, era uma das rodas traseiras que estava emperrada. tratei de arrancá-la para tentar corrigir o problema e fui incapaz de devolvê-la ao lugar. depois, passadas algumas semanas de angústia, um primo mais velho veio em meu auxílio e tornou a fixá-la, com alicate e arame. não demorou muito e o guidom quebrou. por fim, um tio deu jeito no guidom, mas aí foi a vez da roda da frente de ficar emperrada. sempre havia algum problema.

com o passar dos anos, a motoca foi perdendo espaço em meu horizonte concreto. senti meu desejo de vê-la consertada minguar até o desaparecimento completo e contentei-me em brincar com ela no estado em que estava, o que acelerou sua destruição e, mais do que isso, a destruição de seu encanto. logo os restos mortais do brinquedo jaziam esquecidos em algum canto do pátio onde morávamos.

aparentemente, porém, nada disso impediu a motoca de seguir ocupando, no insondável de mim, um espaço simbólico importante. pois foi mais ou menos por essa época que passei a ter um sonho recorrente com ela.

fossem outras as circunstâncias, não seria incorreto afirmar que morávamos em um bom pátio: terreno amplo, com um belo riacho passando nos fundos: quem não se encantaria? ocorre, entretanto, que as circunstâncias eram elas mesmas, e não outras. na falta de saneamento, aquilo que realmente devia ter sido um belo riacho algum dia há muito que fora transformado em uma enorme vala de esgoto a céu aberto, cujas águas transportavam variados tipos de fezes para quem quisesse ver, espalhando mau cheiro pelo ar. de amplo, nosso pátio não tinha nada, porque eram quatro barracos espremidos ali, compondo um pequeno cortiço; quatro famílias inteiras compartilhando dimensões que seriam adequadas para apenas uma; dezesseis pessoas convivendo, utilizando o único banheiro disponível, se esbarrando aqui e ali, sem qualquer espaço para a mais diminuta privacidade. e tais insuficiências, já evidentes por si mesmas, eram ainda realçadas pelo contraste com o terreno vizinho, aos fundos: para além do valão nojento estendia-se uma chácara lindíssima; um espaço, esse sim, amplo de verdade, repleto de árvores que davam frutas e coberto de grama bem tratada; uma propriedade centenas e centenas de vezes maior do que nosso pátio; um terreno deveras gigantesco, onde espantosamente havia uma única casa, habitada por uma única família; um lugar onde às vezes avistavam-se triciclos infantis motorizados, em vez de motocas de plástico estragadas.

no sonho que passei a ter de tempos em tempos, a motoca de minha irmã achava-se milagrosamente consertada, e eu, montado nela, vinha a toda a velocidade, pedalando freneticamente, e saltava glorioso por cima do valão. mas, em vez de cair na chácara, seguia subindo, subindo, subindo, até que, com um frio permanente se instalando em minhas entranhas, dava-me conta de estar voando. e a chácara rapidamente perdia toda a importância, porque, de lá do céu, olhando cá para baixo por entre as nuvens, eu podia ver o mundo inteiro, e a visão me enchia da mais profunda alegria. logo, porém, era o desespero que tomava conta de mim, porque de uma hora para a outra eu começava a cair, cair, cair, precipitando-me cada vez mais rápido em direção ao solo, e não adiantava pedalar com força redobrada ou bater os braços como se fossem asas ou implorar pela ajuda de deus ou fazer qualquer outra coisa: nada impedia ou suavizava minha queda. por fim, acordava assustado, um segundo antes de me esborrachar no chão.

foi só bastante tempo depois, em algum momento da adolescência, que parei de ter esse sonho à noite, enquanto dormia, embora tenha passado a sonhar acordado com algo que, no fundo, deve ter significado semelhante: dignidade. passei a sonhar com dignidade. passei a sonhar com uma vida em que tudo, inclusive os brinquedos, funciona bem. passei a sonhar com saneamento, passei a sonhar com privacidade, passei a sonhar com liberdade, passei a sonhar com a alegria profunda. e muita gente que lê os meus textos até diz: «o céu é o limite pra ti, falero!». mas, respeitosamente, discordo dessas pessoas. discordo porque sei que, se eu for ao céu, fatalmente hei de cair e me esborrachar no chão. discordo porque me recuso a voar sozinho. discordo porque as nuvens ganham aspectos obscenos quando nem todos podem alcançá-las. discordo porque meu sonho não é realmente só meu: meu sonho pertence a uma nação inteira. discordo, discordo, discordo! não é o céu que é meu limite. meu limite é muito antes.

meu limite é o maldito valão, enquanto ele ainda estiver lá, degradando a vida de alguém.
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vente

vento
que contraventa
venta

vente

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escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar

fui até onde minhas pernas puderam me levar

fiz o que queria fazer
vivi sem medo de morrer
morri sem medo de viver

só me faltou voar

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a vida passa
tudo passa
menos o valão

o valão continua lá

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lule

lula
que contralula
lula

lule

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parafraseando john keats

«aqui jaz alguém cujo nome foi escrito entre o céu e o valão»

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para luiz inácio lula da silva
(parafraseando vandré)

entre o céu e o valão
(entre lula e flávio)
na terra como no céu
(no valão como no mar)

não viemos por teu pranto
nem viemos pra chorar
viemos ao teu encontro
e estamos no teu altar
por seguir nosso caminho
que é também teu caminhar
na força do teu carinho
esperamos nos salvar
na terra como no céu
no valão como no mar

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«eu choro de cara suja
meu papagaio o vento carregou
e lá se foi pra nunca mais
linha nova que pai comprou

dança maria, maria
lança seu corpo jovem pelo ar
ela já vem, ela virá
solidária nos ajudar»

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(paráfrase segunda)

veja
não diga que a eleição está perdida
tenha fé em lula, tenha fé na vida
tente outra vez

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a casa estava escura
o vento forte, a chuva desabou
a luz não vem, eu aqui estou
a rezar na escuridão e só

venho do vento da noite
na luz do novo dia cantarei
brilha o sol, brilha o luar
brilha a vida de quem dançar

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(a página do relâmpado elétrico, 1977)

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#lulaurgente
#bolsonaronuncamais

quarta-feira, 7 de outubro de 2026


e se os idiotas formos nós

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«o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade»

umberto eco

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«a educação não transforma o mundo. a educação muda as pessoas. as pessoas transformam o mundo.»

paulo freire

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segundo márcia tiburi, há três tipos de idiotas

1 – ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. repete clichês introduzidos no cotidiano. sua formação é «midiatizada». mas como o ignorante não sabe disso, ele se orgulha de ser o que é.

2 – «burro mesmo»: não há muito o que dizer. mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. por exemplo: o «burro mesmo» faz uma manifestação «democrática» para defender a volta da ditadura.

3 – paranóico: o paranóico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. o idiota paranóico cria monstros que ele acredita combater a partir de suas certezas. o comunismo, o feminismo, os indígenas, os pobres, os negros, os homossexuais ...

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o vento leste do carcará

por ancelmo gois
o compositor pernambucano luís vieira conta que seu parceiro, o maranhense joão do vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de «carcará» achou que devia usar palavras difíceis nas letras. vieira discordou: «só escreva sobre o que você conhece!», ralhou.
até que joão surgiu com a letra da obra prima «na asa do vento»: «deu meia noite/a lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste». vieira quis saber onde joão tinha encontrado aquele «vento leste». e o parceiro: «de noite, liguei o rádio na "hora do brasil" e ouvi: "aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste"».

a história está em «mpbambas», de tarik de souza, e parece dar razão a um mestre da minha terra: «eu prefiro quem diz "nós vai" e vai, do que quem fala "nós vamos" e não vai».

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a lua é clara, o sol tem rastro vermelho
é o lago um grande espelho onde os dois vão se mirar.

