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terça-feira, 11 de agosto de 2026


traumas

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janela da alma

janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.

entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).

curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.

e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.

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josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]

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traumas

traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.

através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».

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meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade


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a verdade dividida

a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

carlos drummond de andrade

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ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão

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as cartas | chico buarque (1984)

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além do horizonte

por oliver harden

«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.

quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»

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além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

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por jota quest
(vídeo oficial)

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de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:

«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».

doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.

doía?
doía.
e tu fazia o quê?
eu levantava e continuava... vou fazer o quê?

na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.

lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:

— professor, eu não perguntei nada.

entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... fazer o quê?

no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.

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dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas

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«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»

martim césar

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«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»

marcos magah

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«claras palavras não cabem às claras.»

nelson coelho de castro

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– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.

rafael corrêa

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«o silêncio é tudo
o resto é uma parte»

autor desconhecido

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repecho, 2019
[escrito no face]

domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.

antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:

— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...

lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.

ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.

portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.

já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.

fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.

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há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou

há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou

eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender

eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval


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trocando em miúdos

não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.

quantos talentos a humanidade já perdeu?

quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?

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e a canção do silêncio?

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o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno


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foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas

domingo, 9 de agosto de 2026

 

aos que virão depois de nós

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«tenho uma teoria: quanto mais próximo da morte, mais vivo você se sente, mais vivo você é»

james hunt

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coração tranquilo

há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.

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hoje é dia dos pais
mas não é por isso
que lembrei do meu

ah, pai
como e quanto te devo
por teus hábitos de dormir tarde e acordar cedo
por tuas histórias de homens apaixonados e sem medo

uma vez
aqui em satolep
meu pai, ailton e eu
saímos do bar da luz (foto)
e fomos ver um jogo do xavante
grêmio esportivo brasil
brasil de pelotas
em são borja
meu pai tinha um chevrolet opala
eu tinha uns 17 anos
ainda não tinha carteira de motorista
meu pai foi dirigindo
o ponteiro não baixava de 150
lembrei do rei
«eu vou, vou voando pela vida
sem querer chegar»
chegamos cedo
procuramos um bar
tínhamos que fazer tempo
até a hora do jogo
quando nos levantamos
pra ir pro estádio
a partida já havia começado
não me lembro se o xavante ganhou ou perdeu
só me lembro de meu pai me perguntar
se eu me animava a voltar dirigindo
viajamos a noite inteira
não vou mentir que foi a minha primeira vez na estrada
pois não foi
a primeira foi com 15
pelotas - santa vitória
santa vitória - pelotas
os tempos eram outros
eu sei
hoje é tudo muito chato
todo mundo é juiz de todo mundo
ninguém se atreve a marchar fora do compasso
marcha soldado
cabeça de papel
quem não marchar direito
vai preso pro quartel
é isso
ninguém arrisca nada
estamos de joelhos
rezamos pelas cartilhas
do grande capital
e do politicamente correto
não me admira
portanto
que estejamos onde estamos
isto é
dentro das nossas casas
de onde só saímos
pra passear na praça
enquanto seu lobo não vem
e ainda assim
cheio de recomendações
não faça isso não faça aquilo
por mim tudo bem
afinal
meu quarto de hora já passou
já tive meus 15 minutos de fama
e estou ótimo assim
lembro porém de brecht
e fico pensando em como será o amanhã
pensando bem
basta olhar para a juventude de hoje
para saber o que será
há exceção?
sim
sempre houve e sempre haverá
«um brinde aos loucos. aos desajustados. aos rebeldes. aos criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que veem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.»
pensando melhor
não tenho nada com isso
não sou pai
sou filho
vivo em paz e durmo tranquilo
llevo un cartel en la frente:
¡no me vendo, ni me alquilo¡

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o rei morreu! viva o rei!

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eu vou voando pela vida sem querer chegar
nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
vivo, fugindo, sem destino algum
sigo caminhos que me levam a lugar nenhum

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[áudio oficial de de roberto carlos.]

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lembrei do rei porque, cinco anos atrás, no almoço de 27 anos do matheus, irmão da vivi, meu eterno «cunhado», comentei sobre um documentário que tinha acabado de assistir sobre schumacher. a conversa foi passando por senna, piquet, lauda, barrichello, até chegar em james hunt — meu ídolo máximo na fórmula 1. campeão mundial de 1976, o britânico morreu jovem, aos 45 anos, vítima de um infarto fulminante. um desfecho quase inevitável para quem viveu uma vida acelerada e cheia de excessos, mas em que nunca faltaram nem coragem nem talento.

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vida que segue

em 1976, james hunt venceu dez corridas e levou a melhor num épico duelo com o austríaco niki lauda. a rivalidade entre os dois pilotos, de personalidades tão diferentes, foi marcante a ponto de virar filme de hollywood.

assista ao trailer de «rush, no limite da emoção»

👇


[o doc é situado na era dourada da fórmula 1, e conta a emocionante história de dois dos maiores rivais que o mundo já viu — james hunt e niki lauda. acompanhando a vida deles dentro e fora das pistas, rush observa os dois pilotos enquanto eles se esforçam para atingir a máxima resistência física e psicológica, onde não há atalho para a vitória, nem margem para erros. se cometer um erro, você morre.]

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trocando em miúdos

james hunt, assim como vinicius de moraes e outros mais, não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. aliás, vinicius, hunt, guevara, lamarca, sepé, zumbi ... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai...

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falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100

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busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

[com fotos e letra]

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antes do fim

trabalhei dez anos como instrutor de direção defensiva num cfc que tem como nome senna. há quem diga que desempenhei bem o papel. não duvido. herdei de meu pai, além do nome, o gosto pelo perigo. ando por um fio. o que me move é o desafio. faço o caminho ao contrário. se o vento sopra pra lá, eu ando para cá. se o vento sopra para o norte, eu caminho para o sul. ou seria o contrário? caminhar rumo ao sul é o meu norte.

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foto: eu com meu pai | são luís, 2008

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e a foto do bar? a foto do bar encontrei no perfil de diego gonçalves, filho do aílton, dono do bar. aílton é o de bigode que aparece abraçado a dois homens. nenhum deles é o meu pai. meu pai (grill) aparece na parede, na propaganda eleitoral, junto com meu avô (gastal).

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e o bar? o bar era frequentado por algumas lendas:

zé becker (fabricante dos «únicos» grandes times de botão de acrílico).
zé pereira (pianista da igreja da luz).
maneca da frigideira (da escola de samba general osorio, funcionário do clube brilhante).
sidnei birolho (da baixada do pepino, ponta-direita do xavante. fundador da escola de samba ramiro barcelos).
maico (também fundador da ramiro barcelos).
joãozinho do garbo magazine (fundador da bandalha).
jorginho (estofador, conhecido como «perninha» ou «roberto carlos»)

entre outras lendas,
das quais a principal para mim era o meu pai.

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e diego? diego gonçalves foi candidato a vereador pelo pt em 2024. trabalhou como secretário de governo e assuntos estratégicos na prefeitura de pelotas e, desde abril de 2026, é assessor de relações institucionais do gabinete do prefeito fernando marroni.

diego é alcoólatra. alcoólatra em recuperação. assim como eu. sim, o alcoolismo é uma doença incurável. o alcoólatra que diz ou pensa estar curado, ou quer enganar ou está enganado. em ambos os casos, é possível imaginar o resultado.

explico: não importa o tempo que você está limpo, seja por 1 dia, 1 ano, 10 anos ou 50 anos. o alcoólatra está sempre em recuperação. o alcoolismo é igual a uma vela: quando você para de beber, você apaga a vela. quando você volta a beber, a vela volta a acender no exato ponto em que apagou. ou seja, a vela nos diz quanto tempo nos resta. o que queimou tá queimado... não volta mais. não importa quanto tempo passou.

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falando em tempo...

o tempo passa, vai passar, já passou. os sonhos não envelhecem, nós é que envelhecemos. um outro mundo possível jamais se dará através de nós. never! pode esquecer: o nosso tempo já passou.

as águas estão subindo, estamos atolados da cabeça aos pés. ou nos refundamos ou afundamos. deu pra tudo que limita, que divide, que exclui, que julga, que pré-julga.

saudade de quando éramos potros chucros. hoje somos bois mansos. o tempo passa, vai passar, já passou. já passou da hora de passar o bastão. mas pra quem? pois então, essa é a questão.

«já não há loucos». «são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes».

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falando em rebelde
me lembrei de cb
lembrando de cb
me lembrei de guevara
lembrando de guevara
me lembrei de whitman

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«aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
– eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
a todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.»

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lembrando de whitman
me lembrei de darcy ribeiro

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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

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lembrando de darcy ribeiro
me lembrei de glauber rocha

👇

[trecho do doc "glauber, labirinto do brasil", de sílvio tendler. ao final, maria lucia godoy homenageia glauber cantando a bachiana nº 5 de villa lobos.]

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e por aí vai
mas por hoje deu
fico por aqui

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feliz dia dos pais

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carpe diem
bom domingo

terça-feira, 21 de julho de 2026

 


ao vento 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«à minha maneira, estou sempre compondo. emendo uma coisa na outra e acaba dando certo. eu pego uma canção e deixo ir rolando, devagarinho, ruminando, ruminando.»

dorival caymmi

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ruminando

com as palavras
sou como os ruminantes
rumino
rumino
e nunca termino
cadê a palavra que tava aqui
o vento levou
cadê o vento

grill

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vamos chamar o vento
vamos chamar o vento

vento que dá na vela
vela que leva o barco
barco que leva a gente


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vento que guarda a tarde
(uma tarde sem pressa)

2002.

eu trabalhava há cinco anos no cfc. ainda não estava no auge, mas já havia conquistado a confiança da direção. foi nessa condição que pedi liberação para passar dez dias na cidade maravilhosa.

mal sabia eu que estava a três anos do meu auge como instrutor de trânsito e a quatro da minha aula de despedida e queda na vida.

antes disso, em 1996, um ano antes do cfc abrir, eu havia varado a noite numa churrascaria de porto alegre convidado pela lendária mercedes sosa.

essa história, todavia, conto outro dia.

de volta a 2002.

no início daquele ano, pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com daniel viglietti para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro.

eu já sabia que daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem-terra.

o autor de a desalambrar só fez uma exigência: a de que eu fosse junto.

mesmo indo de ônibus, cheguei antes do uruguaio, que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com chico. chico buarque. daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse chico na itália. não faz mal...

não tinha chico, mas tinha dorival.

no dia seguinte, daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta de dorival. eu não a conhecia, e daniel queria conhecê-la. alguém teria que fazer as honras. foi o que fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me aproximei da neta de dorival, apontei para daniel e disse quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele, e o marido dela sabia mais sobre daniel do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos, daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com juliana, ela vinha com um cd de dorival autografado para daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio, em copacabana.

daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos. juliana ainda estava por perto quando daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse, com ela, um encontro dele com o avô dela. foi o que fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó, pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma, a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais, nem nada de mais; afinal, dorival convalescia. a outra condição não foi uma condição, foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando as fotos, eu não sou mais o que era e não há mais dorival. nem daniel. que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

ave, daniel! saravá, dorival!

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«eu guardo em mim
dois corações»


dorival caymmi

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«a verdade é o todo»

hegel

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«os amores que guardo são tantos, tantos, tantos, por eles eu canto.»

daniel viglietti

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o fim não tem fim
nem teve início o começo
eu vivo sempre a caminho
assim luto, desejo e penso
 
[do cd: trabajo de hormiga]

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foto: dorival caymmi e eu local: copacabana, rj (2002) autor: daniel viglietti

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foto: daniel viglietti e eu
local: pelotas, rs (2009)
autor: vilmar tavares

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#américas

sexta-feira, 10 de julho de 2026

 


memórias cantando

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«muitas vezes, as pessoas tentam explicar os outros a partir daquilo
que elas mesmas sentiriam.
mas nem sempre é assim.
algumas pessoas simplesmente são inquietas,
têm curiosidade sobre a vida, sobre os caminhos que as pessoas escolhem e sobre os padrões que se repetem ao longo do tempo.
talvez por isso eu sempre tenha me interessado mais pelo que está por trás das coisas do que pela superfície.
nunca me fascinou apenas o que aconteceu.
sempre me fascinou o porquê.
por que algumas pessoas mudam?
por que algumas permanecem as mesmas?
por que certos caminhos se cruzam?
por que certas histórias se repetem?
talvez eu nunca encontre todas as respostas.
mas continuo observando.
não para julgar.
não para competir.
mas porque a vida humana é um dos maiores mistérios que existem.
e cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro esperando para ser compreendido.»

scarlet seixas, filha de raul seixas.

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«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

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o dom

minha mãe tinha fé em mim. queria que eu tivesse aulas de canto, então começou a lavar a roupa das professoras da escola para pagar pelas lições. um dia inteiro de trabalho lhe rendia três dólares, o valor de uma aula. eu não queria nada disso. mas, quando apareci para a primeira aula, encontrei uma boa razão para voltar na segunda: a professora era muito bonita.

porém, ela não era para mim. na metade da terceira aula, depois de me acompanhar em algumas baladas irlandesas, ela fechou a tampa do piano.

«ok, é o suficiente», ela disse. «agora quero que você cante para mim, sem acompanhamento, o que gosta de cantar.» cantei uma canção de hank williams para ela --- acho que foi «long gone lonesome blues».

quando terminei, ela disse: «nunca mais faça aulas de canto. não deixe que eu ou qualquer outra pessoa mude a sua maneira de cantar». então me mandou para casa.

isso me faz lembrar do dia em que minha voz mudou e minha mãe ouviu meus novos tons graves pela primeira vez. eu estava cantando quando entrei pela porta dos fundos. ela se virou do fogão, surpresa, e perguntou: «quem foi que cantou isso?».

cantei um pouco mais, explorando o meu novo alcance vocal, e quando descobri quão longe minha voz podia ir, seus olhos se encheram de lágrimas e ela disse: «você canta igual ao meu pai». depois falou: «deus pôs sua mão sobre você, filho. nunca se esqueça do dom».

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 57.

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vela no breu
(escrito em 31 de março de 2021)

uma das situações mais difíceis que enfrentei, como instrutor teórico na auto-escola, foi quando tive que reverter uma voz de prisão dada por um juiz de direito em plena sala de aula.

esse curso era um curso misto (1ª habilitação e renovação de cnh). ou seja, estavam juntos, em sala de aula, candidatos a 1ª habilitação e condutores com a cnh por vencer ou já vencida.

na largada do curso, já levei uma chapuletada. antes de pedir para que cada aluno se apresentasse, que era o meu jeito de começar a aula, inventei de contar uma história. era uma história sobre uma situação de trânsito que eu tinha visto minutos atrás antes de chegar na auto-escola. enquanto contava a história, olhei para o aluno sentado na primeira fila, ele tinha a sua frente o código de trânsito e, enquanto eu contava a história, ele lia atentamente algo, que eu nunca soube o que era.

quando terminei de contar a história, fui direto nele.

— seu nome?

e ele:

— já se passaram mais de cinco minutos e a tua aula ainda não começou... meu nome é josé antônio dias da costa moraes.

bem, eu não sabia quem ele era e muito menos que era juiz... (segundo li agora há pouco o mais antigo juiz de direito do rs em atividade)

olhei para ele, e disse:

— sim, a aula já começou, o senhor é que não reparou.

depois que todos alunos se apresentaram, voltei à história que tinha contado e, a partir dela, desenvolvi minha aula aquela noite.

lá pelas tantas, explicando o significado das placas e a diferença entre parada e estacionamento, um magrão, lá no fundo da sala, (1ª habilitação), sai-se com essa:

— na frente do fórum, que era pra ser exemplo, pois tem um monte de juiz e advogado que trabalha lá, NINGUÉM respeita essas placas...

ato contínuo, dr. josé antônio dias da costa moraes se vira pro fundo da aula e exige que o rapaz retire o que disse:

— o senhor retire já o que disse, pois sou juiz de direito, nunca desrespeitei placa nenhuma... muito menos na frente do fórum.

o rapaz, atrevido e impetuoso, não se calou, e manteve o que havia dito. seguiu-se, então, uma discussão acalorada, até que... voz de prisão (por desacato a autoridade).

entrei em cena e dei o intervalo.

fui direto na direção e expliquei o que estava acontecendo...

e a cris:

— o pior tu não sabes, ele é sogro do meu filho...

perguntei se, por ventura, ela não queria interceder, pois a coisa tava muito complicada... já quase fugindo do meu controle.

ela disse:

— vai lá, te vira, dá o teu jeito... confio em ti...

15 minutos de intervalo (era pra ser 10) entro em sala de aula...

— quando me inscrevi, me disseram que eram 10 minutos de intervalo... já se passaram cinco minutos e a tua aula ainda não recomeçou...

dessas coisas que não tem explicação, fui levando a aula, levando, levando, até que me deu um estalo: disse pra mim mesmo, vou acender o cachimbo da paz entre esses dois (o juiz de direito e o magrão da 1ª habilitação)...

mas como?

enquanto eu desenvolvia o conteúdo, eu pensava em como criar uma situação para acabar com aquele mal-estar... mal-estar, diga-se de passagem, não só com o magrão da 1ª habilitação como comigo também.

comigo foi fácil. não lembro exatamente como foi que fiz, mas lembro que em questão de minutos eu arranquei duas ou três gargalhadas daquele sisudo e, aparentemente intransponível, juiz de direito.

restava agora criar o ambiente para o acordo de paz entre os dois desafetos. um deles, um rapaz de 18 anos de idade, atrevido e impetuoso, que não tinha títulos, nem diplomas, nem carteira de motorista, e o outro, um senhor de idade, juiz de direito, cheio de títulos e honrarias, que estava fazendo um curso de renovação da cnh, pois estava com a mesma por vencer.

mas como?

foi então que me deu mais um estalo: vou ensinar a regra do cruzamento sem sinalização. essa era uma regra de difícil explicação, contudo eu tinha criado um modo muito particular de ensiná-la, qual seja, depois de explicá-la eu perguntava para os alunos se todo mundo tinha entendido e como a maioria quase nunca entendia eu chamava dois alunos para a frente da sala de aula, desenhava no quadro um cruzamento sem sinalização e quatro carros, carro (a), carro (b), carro (c) e carro (d), cada carro, obviamente, numa esquina (vide foto), colocava os alunos na posição dos carros e perguntava para a turma qual dois dois estava à direita do outro. sim, a regra é esta: num cruzamento sem sinalização, a preferência é para os veículos que vierem à direita do condutor.

bem, deixa pra lá a regra, se quando eu era instrutor, e dava aula de manhã, de tarde e de noite, já era difícil de explicar, imagina agora...

voltando ao cachimbo da paz: eu decidi explicar a regra do cruzamento sem sinalização, chamando os dois desafetos para a frente da sala de aula, um deles, um juiz laureado e renomado e o outro, um rapaz de 18 anos, impetuoso e debochado.

na verdade, eu resolvi brincar com o fogo, pois tudo podia acontecer, inclusive eles não aceitarem meu convite e eu ficar com cara de tacho lá na frente. mas, modéstia a parte, em situações assim, não tenho medo de ser feliz, escolho sempre o risco ao invés do conforto.

sendo assim, fui em frente.

e deu certo. eles aceitaram, eu expliquei, brinquei, eles riram, todo mundo entendeu, a turma bateu palmas e os dois, no final, fumaram o cachimbo da paz. isto é, se abraçaram.

digo isso, pois ontem à tarde recebi a notícia que a covid 19 segue sua sina de morte. dr. josé antônio dias da costa moraes, infelizmente, morreu.

é tudo muito triste, a sensação que tenho é que esse caminho é sem volta. olho pra frente e não vejo nada. nada, nada, nada. apenas uma estrada, estreita, sinuosa e esburacada. luz no fundo do túnel? só se acender a vela no breu.

.

esperança?
sempre há
ouço
agora
o canto de um passarinho
o canto é lindo
mas
parafraseando o poeta
o passarinho é um fingidor
ele chora rindo
dizem lá no morro
que fala sozinho

grill

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ama e lança chamas
assovia quando bebe
canta quando espanta
mal olhado, azar e febre
sonha colorido
adivinha em preto e branco
anda bem vestido
de cartola e de tamanco
dorme com cachorro
com um gato e um cavaquinho
dizem lá no morro
que fala com passarinho
desde pequenino
chora rindo olha pra nada
diz que o céu é lindo
na boca da madrugada

vela no breu | paulinho da viola / sérgio natureza, 1976

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juiz e esposa morrem vítimas da covid 19
(clique no link)

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a pessoa é para o que nasce

em 1997, quando o américas estava no auge e eu tinha uma estrada aberta à minha frente, as circunstâncias financeiras me levaram a dar uma virada radical na vida.

apesar de reconhecido e valorizado --- com apenas dois anos de programa já havia entrevistado dois ídolos máximos, mercedes sosa e león gieco, além de ter participado do programa «primeira pessoa» da jornalista ivete brandalise (tve poa)---, nunca consegui traduzir isso em dinheiro.

e no mundo como ele é, sendo as coisas como são, não há relação que se sustente quando um ganha dinheiro e o outro «vive de poesia».

