pedaços de um caderno manchado de vinho
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folha – existia o mito de que você bebia muito. você diminuiu?
chico buarque – não era mito não, eu bebia muito. bebia todo dia e bebia coisas fortes. e fui parando, comecei a enjoar, não é nenhum mérito meu não. acho que meu organismo é que foi pedindo água. então hoje eu só tomo vinho, cerveja, e nem todo dia.folha – droga você nunca experimentou?
chico buarque – já experimentei drogas também, experimentei e gostei. mas parei com as drogas ilegais. cocaína, nunca mais. na verdade as drogas nunca foram um problema sério para mim, mas poderiam vir a ser, porque eu tenho uma certa propensão ao vício. sou uma pessoa que cria hábitos; se eu fosse supersticioso seria impossível de tratar. tenho facilidade para criar manias e luto contra isso. a única droga que realmente me afeta hoje é o cigarro, sou um fumante compulsivo, então procuro me disciplinar. isso poderia ter acontecido em relação ao álcool, ter virado um alcoólatra, e talvez tenha chegado perto. consegui, por algum motivo que não é tanto disciplina, poder beber socialmente, de vez em quando. mas ainda assim, se eu entro numa temporada de shows, tenho que tomar vinho.
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vinicius de moraes, o poeta da paixão
ao longo de quase toda a vida, vinicius teve como médico preferido o futuro escritor pedro nava. a relação entre ambos misturou sempre doses sensatas de trato profissional e amizade profunda. um episódio é emblemático: uma tarde, o poeta lhe telefona com voz ansiosa: «preciso vê-lo com urgência», implora. «que tal nos encontrarmos por dez minutos na esquina da paula freitas com a barata ribeiro?», sugere.quando o médico desembarca do táxi, vinicius já está postado na esquina, com ar apreensivo. entram num bar e nava pede dois cafés. «afinal, o que você está sentindo?», pergunta. «esse é o problema, nava. estou muito preocupado porque há muito tempo não me sinto tão bem.» o médico, confuso, engole em seco. temendo não ter entendido direito, insiste: «é só isso?» «e você acha pouco? para mim, isso é o prenúncio de alguma coisa muito ruim. por favor, preciso que você me sugira alguma coisa». nava dá outro gole no café. «alguma coisa de que tipo?» vinicius é definitivo: «alguma coisa que impeça que eu fique doente.»vinicius, um médico frustrado que sempre se dedicou à arte perigosa da automedicação, cultivou desde cedo uma relação bastante particular com seus médicos. nava se acostumou aos telefonemas em que ele, ao invés de expor dúvidas e questões próprias de um paciente, invertia as posições e simplesmente anunciava: «não estou nada bem. quero ser internado imediatamente.» nessas horas, já trazia o diagnóstico e o método de tratamento, e o médico servia apenas como avalista. muitas vezes, no entanto, vinicius tinha alguma razão em seu pedido. sabia quando estava bebendo demais e, num movimento de autodefesa, sabia também que só com uma internação poria um freio naquilo que, sozinho, não conseguiria. mudava-se, então, de malas e bagagens, para a clínica são vicente, na gávea.
josé castello, p. 404 e 405.
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vinho de mim mesmo
minha primeira internação por alcoolismo foi em 1992, eu tinha apenas 27 anos e já havia contraído hepatite duas vezes, uma delas diagnosticada como hepatite alcoólica aguda. na época, um médico amigo meu me disse que, seguindo naquela levada, eu morreria de cirrose hepática antes dos 30. fiquei um mês numa clínica de reabilitação, fazendo tratamento de desintoxicação, atendido pelos melhores médicos, psicólogos e psiquiatras e, mesmo com tudo isso, poucos dias após receber alta, eu recaí. o(s) motivo(s)? não sei. mas devia tê-lo(s). se não o(s) tinha, o(s) inventei. imaginação e criatividade nunca me faltaram. a verdade é que, quando um não quer, não adianta todos insistirem. desiste! nem mesmo deus conseguiria.depois dessa, tive mais três internações, e nada, tudo como dantes no quartel de abrantes. até que um dia, conheci a vivi, e tudo mudou. qual o segredo? não tem segredo, é tudo muito claro: ela nunca fez força pra eu mudar, ela me amava como eu sou. que seja infinito enquanto dure — quando deixamos de nos amar, o que era infinito, findou.traduzindo: «eu sou assim / quem quiser gostar de mim / eu sou assim»pulando de paulinho da viola para silvio rodríguez, uma das músicas dele que eu mais escuto — e amo de paixão — é de la ausencia y de ti, velia. ela foi inspirada em uma mexicana que foi um dos grandes amores de silvio.no auge do meu alccolismo eu escutava muito essa canção. hoje, mesmo puxando pela memória, não me lembro em que ou em quem eu pensava.lembrei de velia agora, pois cruzei há pouco no face com uma matéria que conta a história da canção. nela, foi feita a transcrição de uma carta de silvio para uma de suas suas grandes paixões da época. havia outras. sempre há. no mundo das paixões é assim e sempre será... ojalá...
