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sexta-feira, 28 de agosto de 2026


words

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«o amor às palavras está completamente cravado no meu peito. é irreversível e sem ele não viveria. mas sou um disperso. meus olhos procuram milhares de fragmentos, alguns deles mundanos, banais, descartáveis. de tudo procuro tirar elementos... para a minha felicidade estética e emocional. às vezes descubro nesse mundaréu certos alguéns, livros, canções, poemas ou situações que acabam me somando importâncias e me ajudam a descobrir emoções, olhos e palavras.»

celso borges (cb)

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vim pelo caminho difícil
a linha que nunca termina
a linha bate na pedra
a palavra quebra uma esquina

mínima linha vazia
a linha, uma vida inteira
palavra, palavra minha
palavra, palavra minha


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ao vento

por enilton grill

é conhecido o diálogo entre charles chaplin e albert einstein no primeiro encontro dos dois. o gênio da física diz ao gênio do cinema mudo: «o que mais admiro na sua arte é a universalidade. você não diz uma palavra e, ainda assim, todo o mundo o entende». a resposta: «é verdade. mas sua fama é ainda maior: o mundo admira você sem entender uma palavra do que você fala».

noutras palavras: vivemos uma vida de dores caladas, de dores não faladas, de dores escondidas. quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?

hamlet é o personagem que mais fala na peça de shakespeare; recita 1.507 linhas. suas últimas palavras são: «o resto é silêncio».

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el silencio no es una palabra
escrita sobre una pared
es una canción solitaria por el viento
que no se detiene en el medio de un infierno

es una canción solitaria por el viento
que no se detiene
en el medio de un infierno

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[do álbum: el fantasma de canterville]

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calesita: carrossel
sortija: jogo que consiste em adivinhar a quem foi dado o anel que um dos participantes leva entre as mãos.
hamaca: rede
bostejo: bocejo.

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ao vento

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

grill

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esse teto frágil sustentando a lua
esse livro aberto como uma saída
o tapete e seu plano de vôo
o lençol revolto antecipando o gozo
essa velha casa de coral
essa concha muda que o meu sonho habita
a paixão invicta que não vai passar
se você vier

esse rádio doido de olhos valvulados
esse livro aberto como uma sangria
esse poema novo sem papel
o papel que cabe aos meus sapatos rotos
o meu rosto que o espelho não vê
a janela imóvel em seu desatino
esse meu destino que não vai passar
se você vier
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do álbum: foi no mês que vem
marcos suzano & orquestra de câmara do theatro são pedro

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oh mercy

por bob dylan

era 1987, e minha mão, que tinha sofrido um ferimento medonho em um acidente maluco, estava em recuperação. ela fora rasgada e estraçalhada até os ossos e ainda se encontrava no estágio agudo --- eu nem a sentia como se fosse minha. não sabia o que havia acontecido comigo, e era uma guinada bizarra na sorte. todas as potencialidades tinham se despedaçado. com uma centena de shows marcados para mim a partir da primavera, não era certo que eu fosse capaz de me apresentar. foi uma experiência grave. anda estávamos em janeiro, mas minha mão precisaria de um bocado de tempo para se curar e se reabilitar. olhando através da janela para um jardim crescido demais, com uma tala que ia da mão quase até o cotovelo, percebi que meus dias como instrumentista poderiam ter acabado. em certo sentido, teria sido adequado, pois até então eu estivera folgando comigo mesmo, explorando o que quer que eu possuísse de talento além do ponto de ruptura. eu já sabia disso há um tempo. recentemente, porém, o cenário havia mudado, e agora as implicações históricas da situação me preocupavam.

o público fora alimentado com uma dieta constante de minhas gravações em disco durante anos, mas minhas apresentações ao vivo jamais pareceram capturar o espírito interno das canções --- haviam fracassado na hora de turbiná-las. a intimidade, entre muitas outras coisas, tinha ido embora. havia muitos motivos para isso, motivos para o caldo ter entornado. sempre prolífica, mas nunca exata, minha trilha musical transformara-se em uma selva de trepadeiras por causa do excesso de distrações. eu estivera seguindo meus próprios instintos, e eles não estavam mais funcionando. as janelas haviam ficado tampadas durante anos e recobertas por teias de aranha, e não que não soubesse.

eu estivera numa turnê de dezoito meses com tom petty e os heartbreakers. seria a minha última. eu não estava conectado a nenhum tipo de inspiração. para começar, o que quer que tenha estado ali antes havia sumido e encolhido por completo. tom estava no topo do lance dele, e eu no fundo do meu. eu não conseguia superar as adversidades. estava tudo despedaçado. minhas próprias canções haviam se tornado estranhas para mim, eu já não tinha habilidade para tocar seus nervos expostos, não conseguia penetrar além das superfícies. não era mais o meu momento na história. o que eu cantava tinha se tornado vazio e sem coração, e eu não aguentava mais esperar para desmontar o acampamento e me recolher. eu era o que chamavam de maduro demais. se não tomasse cuidado, acabaria esbravejando aos berros com as paredes. o espelho havia girado ao contrário, e eu podia ver o futuro -- um velho ator furungando em latas de lixo do lado de fora do teatro de seus triunfos do passado.

eu tinha escrito e gravado muitas canções, mas não tocava muitas delas. acho que só estava habilitado em relação a umas vinte. as restantes eram críticas demais, tinham um ar sombrio demais, e eu não era mais capaz de fazer nada de radicalmente criativo com elas. era como carregar uma carga de carne putrefata. não podia entender de onde elas tinham vindo. a luminosidade se fora, e o fósforo havia queimado até o fim. eu ia fingindo. tentava de tudo, mas o motor não dava partida.

benmont tench, um dos músicos da banda de petty, sempre me sondava, quase em tom de súplica, sobre a inclusão de números diferentes no show. «chimes of freedom» --- podemos tentar essa? e que tal «my back pages»? ou «spanish harlem incident»? e eu sempre dava uma desculpa esfarrapada. na verdade, não sei quem dava a desculpa, pois eu havia fechado a porta para o meu próprio eu. o problema era que, depois de contar por tanto tempo com o instinto e a intuição, eles haviam se transformado em abutres e estavam me sugando até a última gota. até mesmo a espontaneidade havia se tornado uma cabra cega. meu monte de feno não estava amarrado, e eu comecei a temer o vento.

bob dylan | crônicas: volume um, p. 161 a 166.

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mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

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knockin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

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ao vento

um dia olhei pro céu
e vi montevidéu
hoje eu até tento
mas nem inventar mais eu invento

grill

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vento
que joga na mala
os móveis da sala
e a sala também

leva
um beijo bandido
um verso perdido
um sonho refém

que eu não possa ler, nem desejar
que eu não possa imaginar

oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

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do álbum: satolep sambatown
[clipe oficial]

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de volta ao começo
no princípio era a «palavra»

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«“words” é a primeira música que revela um pouco dos meus dilemas existenciais. eu era jovem quando percebi os jogos mentais que os outros tentavam fazer comigo. havia tantas pessoas por perto o tempo todo, falando e falando, sentadas em um círculo fumando cigarros na minha sala de estar. nunca tinha sido assim antes. sou uma pessoa muito só e reservada. a paz estava indo embora. estava mudando muito rápido. eu me lembro de ter pulado pela janela da sala de estar para o gramado para sair de lá - eu não podia esperar o suficiente para abrir a porta!»

neil young

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fulano e sicrano estavam perto do lago
procurando algo para plantar no gramado
lá fora, nos campos, eles estavam virando a terra
estou sentado aqui esperando que a água ferva
quando olho para a estrada através da janela
estão me trazendo presentes e me cumprimentando

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

se eu fosse um ferro velho vendendo carros
lavando suas janelas e brilhando suas estrelas
pensando que sua mente era a minha em um sonho
o que você se perguntaria e como isso pareceria?
vivendo em castelos um pouco de cada vez
o rei começou a rir e a falar em rima

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

[clipe / masterpiece]

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e benjamín, o pastor?

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jamás has notado
que liviano caen los sueños
de los pájaros
en silencio

jamás has notado
que tenerle miedo a la gente
es irse de cabeza
hacia el centro de la tierra

benjamín era casi un pastor
pero le faltaba saber
que por el mundo había
muchas ovejas muertas

jamás has notado
que los árboles sencillos
pueden crecer y levantarse
en cualquier sitio

jamás has notado
que pocas palabras quedan
en la cabeza
de los poetas

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do álbum: el fantasma de canterville

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#choveemsatolep
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas