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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 


suzanne 

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«sou obrigado a roubar porque cheguei tarde demais, pois antes de eu nascer as coisas eram de alguém. por exemplo, "dom quixote" de miguel cervantes, "folhas de relva" de whitman, "tristão e isolda" de wagner, "espanha" era de franco, "guernica" de picasso, "sofia loren" de ponti o "oscar" de marlon brando. a glória era de gardel, as vacas eram de outros e, se restava alguma coisa, julio iglesias as levava.»

facundo cabral

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a cláusula do elevador
[ou: com o chico pode]

por luís fernando veríssimo

porque eram precavidos, porque queriam que sua união desse certo, e principalmente porque eram advogados, decidiram fazer um contrato nupcial. um instrumento particular, só entre os dois, separado das formalidades usuais de um casamento civil. nele estariam explicitados os deveres e os compromissos de cada um até que a morte — ou o descumprimento de qualquer uma das cláusulas — os separasse.
quando chegaram à parte do contrato que trataria da fidelidade, ele ponderou que a cláusula deveria ter uma certa flexibilidade. deveria prever circunstâncias aleatórias, heterodoxas e atenuantes. em outras palavras, oportunidades imperdíveis. e exemplificou.
– digamos que eu fique preso num elevador com a luana piovani. depois de dez, quinze minutos, ela diz «calor, né?», e desabotoa a blusa. mais dez minutos e ela tira toda a roupa. mais cinco minutos e ela diz «não adiantou», e começa a desabotoar a minha blusa… o contrato deveria prever que, em casos assim, eu estaria automaticamente liberado dos seus termos restritivos. ela concordou, em tese, mas argumentou que a licença pleiteada deveria ser específica. ficou decidido que ele estaria automaticamente liberado da obrigação contratual de ser fiel a ela no caso de ficar preso num elevador com a patrícia pillar, a luma de oliveira e a luana piovani. isto estabelecido, ela disse:

– no meu caso…
– como, no seu caso?
– no caso de eu ficar presa num elevador com alguém.
– quem, por exemplo?
– sei lá. o maurício mattar. o raí. o renato gaúcho...
– o renato gaúcho não!

foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o chico buarque. com o chico buarque pode. mas só com o chico buarque...

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«não fode
chico é chico
chico é pra quem pode»

grill 

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«eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não, pé eu não
eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não»

kledir ramil

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chico

[por tom cardoso]

andarilho contumaz, chico manteve por algum tempo a rotina de caminhar pela orla do rio sem ser incomodado. a internet acabou com o sossego. qualquer coisa virou assunto. a partir da metade dos anos 2000, chico não compareceu mais a peças, filmes e shows de amigos.

«eu em geral não vou mais a estreias, porque muitas vezes a plateia trabalha mais que o artista. tem que estar bem vestido, a sua roupa vai ser comentada, essas coisas. minha empregada outro dia ficou com vergonha porque apareci com a mesma camisa em dois acontecimentos sociais.»

como se não bastasse administrar as chateações impostas pelo sucesso, chico ainda sofre de algo não tão comum para todo artista: o peso de ser o muso da sua geração. apesar da inegável beleza dos olhos cor de ardósia (ou seriam verdes ultramarinos?), ele rejeita a imagem de símbolo sexual: «não me considero um homem especialmente bonito», disse a uma revista feminina, e acrescentou para um jornal:

«não acho que tenha essa imagem não. não sou símbolo sexual, digo sinceramente. se eu fosse, estava contente. sou até uma pessoa desajeitada, um pouco inábil com as mãos, que funcionam de um jeito esquisito. não estou querendo fazer contrapropaganda das minhas qualidades, mas não acredito nelas.»

o compositor admitiu que, no início da carreira, ainda solteiro, escrevia canções também com o objetivo de ser visto de uma maneira mais sedutora pelas mulheres por quem se interessava. muitas dessas mulheres ele admirava à distância, apenas de forma platônica. era o caso da socialite eleonora mendes caldeira, para quem compôs, em 1966, «morena dos olhos d'água», na esperança de diminuir o abismo entre os dois...

antes de seguir em frente
voltemos ao elevador

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«foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o chico buarque. com o chico buarque pode. mas só com o chico buarque... »

