aos que virão depois de nós
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«tenho uma teoria: quanto mais próximo da morte, mais vivo você se sente, mais vivo você é»
james hunt
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coração tranquilo
há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.
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hoje é dia dos pais
mas não é por isso
que lembrei do meu
ah, pai
como e quanto te devo
por teus hábitos de dormir tarde e acordar cedo
por tuas histórias de homens apaixonados e sem medo
uma vez
aqui em satolep
meu pai, ailton e eu
saímos do bar da luz (foto)
e fomos ver um jogo do xavante
grêmio esportivo brasil
brasil de pelotas
em são borja
meu pai tinha um chevrolet opala
eu tinha uns 17 anos
ainda não tinha carteira de motorista
meu pai foi dirigindo
o ponteiro não baixava de 150
lembrei do rei
«eu vou, vou voando pela vida
sem querer chegar»
chegamos cedo
procuramos um bar
tínhamos que fazer tempo
até a hora do jogo
quando nos levantamos
pra ir pro estádio
a partida já havia começado
não me lembro se o xavante ganhou ou perdeu
só me lembro de meu pai me perguntar
se eu me animava a voltar dirigindo
viajamos a noite inteira
não vou mentir que foi a minha primeira vez na estrada
pois não foi
a primeira foi com 15
pelotas - santa vitória
santa vitória - pelotas
os tempos eram outros
eu sei
hoje é tudo muito chato
todo mundo é juiz de todo mundo
ninguém se atreve a marchar fora do compasso
marcha soldado
cabeça de papel
quem não marchar direito
vai preso pro quartel
é isso
ninguém arrisca nada
estamos de joelhos
rezamos pelas cartilhas
do grande capital
e do politicamente correto
não me admira
portanto
que estejamos onde estamos
isto é
dentro das nossas casas
de onde só saímos
pra passear na praça
enquanto seu lobo não vem
e ainda assim
cheio de recomendações
não faça isso não faça aquilo
por mim tudo bem
afinal
meu quarto de hora já passou
já tive meus 15 minutos de fama
e estou ótimo assim
lembro porém de brecht
e fico pensando em como será o amanhã
pensando bem
basta olhar para a juventude de hoje
para saber o que será
há exceção?
sim
sempre houve e sempre haverá
«um brinde aos loucos. aos desajustados. aos rebeldes. aos criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que veem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.»
pensando melhor
não tenho nada com isso
não sou pai
sou filho
vivo em paz e durmo tranquilo
llevo un cartel en la frente:
¡no me vendo, ni me alquilo¡
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o rei morreu! viva o rei!
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eu vou voando pela vida sem querer chegar
nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
vivo, fugindo, sem destino algum
sigo caminhos que me levam a lugar nenhum
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[áudio oficial de de roberto carlos.]
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lembrei do rei porque, cinco anos atrás, no almoço de 27 anos do matheus, irmão da vivi, meu eterno «cunhado», comentei sobre um documentário que tinha acabado de assistir sobre schumacher. a conversa foi passando por senna, piquet, lauda, barrichello, até chegar em james hunt — meu ídolo máximo na fórmula 1. campeão mundial de 1976, o britânico morreu jovem, aos 45 anos, vítima de um infarto fulminante. um desfecho quase inevitável para quem viveu uma vida acelerada e cheia de excessos, mas em que nunca faltaram nem coragem nem talento.
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vida que segue
em 1976, james hunt venceu dez corridas e levou a melhor num épico duelo com o austríaco niki lauda. a rivalidade entre os dois pilotos, de personalidades tão diferentes, foi marcante a ponto de virar filme de hollywood.
assista ao trailer de «rush, no limite da emoção»
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[o doc é situado na era dourada da fórmula 1, e conta a emocionante história de dois dos maiores rivais que o mundo já viu — james hunt e niki lauda. acompanhando a vida deles dentro e fora das pistas, rush observa os dois pilotos enquanto eles se esforçam para atingir a máxima resistência física e psicológica, onde não há atalho para a vitória, nem margem para erros. se cometer um erro, você morre.]