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havana, abril de 1969
velia,hoje é a primeira noite que não te vejo. quando acordei você já havia saído, já estava em sua casa. isso me deu uma sensação estranha. foi como perder você em um sonho. eu tinha ido dormir tarde, muito tarde; parece que queria enfrentar a noite, ou algo assim. de qualquer forma, foi difícil, você sabe.sua ausência não me deprime. mas não posso lembrar de você sem pensar no quanto você se sente desconfortável nessa sociedade que está desmoronando, nessa caricatura de mundo que nos tocou viver. sei que você não se sente bem onde está. isso me incomoda, eu gostaria de estar aí, como num conto de fadas, de capacete e tudo para te resgatar, ou viver acordado, não dormir nunca mais, você sabe.agora o que importa é que você me receba em cada palavra, em cada frase; que me sinta ao seu lado, junto de você, presente nos poucos sorrisos verdadeiros e em todas as adversidades.o importante é que você nunca esqueça o que viu aqui, que não se deixe hipnotizar pela rotina daí, que cada armadilha do meio em que vive e cada preconceito se tornem um incentivo para a sua rebeldia.você não está sozinha. você tem o meu país, a memória dele como uma possibilidade real de construir um mundo mais justo e fraterno.você tem a tenacidade e a esperança de todos os jovens que conheceu aqui, as canções grandiosas de vicente e noel, as denúncias de pablo, os ruídos da vida de pancho e yoyi e todas as noites em que pudemos ver o nascer do sol sorrindo.você tem a possibilidade de ir além das minhas palavras. você tem a mim, que continuo te buscando.não desista de querer vir, por favor.
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ahora sólo me queda
buscarme de amante
la respiración,
no mirar a los mapas,
seguir en mí mismo,
no andar ciertas calles,
olvidar que fue mío
una vez cierto libro
o hacer la canción
y decirte que todo está igual:
la ciudad, los amigos y el mar,
esperando por ti.
hoy quisiera ser viejo
y muy sabio
y poderte decir
lo que aquí
no he podido decirte:
hablar como un árbol
con mi sombra hacia ti,
como un libro salvado del mar,
como un muerto que aprende a besar
para ti,
para ti,
para ti.
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(silvio rodríguez, 1969)
auditorio municipal villa de vallecas
concierto de barrio en madrid
4 de mayo de 2016
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hoje, depois de cair dez vezes e me levantar vinte, quando escuto de la ausencia y de ti, não penso em velia, penso em rosana, a seguinte.
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outra música de silvio que eu amo de paixão — e acho que pouca gente conhece — é rosana, lançada no álbum «descartes», um trabalho feito só com faixas que tinham ficado de fora de discos anteriores.o nome rosana vem do latim roseanus e significa, de certa forma, «aquela que é como a rosa». evoca uma mulher que, por temperamento, guarda seus segredos e protege sua intimidade. e é justamente esse mistério que desperta a curiosidade de quem está ao seu redor.mas, para silvio, rosana não é uma pessoa de carne e os-so. é um ser imaginário. não tem a ver, necessariamente, com alguém de sua vida; pode ser qualquer coisa — uma ilha, por exemplo. e por que não a ilha de cuba, ou a nova ilha da utopia? o próprio silvio diz que ela lhe parece «uma música completamente curva, para não dizer ambígua, que é um termo meio mal visto no mundo — politicamente correto — da retidão. se eu contasse por que a fiz, estaria mentindo, exceto pela homenagem ao velho [francisco] repilado, algo que nem o mais reto, mais «politicamente correto» dos seres humanos questionaria. mas a verdade é que não sei por que a fiz, embora sinta que ela fala de coisas no feminino, como a incompreensão, a esperança, a utopia e a solidão».entendedores entenderão, eu acho.