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«eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não, pé eu não
eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não»

ramil

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«eu também não, nesse elevador não ponho o pé eu não
conheço o meu lugar»

grill

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atire a primeira pedra
quem nunca levou um carão
um fora
«uma tábua»
eu levei vários
pensando bem
até gostaria de ter levado mais
recordo quando era adolescente
e veraneava nas praias de santa vitória do palmar
e saía do hermenegildo em direção à barra do chuí 
e vice-versa
pela beira da praia
num fusca lotado
sim
naquela época 
a noite era uma criança 
havia boate na barra e no hermena 
dia sim e no outro também 
se um dia era aqui
no outro era lá
eu tava em todas 
não perdia uma 
boate, digo
pois mulheres
perdi várias
algumas 
porque não me quiseram, mesmo
outras
porque fui covarde 
não tive coragem de atravessar a pista
para convidá-las para dançar 
e a maior dor não é pelas que me disseram não
e sim pelas que 
lá atrás
quando eu era jovem
e a estrada parecia sem fim
 eu não disse sim

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de volta à morena
morena dos olhos d'água 

«eu lembro que ia à missa dos dominicanos. eu e minha turma para ver a eleonora. ela era simplesmente maravilhosa, mas eu não ousava chegar muito perto. tinha medo de tirar pra dançar porque podia levar uma tábua, como se dizia na época. mas, depois que eu virei famoso, deu pra chegar a ela sem medo de levar tábua.» 

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de volta ao livro de tom cardoso

as irmãs dizem tê-lo visto dedicando a mesma canção feita para eleonora para outras morenas --- de olhos d'água ou não. uma artimanha mais do que justificável no seu caso, em que a facilidade de compor lindas e sofisticadas canções de amor é infinitamente maior do que o traquejo com as mulheres. é o que ele vive alardeando por aí. «não sou o sedutor que comentam.»

há controvérsias. essa história de ficar dedicando uma mesma canção para mulheres diferentes não durou muito tempo --- chico se casou com a atriz marieta severo, em 1966, aos 22 anos. os dois foram apresentados por um amigo comum, o ator hugo carvana, que na época encenava uma peça com marieta e produzia seu primeiro show, meu refrão, na boate arpège, no leme.

as canções de amor, porém, continuaram brotando. chico precisa estar apaixonado para alimentar o compositor --- do jeito que for possível.

«falam que o artista só faz música para pegar mulher. mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.»

«quando eu falo que você inventa amores, você também sofre por eles. e a moça da farmácia? ela foi embora! elle est partie en vacances monsieur! e você não vai vê-la nunca mais. dá uma solidão. eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí você cria uma história e você sofre. e fica feliz e escreve músicas.»

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foi tão bom te ver rever-te ver-te
como antes de rever-te nos vimos agora no solitário agora ver-te verte tudo com sabor e tudo do primeiro louco ver-te no mais o coração ainda está apaixonado como apaixonado ainda está o ver-te e ver-te novamente verte o ver-te igual e necessariamente é preciso sempre ver-te

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lembrei da ilha
dos MUITOS beijos 
que quis dar
e não dei

grill 

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o(s) beijo(s) que eu não dei 

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seguimos 
de volta ao livro de tom cardoso
de volta a chico 

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no começo de março de 2005, chico foi fotografado beijando uma jovem e bela mulher na praia do leblon. o que seria apenas mais um episódio da falta de privacidade enfrentada pelos artistas, perseguidos diariamente por paparazzi na zona sul da cidade, virou assunto do mês. um escândalo: a moça, a produtora cultural celina sjostedt, 25 anos mais nova que chico, era casada, mãe de dois adolescentes.

logo se soube mais: o marido traído, o pianista ricardo sjostedt, o duna, conhecia chico havia muitos anos. querido pelos músicos da cidade, próximo da família de tom jobim, era dono de um estúdio frequentemente procurado para ensaios de pré-produção. chico recorrera a ele algumas vezes, a primeira em 1984, nas gravações do disco lançado no primeiro ano.

chico e celina silenciaram. duna, não. em entrevista à coluna de mônica bergamo, da folha de s. paulo, publicada dias depois do flagra, o pianista deu a entender que aquele não havia sido o primeiro flerte de chico e celina. «o que acontece é que esse cidadão tem uma fixação pela minha mulher, talvez por ela ser muito bonita, e fica investindo (...). só quero que ele deixe a nossa vida em paz, bote na balança que temos família e vá procurar alguém da idade dele. talvez em uma clínica geriátrica..»

o caso repercutiu bastante. foi do cantor e humorista cearense falcão o comentário mais espirituoso: «tomar chifre do chico buarque é mais importante do que ganhar um grammy».

o veterano artista e a moça não foram mais vistos juntos, pelo menos em público. duna e celina separaram-se tempos depois do episódio, após 15 anos juntos.

chico não falou sobre o assunto nem quando a história esfriou.