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(joão do vale, 1981)

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«meia noite é a hora mais escura. precisamente nesta hora a lua apresenta sua luminosidade. do confronto com a obscuridade interior, o inconsciente, surge a luz.

outro ponto interessante é o jogo de opostos. a escuridão da meia noite, o claro da lua. o jogo de opostos se faz presente durante toda a letra da canção.

a aranha tece puxando o fio da teia
a ciência da abeia, da aranha e a minha
muita gente desconhece

abelhas, aranhas, flor, sol, lua, vento, ar, cheiro se apresentam enquanto símbolos. eis a ciência do compositor que, valendo-se de imagens de coisas simples da natureza extrai novos e profundos significados. seu trabalho é brincar com as palavras e seus infinitos sentidos. tal habilidade poética também é o que se espera do analista. se não for poeta, que ao menos tenha seu olhar e sua escuta abertas ao simbólico.»

ijrs | instituto junguiano do rio grande do sul

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os menores carregam o mundo
são os menores que o suportam
com seus caminhos parcos
e seus olhos

como algumas flores breves
como as que não duram mais que um dia
e nesse tempo urgentemente sonham 

assim os menores sonham no mundo
e avançam com um lírio amarelo no pensamento
e se erguem contra a noite longa
dentro de sua vida que é um sopro

quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
 porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

👇

(mar becker,  de outubro de 2026)
por antónio josé cravo

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(brecht revisitado)

os filhotes do fascismo sempre querem cruzar de novo com a cadela

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(marx revisitado)

a primeira vez como tragédia, a segunda vez como tragédia maior

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na foto do futuro do brasil 
aqueles que não tinham para pagar o fotógrafo
não eram fotografados 
♦
todos os poemas são de mar becker 

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¡qué pena si este camino fuera de muchísimas leguas
y siempre se repitieran
los mismos pueblos, las mismas ventas
los mismos rebaños, las mismas recuas!
(que pena se esse caminho tivesse muitas léguas
e se repetissem sempre
as mesmas vilas, as mesmas vendas,
os mesmos rebanhos, as mesmas caravanas!)

¡qué pena si esta vida tuviera
esta vida nuestra
mil años de existencia!
¿quién la haría hasta el fin llevadera?
¿quién la soportaría toda sin protesta?
¿quién lee diez siglos en la historia y no la cierra
al ver las mismas cosas siempre con distinta fecha?
los mismos hombres, las mismas guerras
los mismos tiranos, las mismas cadenas
los mismos farsantes
¡y los mismos, los mismos poetas!
(que pena se esta vida tivesse
esta nossa vida
mil anos de existência!
quem a tornaria suportável até o fim?
quem a suportaria por inteiro sem reclamar?
quem lê dez séculos de história e não a cierra
ao ver sempre as mesmas coisas com datas diferentes?
os mesmos homens, as mesmas guerras,
os mesmos tiranos, as mesmas correntes,
os mesmos impostores
e os mesmos, os mesmos poetas!)

¡qué pena, que sea así todo siempre
siempre de la misma manera!
¡qué pena!
¡qué pena!
¡qué pena!
que pena que seja sempre assim,
sempre da mesma maneira!
que pena!
que pena!
que pena!

👇

(los olimareños, 1972)
poema: león felipe

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tenho pena

por nelson barros

a mulher que apoia o inominável, é a mulher que foi ensinada a não gostar de mulher. ela foi ensinada a entender que mulheres são rivais históricas. ela foi treinada nas sociedades patriarcais, a entender que mulheres estão no mundo para disputar um homem pra chamar de seu. ela aprendeu a olhar para as outras mulheres como inferiores, como se ela não fizesse parte desse universo. ela acha que será a escolhida para ser bem tratada por aquele que tratou mal todas as outras. ela quer punir a mulher que, no fundo, odeia ser.

o gay que apoia o inominável é a mesma coisa. ele aprendeu a não gostar de gay. ele acha que é melhor que os outros gays por que não parece ser gay. ele considera isso um elogio. ele critica «as afeminadas». ele acha que será escolhido para ser bem tratado por quem trata mal todos os outros gays. ele quer punir o gay que ele, no seu íntimo, odeia ser.

