o néscio
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«vivemos em fascismos restritos e não em democracias liberais»
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«não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve».
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«há uma racionalidade por trás [do fascismo]. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo».
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vladimir safatle
15 de abril de 2026
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o filósofo, que está lançando o livro «a ameaça interna – psicanálise dos novos fascismos globais», defende que o campo progressista precisa dar uma guinada à esquerda e pensar em novas propostas para combater bolsonaro, trump e milei.
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intercept brasil – você escreve que o fascismo é uma resposta realista às diversas crises do mundo: econômica, social, política, ecológica, psíquica, demográfica e por aí vai. como o capitalismo neoliberal, supostamente democrático, preparou o campo para que a resposta fascista fosse aceitável e realista?safatle – primeiro, o capitalismo nunca foi democrático. acho que a gente tem um problema na nossa teoria do estado, que é não saber lidar com recortes geográficos, territoriais e de classe. é possível que um regime como o estado brasileiro seja um estado democrático de direito para alguns grupos e regiões, mas com certeza não o é para outros.onde eu moro tem estado democrático de direito, a 10 quilômetros de distância não tem mais, porque não há garantia de integridade pessoal ou de que quem vai bater na sua porta às 5 horas da manhã é o leiteiro e não a polícia sem mandado [de busca e apreensão], que pode fazer você desaparecer.a gente tem a ideia de que o liberalismo naturalmente funciona, na sua versão normal, com democracia representativa e livre iniciativa. ele funciona, na verdade, com colonialismo e fascismo em sua versão normal. ele sempre foi colonialista, e esse colonialismo prepara o fascismo.você tem zonas das nossas sociedades onde impera o direito do massacre administrativo. foi o que vimos no ano passado, 117 pessoas mortas [122 no total, com cinco policiais mortos] na última batida policial no complexo do alemão [e da penha], pessoas que foram amontoadas como se fossem corpos quaisquer, no meio da rua. você não sabe a história dessas pessoas, a história das famílias. ninguém foi responsabilizado por nada. isso é democracia onde? por qual critério a gente pode chamar isso de democracia? não tem nenhum.isso é o que prepara o fascismo: o fato de que a gente não vive em democracias liberais, a gente vive em fascismos restritos. em situações de crise, esses fascismos restritos se generalizam para toda a sociedade, e é o que a gente está vendo agora. então, não tem muito aquela ideia de «vamos tentar entender como é que se perde uma democracia». não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve.
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ponto. mesma linha.
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safatle já está acostumado a polemizar – a desassossegar. em 2024, por exemplo, escreveu um artigo no qual decretava a morte da esquerda por falta de radicalismo e conexão popular. qual a reação? viu-se uma corrida às redes sociais e às páginas da grande mídia para fazer articulação institucional e disputar a narrativa. ou seja, trocou-se o «ir para as ruas» pela autojustificação. isto é, optou-se por preservar uma boa imagem institucional sem enfrentar a mudança que se exige.
alguns, como se sabe, acharam por bem responder ao artigo de vladimir safatle. a eles, o sociólogo respondeu: «em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.»
mas quem confunde indignação e provocação com prostração e niilismo jamais vai entender que é preciso morrer para crescer e dar fruto.
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«digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. mas se morrer, dará muito fruto».joão 12:24
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uma coisa só mais: «essa luta contra as "ideias abstratas" era, na verdade, um tema conservador. lembrem, por exemplo, de edmund burke a discursar contra as «ideias abstratas» de igualdade vindas da cabeça de filósofos ociosos que acabaram por criar caos revolucionário no mundo do final do século xviii e começo do xix. ou seja, a história demonstra, e isto os conservadores sabem muito bem, que «abstrações» tem muito mais força do que alguns estão dispostos a acreditar. seria melhor que os setores progressistas da sociedade brasileira parassem de mimetizar o anti-intelectualismo dos conservadores.mas isso quem diz é vladimir safatleeu apenas assino embaixo
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bem, saiamos das abstrações, falemos de eleições.
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intercept brasil - entre 2019 e 2022, com jair bolsonaro no poder, o brasil ficou mais perto do fascismo generalizado, e isso ficou especialmente claro na pandemia, com o descaso de bolsonaro e a aproximação dessas características estruturais do fascismo que você menciona, a indiferença e a dessensibilização. nessas eleições, não é jair quem é o candidato, mas seu filho flávio. dá para dizer que ele segue a mesma cartilha, que também é um candidato fascista?safatle – claro, com certeza. o fascismo é um processo que paulatinamente vai degradando as instituições. você acorda numa situação onde ações que imaginava impensáveis são cotidianas. a pandemia demonstrou muito claramente essa lógica: a indiferença é o elemento desagregador fundamental. é você olhar uma família inteira morrendo do seu lado e pensar: “isso é normal”. o que tem que acontecer com a sociedade para que um processo como esse seja naturalizado?esse é um projeto que vai se impor no brasil durante muito tempo, porque existem forças econômicas muito dependentes dessa brutalização social. por outro lado, há uma racionalidade por trás disso. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo. as crises que estão aí vieram para ficar: crise ecológica, econômica, social, política.nessas circunstâncias, não faz sentido esperar um corpo social solidário e totalmente includente. é mais racional você falar: «olha, não tem espaço para todo mundo. a questão é quem vai ser preservado e quem não vai ser, e eu quero estar no primeiro grupo, não no segundo. se tiver que empurrar outras pessoas para que sobre espaço para mim, eu vou».não é necessário nenhum argumento psicológico para entender essa lógica. sou contrário a essa psicologização do campo político de maneira tão selvagem. acho que é importante entender o cálculo racional por trás. ele é dramático, mas é racional. então, ele pede um outro tipo de resposta, não uma patologização geral dos comportamentos políticos.