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eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
e não posso falar
tou me guardando pra quando o carnaval chegar
há quanto tempo desejo seu beijo
molhado de maracujá
tou me guardando pra quando o carnaval chegar

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falando em carnaval

a verdade é que desde garoto chico se recusa a seguir um ensinamento repassado pela mãe. toda vez que se deparava com uma vadiagem do filho, maria amélia repetia: «juízo e alegria!» chico a confrontava, sabedor da dificuldade de associar uma à outra. «mamãe, ou juízo ou alegria.»

o rio de janeiro dos anos 1960 e 1970, um paraíso para qualquer hedonista, era uma cidade cheia de tentações até mesmo para o mais ajuizado dos homens. e chico, que não era uma coisa nem outra, tampouco capaz, como desejava a mãe, de equilibrar razão e emoção, caiu nas farras muitas vezes.

e o desequilíbrio se agravou depois que o compositor se tornou amigo de copo do mais beberrão, notívago e mulherengo morador da zona sul carioca: tarso de castro. marieta, por razões óbvias, destestou as novas amizades do marido, embora as antigas não fossem também lá muito confiáveis.

numa dessas noites, depois de uma briga feia com marieta, acabou no apartamento de tarso, que não perdeu tempo: chamou duas amigas para irem lá passar o resto da madrugada. marieta, porém, se arrependeu e foi atrás do marido. chegou ao apartamento e deu de cara com o quarteto. chico tentou, ridiculamente, convencê-la que ambas eram namoradas de tarso --- insaciável, este não se contentaria apenas com uma. não colou.

após reduzir a bebida, chico não foi mais visto com frequência na companhia de sujeitos como tarso e, consequentemente deixou de se meter em tantas confusões. mas isso não impediu que as encrencas chegassem até o compositor. nesse caso, só havia um culpado. na verdade, dois. os olhos verdes ultramarinos. ou seriam cor de ardósia?

o casamento de chico e marieta, não formalizado em cartório, terminou em 1997. os dois, que tiveram três filhas, silvia, helena e luísa, continuaram grandes amigos. durante um período, ele almoçou todos os domingos na casa da gávea, que ficou com marieta --- ela ajudou o ex-marido a mobiliar o apartamento de solteiro no jardim botânico. em 1999, o músico se mudou para um prédio no leblon, onde mora atualmente.

a solteirice não mudou a rotina de vida de chico que apesar do histórico de farras com tarso de castro, não vê serventia na possibilidade, aberta pela fama, de se relacionar com muitas mulheres. «tem outro [erasmo carlos] que falou que teve mil mulheres. eu digo: "bom, mas então, não foi bom com nenhuma..." não acho vantagem».

em 2005, uma enquete promovida por um site de notícias elegeu chico um dos homens mais sexy do brasil. para ele, tão patético quanto aquele tipo de pesquisa eram os resultados. «isso é ridículo, e essa lista é ridícula. tenho 60 anos, percebe?»

trocando em miúdos: seis vezes chico, p. 115 a 121

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lendo as histórias de chico e tarso
lembro que
anos atrás
quando tava solteiro
desejei muito uma mulher casada
começamos a nos falar pelo orkut
ela me disse que havia sido minha aluna
eu perguntei: quando?
ela disse o ano
olhei pra foto no perfil dela
pensei pensei pensei
puxei pela memória
mas que coisa
não é possível que eu não me lembre dela
o porquê está logo ali na frente
em LETRAS GARRAFAIS
seguimos
conversa vai, conversa vem
lá pelas tantas
ela comentou que ia no show do vitor ramil
[de quem ela era e ainda é muito fã
e eu também]
não falei nada
mas pensei
eu vou também
mas como, se eu não tenho um puto
nem um centavo
tô sem trabalhar há meses
tô afastado
distante da cena cultural
há anos não vejo o vitor
tô sem jeito... tô desenchufado ...
escrevi então uma coluna para o diário popular
com o seguinte título
«será que vem alguma carta pra mim?»
falando da minha paixão pela moça
e de minha admiração pelo cara
pedi que a coluna fosse publicada no dia do show
e o pedido foi atendido
saí então cedo da casa da cris
minha amiga
irmã de alma
passei na sede do jornal
pedi três exemplares
um, pra mim
outro, pro vitor
e o outro pra mulher em questão
fui para o teatro
entrei
assisti à passagem de som
quando terminou
fui em direção ao vitor
ele ficou feliz e surpreso ao me ver
não era pra menos
não nos víamos há muitos anos
entreguei o jornal pra ele
falei de meu desejo de assistir ao show
ele disse: claro, cara
peraí que vou falar com fulano de tal
falou
nos despedimos
ele foi para um lado
eu para outro
voltei acho que uma hora antes das portas do teatro abrirem
fiquei ali 
parado
pensando em como eu era iluminado 
em que até o momento tudo corria conforme eu tinha planejado 
cuidado
 nem sempre a autoconfiança é o melhor aliado
eu havia esquecido algo importantíssimo 
para que aquela noite terminasse do jeito que eu havia desejado
EU SOU PÉSSIMO FISIONOMISTA 
quando as portas abriram
eu fui o primeiro a entrar
me posicionei num lugar estratégico
onde eu pudesse ver todos os que entravam
e todos os que entrassem pudessem me ver 
portas abertas
as pessoas foram entrando
lá pelas tantas
uma mulher alta e morena 
vem toda sorridente ao meu encontro
olhei para os lados 
pensando
não pode ser pra mim esse sorriso todo 
pensei, pensei, pensei
tentando me lembrar de onde eu a conhecia
nisso ela já tinha me dado um 
e aí, enilton
e eu ali
com aquela cara de
de onde que eu te conheço?
quando a ficha caiu
já era tarde
passei o show 
com o ouvido no vitor
e olho na plateia procurando por ela  
a bela
olhava, olhava, olhava
e nada 
terminou o show
voltei pra casa da cris
minha amiga e irmã de alma
entrei no meu quarto
liguei o computador
entrei no orkut
procurei por ela
pelo nome dela
e nada.
eu havia sido bloqueado
sin olvido, ni perdón 
BLOCK 
mas passa
tudo passa
namoramos
noivamos
e casamos
mas passa
tudo passa
depois de quase 20 anos
nos separamos
antes disso
quando voltei de são luís
nos encontramos em porto alegre
na casa da minha madrinha 
quando
entre beijos e gargalhadas
ela me contou
sobre aquela noite
«menos, querido, bem menos
não ia acontecer nada
eu não podia e não queria 
eu era casada»

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trocando em miúdos
 
chico é chico
chico só tem um
eu sou um homem comum 

grill 

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e a morena dos olhos d'água?

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morena dos olhos d'água
tira os seus olhos do mar
vem ver que a vida ainda vale
o sorriso que eu tenho
pra lhe dar

descansa em meu pobre peito
que jamais enfrenta o mar
mas que tem abraço estreito, morena
com jeito de lhe agradar
vem ouvir lindas histórias
que por seu amor sonhei
vem saber quantas vitórias, morena
por mares que só eu sei

o seu homem foi-se embora
prometendo voltar já
mas as ondas não têm hora, morena
de partir ou de voltar
passa a vela e vai-se embora
passa o tempo e vai também
mas meu canto ainda lhe implora, morena
agora, morena, vem

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(do dvd à flor dapele)

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e a carta?

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será que vem?
mas de quem virá?
o que irá dizer?
que surpresa encontrar...  

que me vou por aqui
que fiquei por ali 
que me vou por aqui
que fiquei por ali 

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do álbum foi no mês que vem
 
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e suzanne?

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suzanne te leva até seu canto perto do rio
você pode ouvir os barcos passando
você pode passar a noite ao lado dela
e você sabe que ela é meio maluca
mas é por isso mesmo que você quer estar lá
e ela te alimenta com chá e laranjas
que vieram lá da china
e justo quando você pensa em contar a ela
que você não tem nenhum amor para lhe oferecer
então ela te sintoniza na sua frequência
e ela deixa o rio responder
que você sempre foi o amante dela
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que ela vai confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com sua mente

e jesus era um marinheiro
quando ele andou sobre as águas
e ele passou um longo tempo observando
de sua solitária torre de madeira
e quando ele soube com certeza
que apenas os homens afogados podiam enxergá-lo
ele disse: «então todos os homens serão marinheiros
até o mar libertá-los»
mas ele mesmo estava quebrado
muito antes de o céu se abrir
desamparado, quase humano
ele afundou sob a sua sabedoria feito pedra
e você quer viajar com ele
e você quer viajar às cegas
e você acredita que talvez confie nele
pois ele tocou seu corpo perfeito
com sua mente

agora suzanne pega sua mão
e ela te leva até o rio
ela está vestida de trapos e penas
dos balcões do exército da salvação
e o sol se derrama feito mel
em nossa dama do cais
e ela te mostra onde olhar
entre o lixo e as flores
há heróis entre as algas
há crianças na manhã
elas se inclinam em busca do amor
e vão se inclinar assim para sempre
enquanto suzanne segura o espelho
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que pode confiar nela
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a mente dela