o negro que apoia o inominável aprendeu que «black is not beautiful», como dona maria, uma negra que não quis se casar, para não ter que casar com um negro. ela achava bacana quando alguém dizia que ela era uma negra de modos finos, como as brancas, e colecionava perucas. ela acha que será tratada de modo diferenciado, por quem nunca a tratou bem, não por ela ser do jeito que era, mas pelo jeito que ela imaginava que era vista: «uma negra de alma branca».

o trabalhador que apoia o inominável tem um delírio. ele vai apoiar alguém que não tem nenhuma noção do que seja trabalhar.

tenho pena de todos.
e de você e de mim.

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que pena

por enilton grill

eu também. assim como nelson barros tenho pena. ao contrário de muitos de nós, eu não acho que os eleitores da extrema-direita terão, caso flávio bolsonaro seja eleito presidente desse país, o governo que merecem. eles não merecem. ninguém merece.

eles continuarão sendo vítimas de um sistema que ensinou, convenientemente, que ser mulher, ser gay, ser negro, ser pobre são moedas de menos valia.

só há uma forma de mudar isso: educação, educação e educação.

mas que educação? a educação que abre universidades, mas entrega diplomas que funcionam apenas como uma ilusão de ascensão social? não.

uma educação que foca no pragmatismo, em vez de ensinar a ler e transformar a realidade? não.

uma estrutura que trocou a formação da consciência política e a organização comunitária de base por comemorações estatísticas? não.

uma lógica que substitui o debate crítico e a filosofia por cursos rápidos voltados apenas para metas do mercado? não.

uma estrutura que financia a expansão do ensino privado com dinheiro público que deveria ir para os cieps e escolas de base? não.

um método que prepara o jovem para ser o trabalhador precarizado de aplicativo, em vez de ensiná-lo a combater a precarização? não.

precisamos da educação que liberta, não da que apenas qualifica para a exploração.

enquanto o pragmatismo institucional se contentar em governar para os índices e para os mercados, continuará pavimentando a estrada por onde passa a barbárie. se queremos um futuro diferente, precisamos de uma pedagogia que ensine a questionar o poder, e não apenas a obedecer a ele. só a consciência de classe e de direitos pode quebrar o feitiço que faz com que as vítimas escolham os seus próprios algozes.
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«enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!»
belchior

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joão, o menino cantador
era uma vez um menino, um rio, um colégio, um campinho de terra e uma cidadezinha desse tamainho.
lá havia uma pedra grande, do tamanho de um prédio de seis andares, e por isso a cidade foi chamada de pedreiras.
um dia, o menino deixou de ir para a escola e passou a só vender os doces da mãe, a brincar no rio e a jogar bola.
ah, mas de cantar ele não cansava.
andréa oliveira

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seu moço quer saber, eu vou contar num baião
minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

eu vendia pirulito, arroz doce e mungunzá
enquanto eu ia vender doce, meus "colega" iam estudar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

e quando era de noitinha, a meninada ia brincar
vixe, como eu tinha inveja, de ver o zezinho contar:
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

hoje todo são «doutô», eu continuo joão ninguém
mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem

mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz

mas o negócio não é bem eu, é mané, pedro e romão,
que também foram meus colegas, e continuam no sertão
não puderam estudar, e nem sabem fazer baião

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(o poeta do povo, 1965)

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#lula2026

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

ogodô ano 2000

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grandes horizontes
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
rubem alves

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eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula

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1992

o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
até crescer
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro

grill

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eram só três caravelas e valeram mais que um mar quanto aos índios que mataram ah! ninguém pôde contar quando esses homens fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com seus andes, seu condor?

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(belchior, 1993)

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«no crezca mi niño, no crezca jamás
los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»

facundo cabral

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anos 90

por eduardo galeano
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.

♦

e então? vencemos o crime?
já ninguém mais nos oprime
pastores, pais, lei e algoz?
que bom voltar pra família!
viver a vidinha à pilha!
yuppies sabor baunilha
era uma vez todos nós! 