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saiamos das eleições, voltemos à esquerda.
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para a esquerda, morrer é só o começo
por vladimir safatle
primeiro, alguns creem ser sintoma de melancolia e «desabafo» falar em morte da esquerda nacional. até mesmo ironias a respeito do fato de eu ter anteriormente insistido no esgotamento de outros processos históricos, como a nova república e os acordos imanentes à democracia liberal foram levantados como marcas de uma fixação necrofílica.lembraria que clinicamente «melancolia» é exatamente a incapacidade de se liberar da fixação a objetos perdidos, não a decisão de se recusar a carregar o que está morto. por mais que alguns se comprazem com as máscaras da euforia, há mais melancolia neste entusiasmo do que poderia aparentar. é, na verdade, sintoma de melancolia não encarar as derrotas quando elas ocorrem, não querer ir até o fundo das derrotas a fim de compreender sua real extensão. contra essa leitura, há de se lembrar que, em uma vida, morre-se várias vezes. um dos piores erros é acreditar que só se morre no fim. morre-se várias vezes e esta é, muitas vezes, a condição de realmente continuar e se transformar.nesse sentido, afirmar que a esquerda nacional morreu não é expressão alguma de prazer infantil de contenda. antes, é fruto da compreensão de que a sobrevivência da esquerda nacional depende do reconhecimento de sua morte. dizer claramente «nós morremos» é a primeira condição para nos livrarmos do que nos matou. quem se recusa a pensar dialeticamente nessas circunstâncias desconhece a dinâmica de processos históricos. e nossa morte não foi apenas um acidente externo, ela tem causas internas. o jogo do «estamos sendo atacados por fascistas, agora não é hora de assumir nossa auto-crítica» é suicida, é o verdadeiro suicídio. se o fascismo nacional voltou, se ele teve força para voltar, foi porque ele foi o primeiro a sentir o cheiro de nossa morte. de toda forma, em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.
el país, 27 de fevereiro de 2020.
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esqueçamos a esquerda, salvemos a democracia.
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«quando digo que o estado é uma entidade criminosa contra sua população, que as instituições "democráticas" são uma farsa, uma fraude, uma simulação dominada por interesses econômico-financeiros que passa longe de ser uma democracia - onde o próprio estado viola sua "lei máxima", a constituição, o que se pode comprovar com a fome, o desabrigo, o analfabetismo, a ignorância, a desinformação, entre tantos outros exemplos de ilegalidades constitucionais cometidas pelas instituições - vem logo a pergunta "então qual é a solução? qual a saída?" eu respondo: sei lá. o que não dá é pra seguir acreditando em mentiras só porque não vejo verdades. perceber as mentiras não depende de saber as verdades. e não saber as verdades não é motivo pra me agarrar nas mentiras, nem inibidor pra percebê-las. que cobrança idiota.»
eduardo coutinho
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falando em idiota, lembrei de néscios.
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néscio
1. que ou aquele que é falho de instrução, de conhecimento ou de inteligência; demente, estúpido, ignorante.2. que ou aquele que não possui competência; incapaz, inepto.3. que ou o que é falto de sentido; absurdo.4. que ou aquele que é imprudente.5. que ou o que se recusa a pensar antes de agir.
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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.
r. d. laing
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pensar eu penso
quem não pensa
digo isso pois pode alguém pensar
que eu penso que alguém pensa
que eu não penso
pensar eu penso
quem não pensa
tem quem pensa
que é inteligente
eu penso que
sou burro
grill
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revista bicicleta
chile, 1994
— suas canções relataram muitas mudanças mas a nescedade longe de ser um defeito desprezível, norteou seu pensamento. quanto mudou silvio rodríguez, o homem, desde que escreveu «el necio»?— um mundo em que aparentemente tudo tem preço (inclusive certa gente), entendo que se possa ver como «defeito desprezível» não tê-lo. precisamente nisso consiste a «nescedade» da minha canção.— ainda continua sendo «néscio»?— ainda desejo seguir jugando a lo perdido (insistindo em causas que o mundo considera fracassadas ou utópicas) e rezar a fundo um filho nosso.
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dicen que me arrastrarán por sobre rocas
cuando la revolución se venga abajo,
que machacarán mis manos y mi boca,
que me arrancarán los ojos y el badajo.
será que la necedad parió conmigo,
la necedad de lo que hoy resulta necio:
la necedad de asumir al enemigo,
la necedad de vivir sin tener precio.
(silvio rodríguez, 1991)
legendado
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bom domingo