👇

(live at the isle of wight 1970)

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#américas

quarta-feira, 5 de agosto de 2026


pecado capital

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«dinheiro na mão é vendaval
é vendaval
na vida de um sonhador
de um sonhador»

paulinho da viola»

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em 2005, depois de me separar, aluguei uma casa na rua sturbelli e mobiliei-a com tudo, tudo o que eu tinha, quadros, discos e livros. eu tinha, também, na época, um fogão, um colchão e uma geladeira. armários e televisão eu não tinha. a vida era uma maravilha (ou devia). eu morava sozinho, trabalhava no cfc, gostava do que fazia, fazia o que queria e o salário, ó! dava e sobrava. enfim, tinha tudo pra dar certo, mas eu sou um «sonhador» e o «sonhador» é muito hábil em criar armadilhas para si mesmo. a armadilha era: fazer o que com o que sobrava?

a primeira coisa que fiz foi entrar num bar
tomei umas 5 ou 7
entrei numa revenda de automóveis...
e saí com um fiat 147

corria o ano de 2007
eu recém tinha completado 42
outro dia vi uma entrevista do chico buarqie
na qual ele dizia que não tava preocupado com a «crise dos 40»
normal
chico estava com 36
contudo
vendo-o falar
me lembrei de 2005
quando fiz 40
meu desejo era passar pela tal «crise» sem nenhum sobressalto
quanta ignorância de mim mesmo
dos 39 aos 43
minha vida virou de cabeça pra baixo
dos 39 aos 40 atingi meu auge
pousei no cume da montanha
olhei para o precipício
e me atirei
tentar tentei
mas voar
não voei
só de avião
rumo a são luís do maranhão
caí e levantei
mais de uma vez
aprendi a lição
muda
tudo muda
eu também mudei
caí
me casei
levantei
me separei
penei
sofri
chorei
quase caí
mas ainda estou aqui
ainda não sei o que quero
mas já sei o que não quero


pensando bem
não sei se era o que eu queria
mas eu podia ter sido tarso de castro
morrido como ele

pensando melhor
a pessoa é para o que nasce
tarso está lá
eu ainda estou aqui

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tarso de castro

[por tom cardoso]

na sua nova rotina de solteiro, tarso podia ser visto em dois lugares no rio de janeiro. o primeiro era o bar joia, pertinho da sua casa, lá mesmo no jardim botânico. para o outro reduto era preciso ir de carro, se é que se podia chamar de carro o velho dodge dart que o jornalista pilotava até o restaurante plataforma, no leblon.

tarso tinha um apreço todo especial pelo seu dodge dart. os amigos nem tanto. sérgio cabral jamais esqueceu do dia em que deixou o filho serginho dar uma voltinha no quarteirão com o «tio tarso». praticamente não saíram do lugar: a barra de direção soltou na primeira curva evitando um acidente mais grave. josé trajano não teve a mesma sorte, lembra ele:

um dia, em ipanema, saímos de um bar completamente bêbados. o tarso, dirigindo o dodge dart, entrou na visconde de pirajá a mais de 100 km/hora, como um alucinado. um cara passou no sinal vermelho e bateu na gente. entramos com meio carro dentro de uma loja. no meio do tumulto, passou por ali o [ator] stepan nercessian. ele viu que era a gente e se ofereceu para nos levar ao hospital miguel couto, só sei que algumas horas depois, às 10 da manhã, já estávamos os dois, cheios de curativos, bebendo na padaria com o stepan.

pilhas de multas chegavam todos os dias à casa do antigo dono do dodge dart, que jamais teve coragem de repassá-las ao novo proprietário. para tom jobim, passar a vida se responsabilizando pelas barbeiragens do jornalista não chegava a ser um sofrimento. o duro mesmo era evitar os tradicionais e temidos selinhos de tarso de castro.

«na boca, não» gritava o compositor toda vez que os dois se encontravam em algum bar ou restaurante do rio. apesar do apelo, raramente escapava do malho. tarso era apaixonado por tom. ao chegar ao rio, em 1962, um de seus orgulhos de juventude era ser confundido, no bar jirau, em copacabana, com o músico. com o tempo, tornaram-se íntimos. bebiam juntos, acompanhados de vinicius de moraes, na churrascaria carreta, em ipanema.

na mesa de jobim eram bem-vindos joão ubaldo ribeiro, chico buarque, antônio pedro, miguel farias, paulo mendes campos, sérgio cabral e, claro, tarso de castro. nos últimos tempos, tom se queixava a cabral que tarso adquirira outro hábito repugnante, ainda pior que a tradicional bitoquinha: «cabralzinho, ele agora deu de ficar apertando o meu pau. dói pra cacete». as tardes passaram a ser menos divertidas. no restaurante, tarso, debilitado por uma cirrose hepática, teria a primeira das oito hemorragias que o levariam à morte em menos de um ano.

durante anos, amigos tentaram, inutilmente, convencer tarso a parar de beber. luiz carlos maciel o levou ao alcoólatras anônimos (aa). seu argumento para não frequentar as reuniões foi convincente: «prefiro a morte ao anonimato». uma namorada o aconselhou a passar um tempo em casa, sedado, para «limpar o organismo». «mas me diga uma coisa: e se o governo cair? se eu acordar e mudou o governo? aí, porra, vou ficar irritado com todo mundo durante anos! eu quero estar presente! é uma espécie de doença, mas paciência», confidenciou à revista playboy, em 1983. palmério dória pediu a ele que, pelo menos, deixasse de beber pela manhã. a resposta estava na ponta da língua: «prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira do que viver a vida inteira pela metade».

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passo a palavra para jaguar:

«tarso era um extremado em tudo: era capaz de virar a noite na redação, mas também de sumir num dia de fechamento do jornal. nunca vi uma resistência igual. saía de um cti e ia parar de novo no cti, para recomeçar tudo de novo.»

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voltamos a tom cardoso:

quando tarso, depois de uma nova hemorragia, deu entrada, em coma, na clínica são vicente, seu médico, o clínico-geral pedro henrique paiva, assinou o atestado de óbito e avisou a família: «podem comprar o caixão». não sabia com quem estava lidando. horas depois, enfermeiros foram surpreendidos por um grito vindo da uti: era o «morto» pronto para mais uma dose: «poooooooorra, me tirem daqui!». paulo césar peréio, impressionado com a resistência do «canalha», só aceitou levar tarso para a churrascaria se ele prometesse por escrito doar o superfígado depois de morto.

na oitava hemorragia de tarso, miguel kozma, velho companheiro desde os tempos de passo fundo no rio grande do sul, entrou em ação. conseguiu com o jornalista fernando morais, então secretário estadual de educação de são paulo, um quarto no hospital das clínicas, onde tarso seria tratado pelo médico silvano raia, o maior especialista em doenças do fígado do país. segundo raia, só havia uma saída para o paciente: o transplante de fígado, desde, claro, que ele decidisse parar de beber. levado de ambulância do rio para são paulo, a primeira providência de tarso foi se livrar dos tubos de soro grudados em seu braço.

miguel kozma conseguiu a proeza de convencer o amigo a parar de beber por algumas semanas. para um grupo de ciganos, conhecidos de tereza, mulher de miguel, o milagre não ocorreu por acaso. a história cheia de lances macabros e confirmada pelo próprio tarso, durante entrevista para o jô soares onze e meia, do sbt, começou no dia em que um dos ciganos, impressionado com o estado de saúde do jornalista, cismou que havia no rio um trabalho de magia negra contra ele. foram todos de carro até o méier, subúrbio da cidade, onde encontraram um boneco, um mini-tarso, com uma coroa de espinhos na cabeça e agulhas em todo corpo, com maior incidência na região do fígado. o vodu foi queimado lá mesmo e o cigano garantiu, de pés juntos, que a partir dali o doente estaria curado.

não era a primeira vez que o jornalista tinha o seu nome usado num ritual. vinte anos antes, ao sair completamente endividado de o pasquim, em 1971, uma namorada resolveu fazer despacho para o amado sair logo da crise financeira. levou ao terreiro um par de meias, o mesmo que tarso havia pedido emprestado para chico buarque durante uma festa na casa do compositor. conclusão: tarso continuou duro por um longo tempo e chico ganhou seu primeiro milhão ao fazer um tremendo sucesso com o disco construção.

com ou sem despacho, tarso voltou a beber. conseguiu convencer --- não se sabe como --- todas as enfermeiras do hospital das clínicas de que era importante ele ter duas garrafas de uísque debaixo da cama. só não conseguiu seduzir o diretor do instituto do fígado, jorge pagura, como lembra fernando morais: «o pagura, um escroto da pior linha, ligado a paulo maluf, me ligou dizendo: "se ele quer beber que faça isso num botequim e não num hospital. tira esse vagabundo daqui!"»

não precisou: no dia 20 de maio de 1991, vítima de cirrose hepática, tarso foi beber em paz com vinicius de moraes.

o desejo da família era que o corpo fosse enviado imediatamente para passo fundo, logo depois do velório na assembleia legislativa de são paulo. de novo, fernando morais ofereceu ajuda. ligou para luiz antônio fleury filho, que havia acabado de ser eleito governador de são paulo, apoiado por seu antecessor, orestes quércia, e fez o pedido:

governador, preciso que o senhor libere um jatinho para levar o corpo de um amigo com urgência até passo fundo.

— quem morreu?
— o jornalista tarso de castro.
— quem?
— o tarso.
— aquele que chamava o quércia de a «dama de ferro» todo dia no jornal?
— ele mesmo.
— você está louco? não posso fazer isso.
— governador, o quércia não precisa ficar sabendo.
— tudo bem. mas pelo amor de deus, se ele souber, eu sou enterrado junto com o tarso.

em passo fundo, logo que o corpo chegou ao saguão do aeroporto lauro kurtz, tarso recebeu a primeira «homenagem». ao saber que ali estava sendo transportado o corpo do polêmico jornalista, romeu tuma, então superintendente da polícia federal, não se conteve: «aquele subversivo boca-suja?». ser chamado de boca-suja por um ex-diretor do dops era um elogio e tanto. a segunda homenagem partiu do amigo otto lara resende, articulista da folha de s. paulo, em texto publicado dois dias após sua morte:

«tinha um pacto de felicidade com a vida. pouco importava que a vida não cumprisse a sua parte. eu interpelava os astros: de quem foge tarso de castro? que persegue tarso de castro? ele ria. e o riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. a vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança? na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. sua morte nos punge como um remorso. tantas imposturas, tantos vencedores! adeus, tarso!»

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ao vento

tava olhando aqui
quanto mais eu escrevo
menos leitores eu tenho
sinal que sigo no caminho certo
caminho que eu mesmo escolhi
quando saí da casa dos meus pais
e peguei a estrada

grill

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukovski

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«apenas somos
quando em nada nos tornamos.
é quando perdemos nossas pernas
que nos tornamos corredores.»

rumi

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«aos cavalos não foi dito que tinham que correr para vencer
os cavalos não correm para vencer
os cavalos correm para correr
assim sou eu também
não vivo para vencer
vivo para viver»

fausto wolff

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ao vento


eu sou da geração x
nasci em 1965
conforme li por aí
uma das características dos indivíduos dessa geração
é a ruptura com as gerações anteriores
outra é a autoconfiança
por outro lado
há quem diga que os nascidos na geração x são avessos às mudanças
nada mais distante de mim
nunca tive problema com mudanças
muito pelo contrário
o vento sou eu

grill

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o vento

espalha as sementes, conduz as nuvens, desafia os navegantes.
às vezes limpa o ar, e às vezes suja.
às vezes aproxima o que está distante, e às vezes afasta o que está perto.
é invisível e é intocável.
acaricia você, golpeia você.
dizem que ele diz:
— eu sopro onde quiser.

galeano

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lá vai uma vela aberta
se afastando pelo mar
branca visão que desperta
anseios de navegar

vela aberta | walter franco (1980)

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pouco antes de buda morrer alguém lhe perguntou: quando um buda morre, para onde ele vai – ele sobrevive ou simplesmente desaparece no nada?

dizem que buda respondeu: é exatamente como uma nuvem branca desaparecendo.

lembro de quando havia nuvens brancas no céu. agora, elas não estão mais lá. para onde foram? de onde vieram? como surgiram, e como se dissolveram novamente?

a nuvem branca é um mistério – o vir, o ir, o próprio ser dela.

uma nuvem branca existe sem nenhuma raiz. mas ainda assim existe.

a existência inteira é como uma nuvem branca – sem qualquer raiz, sem qualquer causalidade – ela existe. existe como um mistério.

uma nuvem branca não tem, na realidade, nenhum caminho próprio. vagueia. não tem onde chegar, não tem objetivo, não tem destino a ser cumprido. não tem fim.

você não pode deixar uma nuvem branca frustrada, porque onde quer que ela chegue, é a meta. se você tem uma meta, está destinado a ficar frustrado. quanto mais a mente é orientada para uma meta, mais angústia, mais ansiedade e mais frustração possui – porque quando você tem uma meta começa a se mover em direção a um objetivo fixo.