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(elogio da loucura, 1988)

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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.

♦ 

nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
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ôôô ogodô ogodô ogodô, ogodô ogodô ôôô ogodô ogodô ogodô ogodô ogodô ttalac-tac-tac-tac tamborim teleco-teco-teco-teco violão toloc-toc-toc-toc agogô tô-lôc-tô twenty 00, twenty 00 a ciência excitada fará o sinal da cruz e acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica. the science in her trance will make the sign of cross and we will light bonfires to appreciate the eletric bulb. talac-tac… ogodô…

👇

(the hips of tradition, 1992)

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o pirulito da ciência

por enilton grill
a  «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.

a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.

é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.

diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:

«a ciência está errada e o agro está certo?»
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falando em tom zé

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✍️ texto de guto ruocco

(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

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quando um trabalhador cresce na sociedade
e tem oportunidade de ser protagonista da história
ele pratica o método do opressor
porque foi o único método que aprendeu
então ele só sabe agir como o opressor

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(vira lata na via láctea, 2014)

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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.

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 eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

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(com defeito de fabricação, 1998)

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#lula2026

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


como nossos pais

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os filhos
pena
herdaram dos pais
o extintor de incêndio
e o medo do poema

grill

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«os jovens de todas as épocas e de todos os países sempre se entusiasmaram com as grandes idéias de transformação, eram revolucionários, mas se mantinham dentro do famoso esquema "todos nascemos incendiários e morremos bombeiros".»
umberto eco

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ocaso

o caso
se o caso é chorar
choremos com tom zé
(no jardim da política)

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rádio brasil de fato
1 de setembro de 2018
brasil de fato: como surgiu a ideia de fazer o álbum «no jardim da política», em 1984?

tom zé: foi um momento em que os militares tinham compreendido que era necessário sair do poder, porque o exército sempre teve um cuidado com a sua decência moral. eles perceberam que a corrupção estava em toda parte, roendo as expectativas e o próprio exército. «no jardim da política» surge nesse período. a música «classe operária» é um banho, um «reductio ad absurdum» (do latim, redução ao absurdo). vou dizer algo tão absurdo que você vai perceber que estou falando ao contrário. «sobe no palco o cantor engajado tom zé, que vai falar dos operários, tratar dos operários, mas não há nenhum operário no palco. mas tom zé e seus amigos sabem o que é bom para os operários». qualquer pessoa de raciocínio médio vai dizer «como esse cara é louco, como a gente é metido besta, pensando que vai resolver o problema dos operários sem consultá-lo». pois teve amigo meu engajado politicamente que virou a cara pra mim. e no jardim da política tem «marcha partido», «dólar» e «vá tomar»: «meta sua grandeza no banco da esquina/ vá tomar no verbo seu filho da letra/ meta sua moral, regras e regulamentos, escritórios e gravatas, sua sessão solene/ pegue junte tudo, passe vaselina, enfie só que meta, no tanque de gasolina». isso é fazer política ou não é? era o que nós podíamos falar porque a censura havia afrouxado um pouco.

brasil de fato: ainda que sem intencionalidade, esse álbum reflete o posicionamento esperado pelo público de um artista sobre determinado momento político?

tom zé: eu fiz várias canções sobre o cenário que se tinha durante a ditadura. tem aquela que diz assim: «todo compositor brasileiro é um complexado, porque então essa mania de falar tão sério, de sorrir tão sério, de trepar tão sério! ah, meu deus, vá ser sério assim no inferno». essa música está no álbum «todos os olhos», de 1973. me inspirei no general ernesto geisel e na fala dele sobre termos uma «democracia relativa», além de falar sobre a liberdade que buscávamos. «a liberdade é uma graça, todo dia se decifra, todo dia se disfarça…» era uma informação comprimida, uma bomba comprimida.

brasil de fato: sobre a atualidade, como você tem visto o cenário político do brasil?

tom zé: o brasil é comandado por grupos que têm interesses particulares. é por isso que não se pode eleger ninguém que está na câmara dos deputados ou no senado. temos que eleger outras pessoas e tentar algo diferente. nós estamos com o país atravancado por interesses pessoais, então é preciso eleger um governo completamente novo. temos um presidente da república que, para se manter no poder, distribuiu uma fortuna a deputados para não ser processado. hoje estou com 81 anos, mas um dia tive 17, e tive que procurar esperança na música, no livro, na escola. os meninos de hoje podem procurar esperança em algum lugar?
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e diante desta contradição ideológica
te ofereço a rosa comemorativa
desta tua democracia relativa.