«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»

sendo assim, fui à luta.

manhãs e tardes perdidas, batendo perna na rua pedindo emprego.

uma manhã de domingo, lendo os classificados, encontrei um anúncio de um curso no senac para instrutores de trânsito.

o processo para tirar carteira de motorista estava em plena mudança.

olhei pra minha companheira, na época, e disse: --- taí uma coisa que acho que sou capaz de saber fazer... ensinar as pessoas a dirigir...

segunda-feira, 8 da manhã, toquei o telefone pro senac (pelotas) buscando informações a respeito do curso.

— as turmas já estão completas, não há mais vagas.

eu estava entusiasmado... insisti...

a moça, sem saber mais o que fazer, disse o que eu precisava ouvir:

— em rio grande está por abrir um curso...

dito e feito, me inscrevi para o curso em rio grande (60 km de pelotas).

só havia vagas no período noturno.

de segunda a sexta, pegava o ônibus às 5 da tarde, chegava às 6, o curso começava às 7, terminava ás 10 e meia, eu pegava o ônibus das 11 e chegava à meia hora em casa.

com uma semana de curso, cheguei à conclusão que ensinar as pessoas a dirigir não era coisa pra mim.

descendo as escadas, comentei com um colega a minha decisão de cair fora, de partir pra outra...

atrás de mim, vinha o mendes, um dos instrutores do curso... foi ele que me convenceu a não desistir.

ele disse que tinha uma promessa de emprego como instrutor no cfc senna, mas que não poderia arcar com o horário integral dos cursos... que precisava de alguém junto com ele e que eu era a pessoa certa.

quando abri o sorriso, ele deu o xeque-mate:

— aguenta mais um pouco, vai dar tudo certo...

e deu mesmo...

mas por vias tortas.

eu nunca me imaginei dando aula teórica, eu me imaginava dando aula prática...

daí pra frente
muita coisa aconteceu
muita água rolou
foram dez anos de história
e dez anos não são dez dias
nem dez meses
cheguei com 30
saí com mais de 40
hoje tenho 61
corre o vento
o rio passa
mas determinadas coisas na vida
a gente nunca esquece
como dizia o poeta
«o que entra na cabeça
da cabeça logo vai;
o que entra no coração
fica e não sai nunca mais.»

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lo que dentra a la cabeza
de la cabeza se va
lo que dentra al corazón
se queda y no se va mas

tu quieres saber por qué?
escúchalo bien, escúchalo bien:
al corazón sólo dentra la pura verdad
¡que al corazón solo dentra la pura verdad!

la pura verdad | atahualpa yupanqui / pablo del cerro (1974)
última canção gravada por atahualpa yupanqui, em água escondida, cerro colorado, província de córdoba, argentina. retiro rodeado de natureza onde compôs várias de suas obras. seus restos mortais estão enterrados na propriedade, sob um carvalho.

na introdução, don atahualpa recita os versos do poeta espanhol león felipe: «mi voz es opaca y si brillo, no servirá jamás para reforzar un coro, sólo a mí me sirve para poder decir aquello que me alegra, aquello que me duele, aquello que me revela, aquello que me enmudece. sólo yo puedo decirlo, a veces sentirlo, talvez jamás pronunciarlo. mi voz no servirá jamás para reforzar un coro, es opaca sin brillo sólo para uno, sólo para mí, pido perdón...»

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batendo na porta do céu

escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar

grill

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antes de me despedir, mais uma sobre o dom.

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o valor do dom

fui muito feliz, reconhecido e valorizado como instrutor teórico e prático. mas não nasci com o dom de ganhar dinheiro, essa é a pura verdade. eu era instrutor e os alunos me chamavam de mestre. teve um, porém, que uma vez foi além: convidou-me para ser pastor. repito: PASTOR! verdade... juro que é verdade. o aluno olhou para mim e disse: «irmão, com esse dom que deus te deu, tu podias ganhar muito dinheiro». o que dizer numa situação dessas? eu apenas sorri e agradeci.

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mil graças, sim senhor
da vida e da morte,
por ser apenas isto:
um sopro efêmero e leve.
e o de passar meus dias
finais neste mundo,
com as mãos vazias
e o coração profundo.

testimonio final | j. e. seri / atahualpa yupanqui (1979)

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#américas