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trocando em miúdos
james hunt, assim como vinicius de moraes e outros mais, não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. aliás, vinicius, hunt, guevara, lamarca, sepé, zumbi ... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai...
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falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100
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busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos
[com fotos e letra]
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antes do fim
trabalhei dez anos como instrutor de direção defensiva num cfc que tem como nome senna. há quem diga que desempenhei bem o papel. não duvido. herdei de meu pai, além do nome, o gosto pelo perigo. ando por um fio. o que me move é o desafio. faço o caminho ao contrário. se o vento sopra pra lá, eu ando para cá. se o vento sopra para o norte, eu caminho para o sul. ou seria o contrário? caminhar rumo ao sul é o meu norte.
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foto: eu com meu pai | são luís, 2008
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e a foto do bar? a foto do bar encontrei no perfil de diego gonçalves, filho do aílton, dono do bar. aílton é o de bigode que aparece abraçado a dois homens. nenhum deles é o meu pai. meu pai (grill) aparece na parede, na propaganda eleitoral, junto com meu avô (gastal).
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e o bar? o bar era frequentado por algumas lendas:
zé becker (fabricante dos «únicos» grandes times de botão de acrílico).
zé pereira (pianista da igreja da luz).
maneca da frigideira (da escola de samba general osorio, funcionário do clube brilhante).
sidnei birolho (da baixada do pepino, ponta-direita do xavante. fundador da escola de samba ramiro barcelos).
maico (também fundador da ramiro barcelos).
joãozinho do garbo magazine (fundador da bandalha).
jorginho (estofador, conhecido como «perninha» ou «roberto carlos»)
entre outras lendas,
das quais a principal para mim era o meu pai.
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e diego? diego gonçalves foi candidato a vereador pelo pt em 2024. trabalhou como secretário de governo e assuntos estratégicos na prefeitura de pelotas e, desde abril de 2026, é assessor de relações institucionais do gabinete do prefeito fernando marroni.
diego é alcoólatra. alcoólatra em recuperação. assim como eu. sim, o alcoolismo é uma doença incurável. o alcoólatra que diz ou pensa estar curado, ou quer enganar ou está enganado. em ambos os casos, é possível imaginar o resultado.
explico: não importa o tempo que você está limpo, seja por 1 dia, 1 ano, 10 anos ou 50 anos. o alcoólatra está sempre em recuperação. o alcoolismo é igual a uma vela: quando você para de beber, você apaga a vela. quando você volta a beber, a vela volta a acender no exato ponto em que apagou. ou seja, a vela nos diz quanto tempo nos resta. o que queimou tá queimado... não volta mais. não importa quanto tempo passou.
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falando em tempo...
o tempo passa, vai passar, já passou. os sonhos não envelhecem, nós é que envelhecemos. um outro mundo possível jamais se dará através de nós. never! pode esquecer: o nosso tempo já passou.
as águas estão subindo, estamos atolados da cabeça aos pés. ou nos refundamos ou afundamos. deu pra tudo que limita, que divide, que exclui, que julga, que pré-julga.
saudade de quando éramos potros chucros. hoje somos bois mansos. o tempo passa, vai passar, já passou. já passou da hora de passar o bastão. mas pra quem? pois então, essa é a questão.
«já não há loucos». «são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes».
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falando em rebelde
me lembrei de cb
lembrando de cb
me lembrei de guevara
lembrando de guevara
me lembrei de whitman
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«aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
– eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
a todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.»
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lembrando de whitman
me lembrei de darcy ribeiro
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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»
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lembrando de darcy ribeiro
me lembrei de glauber rocha
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[trecho do doc "glauber, labirinto do brasil", de sílvio tendler. ao final, maria lucia godoy homenageia glauber cantando a bachiana nº 5 de villa lobos.]
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e por aí vai
mas por hoje deu
fico por aqui
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feliz dia dos pais
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carpe diem
bom domingo