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se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
tom zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.

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(tom zé, 1984)

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«música de protesto é um método jesuítico, como o que (o educador) paulo freire chama de "hospedar o opressor". eu faço "classe operária" como se fosse o opressor hospedado no cantor»
tom zé

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falando em paulo freire

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✍️ texto de guto ruocco
(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.
#reposttomzé
#repostgutoruocco

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de volta ao ocaso

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se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

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tom zé, 1972

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#alutacontinua
#nãopassarão
#venceremos

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#lula2026

domingo, 4 de outubro de 2026


semiótica

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«seja eu amanhã. porque eu já fui você ontem. eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula, flow podcast, quinta-feira, 1º de outubro de 2026

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já chorei sentido
de desilusão
hoje estou crescido
já não choro não

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(chico buarque do brasil, 1971)

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meu refrão
foi ouvindo chico buarque que aprendi «gente humilde» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser cidadão foi ouvindo chico buarque que aprendi o «meu refrão» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser sem patrão
grill

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o refrão que eu faço
é pra você saber
que eu não vou dar braço
pra ninguém torcer
deixa de feitiço
que eu não mudo não
pois eu sou sem compromisso
sem relógio e sem patrão

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(chico, 1965)

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#lula2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026


domingo no parque

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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lula ontem no flow sobre a juventude:
«eu tenho 5 filhos. eu sei que a juventude é muito rebelde. tem o cara com 16 anos, 17 anos... não acredita em nada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão, ninguém presta. é por isso que o bolsonaro cresceu. porque a ignorância leva a gente à fazer coisas erradas. o país não tem saída se a gente não investir em educação, e não tem saída se você não acreditar nisso. eu já fui você ontem, eu já fui rebelde.» 
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clique no link abaixo
para ver e ouvir trecho na íntegra

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(pt do piauí 13)

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segundo entendi
para lula
que tem cinco filhos
que diz já ter sido rebelde
que traz como exemplo de rebelde
jovens que não acreditam em nada
que xingam todo mundo
que chamam todo mundo de ladrão
ser rebelde é ser ignorante

pra mim
tá tudo explicado
não precisava dizer mais nada

mas vou dizer
como um rebelde que sempre gostou de ler, estudar, debater e conversar sobre política, o atual momento me deixa particularmente mais rebelde. não há nada nem ninguém que se salve. é só estupidez como arma e ignorância como orgulho. eu continuo na luta, esperneando não sei por quê. o rebelde que lula diz ter sido devo ser eu.
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sobre a ignorância
a ignorância se refere à falta de conhecimento. a palavra ignorante descreve o estado de consciência de quem desconhece fatos importantes — ou de quem, deliberadamente, os ignora ou desconsidera.

a ignorância manifesta-se em três tipos: factual (ausência de conhecimento de algum fato), objetual (desconhecimento de algum objeto) e técnica (ausência do conhecimento de como fazer alguma coisa).