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a compay segundo
paris, 1997
ya te estoy recordando, rosana,
aunque no te hayas ido.
el lucero que brilla mañana
es lo que te he querido.
ya te estoy recordando, elegida,
como un reo en la sombra
resucita el color de la vida,
lo acaricia y lo nombra.
ni un centavo te cuesta este beso,
pues mi alma lo paga.
sólo espero lo mismo por eso,
hasta el fin de la saga.
cuando escriban la vida los buenos,
al final vencedores,
se sabrá que no usamos veneno
como aroma de flores.
brotará de la sangre ternura,
inocencia y espejos
donde irán a correr travesuras
nuevos niños y viejos.
servirá de señal cada huella
de las horas felices.
se sabrá tanto de las estrellas
como de cicatrices.
y el camino que emprendas, rosana,
será mejor a veces,
porque en otros momentos, cubana,
tú llorarás con creces.
ya te vas. yo me quedo y no atino
a saber qué ha pasado.
sólo sé que, por causa o destino,
ya no estás a mi lado.
outra música de silvio rodríguez que eu amo de paixão — e que é pouco conhecida — é judith, faixa que faz parte do álbum duplo érase que se era, lançado em 2006.é uma canção de 1969, composta um pouco antes de silvio embarcar no navio pesqueiro playa girón — provavelmente no final de julho ou começo de agosto daquele ano.a música nasceu para judith lewis, uma jovem pintora norte-americana que passou uma temporada em cuba e que, em algum momento, teve que retornar ao seu país. judith tinha um talento especial para as artes e morou em cuba em 1969, época em que seu pai, o antropólogo oscar lewis, trabalhava na ilha. silvio, recém-saído da adolescência, pedia insistentemente a ela que cuidasse de suas estrelas.
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no puedo dejarte de ver
arañando el silencio con tus ojos,
tratando de decir algo que las palabras
nunca hubieran dicho mejor.
aquella mirada era el resumen
de la noche posado en tus ojos,
con su lluvia, su viento y tu miedo al mar
de aquel sueño que te conté.
no puedo dejarte de ver
describiendo una estrella descubierta por mí
en tu erótica constelación, que no cabe
en los mapas del cielo.
tu mano, dibujando en el aire,
era capaz de ponerle color
al espacio vacío, que se llenaba
con la luz de la estrella brillante.
cuida bien tus estrellas, mujer,
cuida bien tus estrellas, mujer,
cuida bien tus estrellas, y que nunca las pierdas.
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(silvio rodríguez, 1969)
(com letra e imagens)
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e ojalá?
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com a palavra, o autor:
«eu compus ojalá para uma mulher chamada emilia sánchez, que foi, sem dúvida, o meu primeiro amor. a gente se conheceu quando eu tinha 18 anos e estava no exército, fazendo o serviço militar. foi o meu primeiro amor importante, daqueles que ensinam coisas para a gente. ela era muito mais evoluída do que eu, muito mais inteligente e culta. foi ela quem me apresentou césar vallejo, por exemplo.depois, a vida nos separou. ela estava cursando medicina e, bem... a coisa não andou, não deu certo. nem sei por que ela foi estudar medicina, uma loucura dela, porque na verdade a praia dela sempre foi a literatura. mais tarde ela acabou mudando para letras e voltou para camagüey, a terra natal dela, para estudar. eu fiquei sozinho aqui em havana, completamente desolado.os anos se passaram, mas a lembrança daquele amor tão bonito, tão produtivo, tão útil — veja bem, útil no sentido de enriquecedor, que soma na vida da gente, não algo utilitário —, aquela ideia virou quase uma obsessão para mim. e como foi um amor frustrado, interrompido pelas circunstâncias da vida, e não porque o sentimento tinha acabado, ela virou uma espécie de fantasma. por isso compus essa música, talvez num momento de delírio, de arrebatamento, com um sentimento meio desmedido: ojalá isso, ojalá aquilo...»
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ojalá que las hojas no te toquen el cuerpo cuando caigan
para que no las puedas convertir en cristal
ojalá que la lluvia deje de ser milagro
que baja por tu cuerpo
ojalá que la luna pueda salir sin ti
ojalá que la tierra no te bese los pasos
ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones
ojalá que la aurora no dé gritos que caigan en mi espalda
ojalá que tu nombre se le olvide a esa voz
ojalá las paredes no retengan tu ruido de camino cansado
ojalá que el deseo se vaya tras de ti
a tu viejo gobierno de difuntos y flores
ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.
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(silvio rodríguez 1969)
(en vivo en argentina)
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notas
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emilia sánchez, musa de silvio rodríguez em várias canções, atualmente é professora de filologia na universidade de camagüey.
♦filologia é a ciência que tem como objetivo estudar uma língua através de textos escritos.♦
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