a existência inteira existe sem qualquer destino. o todo não está indo a lugar algum; não possui nenhuma meta, nenhuma finalidade.

uma nuvem branca deixa-se levar para onde quer que o vento a dirija – não resiste, não luta. o vento é o senhor do seu destino. uma nuvem branca não é um conquistador, e mesmo assim flutua acima de tudo. você não pode conquista-la, não pode vencê-la. ela não tem nenhuma mente para ser conquistada.

uma nuvem branca não tem para onde ir. movimenta-se, vai para todos os lugares. todas as dimensões lhe pertencem, todas as direções lhe pertencem. não rejeita nada. tudo é, existe, numa total aceitação.

por isso chamo meu caminho de «o caminho das nuvens brancas»

como cheguei a ele? lendo
lendo, lendo, lendo
lendo e escrevendo
que é o que vou seguir fazendo
vai vendo...

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de volta ao começo

quando morava com meus pais, eles me diziam um guri sem ambição. e tinham razão. eu não me interessava por nada, só queria que as coisas fossem diferentes do que são.
foi então que saí
para ver se eram
pensei que eram
mas não são

grill

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o medo sem saber fui procurar
e conhecer duas quadras mais além
o ar era igual, as pessoas iguais
me deu na telha dizer pra um cara tchau
o cara me olhou, não entendeu.
ali dobrei duas quadras para lá
oi tudo bem dois guris da minha idade
um me disse tchê, queres fumar?
eu quase disse não, mas aceitei
e tossir, e sentir, e olhar, descobrir e voar
e voar, voar
a descobrir que pasa en la ciudad
e saber como são as pessoas mas alla de aca
como será, como será, como será
como será, mas como será?
e voar, voar, a descobrir que pasa en la ciudad
eu quero voar e voar e saber
como são as pessoas mas alla de aca
o pão que fui comprar e me olvidei
as ruas todas novas e não sei, não sei
querer querer voltar e não saber
os gritos de mamá sobre mi piel
o hálito de menta que inventei
a culpa de fumar e de escapar
mamá espera no pegues, quiero hablar
mamá espera no pegues quiero hablar
vos vas a ver cuando vuelva papá
vos vas a ver cuando vuelva papá
pero para mamá...
vos vas a ver...
vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver
quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar
yo fui a volar, volar
a descubrir que pasa en la ciudad
yo quiero volar y volar y saber
como es la gente mas alla de aca
para la libertad, la libertad...
y volar, volar...

miedo niño | piero (1982)

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de volta ao futuro

tudo isso
foi no mês que vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

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#américas

terça-feira, 28 de julho de 2026


só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)

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«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.

acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.

surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»

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tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]

polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.

o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».

após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.

nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».

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a casa dos aedos 

nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.

gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso

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tarso de castro
[por tom cardoso]

tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:

- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.

joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»

descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:

- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!

a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:

- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...

a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».

.

há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.

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- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.

nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.

às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia

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papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia


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acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.

passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.

é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.

até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de nenhuma viagem.

no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:

- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...

meu pai respondeu:

- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...

meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.

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aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara

canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]

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poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march

amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.

acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.

não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.

os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.

(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)

saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.

se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...

adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.

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já ia embora, mas me lembrei de mais uma

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quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.

em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina

mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:

a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).

a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...

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hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!


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o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:

captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)

no brasil há um aparelho de tv por habitante.

mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.

a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.

ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:

a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo

tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó

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o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.

👉 o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973

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enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro

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olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem

quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente

pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus

canta: chico buarque

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por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...

- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo

sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar. pra completar, na hora de voltar pra casa:

tinha um bar no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um bar.

e a pergunta que não quer calar: e a lavoura? a lavoura a água levou. o que restou daquela lavoura foi a canoa que salvou. e a canoa? não sei. ninguém nunca mais viu, nunca mais voltou.

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canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás

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- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto

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sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver

(legendado)

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ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.

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- não entendi.
- tá bem, vou explicar

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quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.

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de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]

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fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:

«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»

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só tem esperança quem tem esperança pra dar

a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.

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tenho

tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

nicolás guillén, 1964

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vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.

grill

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agora escrevo pássaros

agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

cortázar

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cortázar comenta a morte do che, em 1967

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paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:

quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.

o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.

calo-me então.

recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.

che

eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.

logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio

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de volta ao começo

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«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»

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por julio cortázar

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#américas