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três exemplos 

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golpe
no 8 de janeiro, diante do caos em brasília, lula esteve prestes a aceitar a sugestão de decretar a garantia da lei e da ordem (glo), cedendo a uma medida que entregaria a segurança federal ao comando militar — exatamente o objetivo dos golpistas.

o erro só foi evitado pela intervenção direta e enfática da primeira-dama, janja. com preparatório técnico na escola superior de guerra e participação nas equipes de transição, ela alertou imediatamente: «glo não, glo é golpe». a análise fundamentada de janja sobre segurança nacional foi decisiva para que lula recuasse, rejeitasse a tutela militar e optasse pela intervenção civil no distrito federal.
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bets
no flow podcast, igor perguntou por que lula tomou a decisão de restringir as bets faltando poucos dias para as eleições. lula respondeu que não tinha noção da gravidade do problema e que, ao conversar com as pessoas, percebeu que era urgente agir.
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feminicídio
no mesmo podcast, lula agradeceu publicamente à primeira-dama por alertá-lo com insistência sobre a gravidade da violência contra a mulher no país. ele afirmou que, se não fosse pelo aviso dela, poderia ter se limitado a emitir apenas uma nota de solidariedade institucional em vez de articular ações governamentais concretas.
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antes do fim eu queria deixar um recado para o presidente lula

meu caro presidente lula

apesar dos pesares eu espero que a maioria do povo brasileiro faça como eu e vote em você

porque ao contrário de você eu continuo rebelde

um rebelde que não precisa que ninguém lhe diga que ninguém lhe lembre que ninguém lhe alerte de que o que está em jogo nestas eleições é o pouco que ainda nos resta de democracia e soberania

e de que mesmo que você ganhe — tomara que ganhe — se depender de você do congresso e do povo brasileiro (que você, em anos de governo, só fez despolitizar) não sei quanto tempo essa democracia ainda vai durar

e para ela durar não esqueçamos de votar

ponto
nova linha

tava assistindo ontem o flow
quando no final
lula faz essa declaração
«o político honesto que você quer, está dentro de você, cara. ao invés de você ficar protestando, entra na política. seja candidato a alguma coisa. participe de um partido político. participe da comunidade do seu bairro. não fique paralisado, não fique achando que ninguém presta. SEJA EU AMANHÃ. PORQUE EU JÁ FUI VOCÊ ONTEM.»

nesse momento
não pude não lembrar de deogar
«o velho» era um homem honesto
dos mais honestos que conheci
era um homem de partido
seu partido era o pt
«o velho» era um animal político
se candidatou a vereador
se elegeu
foi um excelente vereador
mas
por alguma razão
disse não à reeleição

segundo li por aí
o jornalista e radialista deogar soares decidiu não concorrer à reeleição para o cargo de vereador em pelotas (pleito de 2000, após o mandato conquistado em 1996) devido a uma profunda desilusão com o ambiente político. 
deogar, conhecido por sua atuação marcante na comunicação local e em programas tradicionais como o treze horas, entrou para a política institucional com um forte idealismo romântico e transformador. no entanto, conforme recordam amigos próximos e cronistas da política pelotense, ele se deparou com as barreiras e a rigidez do sistema político tradicional. 
essa experiência gerou o que seus pares descreveram como uma frustração, o que o levou a cumprir apenas um único mandato e a se afastar voluntariamente das urnas para retornar integralmente à crônica e ao jornalismo.
«o velho»
pra mim
era um mestre
«uma grande figura humana que foi também um dos maiores e melhores comunicadores que pelotas gerou. além de jornalista e radialista, deogar foi também um talentoso fotógrafo. as fotos, em preto e branco, traduziam seu mundo, de poética e rara inspiração. "o velho" – como era chamado entre amigos marcou com o seu programa na rádio alfa-fm "vôo livre". em pequenas crônicas, lidas por ele mesmo, cuja voz era sonora e bem timbrada, deogar a todos emocionava com sua verdade, ironia e transcendência. seus textos eram carnações nervosas e poéticas, traduzindo o seu e o nosso cotidiano. no fim da vida, o velho tinha no olhar emanações tristes, talvez por ter tido o impulso de mudar coisas que são imutáveis, e ele soube disso tardiamente.»
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domingo no parque

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5055 deputado federal: jurandir silva
50999 deputada estadual: fernanda miranda
500 senadora: manuela d'ávila
131 senador: paulo pimenta
12: governadora: juliana brizola
13 presidente: lula

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foto 1: deogar
nauro júnior

foto 2: enilton
vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas