sexta-feira, 21 de agosto de 2026


milho aos pombos

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«o que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme.»

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«tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. ou a ausência deles. duvida? quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.»

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ambas as frases são de joão guimarães rosa

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sextou

criança pé no chão brinco o dia inteiro

jovem olhos escuros não à escola

adulto ponto batido moinhos de vento

idoso mão na terra escuto a planta

e depois faz o quê?

canto a mim mesmo

e você?

grill

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mas em que mundo tu vive?
por josé falero
29 junho 2021

como não estava a par das circunstâncias nas quais meu primo havia abandonado o trabalho logo após o primeiro dia, resolvi perguntar:

— por que tu largou fincado do trampo lá, meu?

vem ao caso comentar que eu era parte interessada no assunto. com a saída dele, convidaram-me para substituí-lo, e não me senti inclinado a recusar, uma vez que estava desempregado havia já alguns meses. antes de ir aceitando, contudo, achei que valia a pena tentar descobrir se o motivo de sua evasão, na véspera, não colocaria também a mim mesmo para correr, no dia seguinte.

— tu quer mesmo saber qual é a cena? — começou ele. — então eu vou te dar a real: aquilo de lá é uma bomba, mano! a maior bomba!

— veja!

— mas! te liga só: o alemão lá não manda eu e o michel destruir um senhor casarão, só com um martelinho cada um?

— não creio!

— tô te falando!

— tá, e marreta? já não inventaro marreta?

— aí que eu te falava, sangue bom. é ou não é pra largar fincado? mas o pior tu nem sabe.

— tem mais?

— ô! tamo lá, eu e o michel, tirando só lasca dos tijolo maciço com aquelas porra daqueles martelinho, fritando no olho do sol, lavado de suor, daí me chega aquele filho da puta daquele alemão e fica só na volta, só olhando, que nem um peru. nós louco de fome, louco de sede, louco de cansado, louco de tudo, e ele ali na volta, bem belo, com um caldo de cana bem gelado numa mão e um pastel bem quentinho na outra, e nós só sentindo o cheiro.

— não creio!

— tô te falando! depois disso, ah!, se eu te contar, aí é que tu não vai crer mesmo. acaba o dia (claro que não fizemo nem cosquinha no casarão, tu imagina, cada um com uma porra dum martelinho!), lá vou eu me explicar pro homem: «tu vê, né, chefe, não deu pra fazer muita coisa, porque sem marreta fica ruim, mas mais uns três dia, quatro dia no máximo, o casarão já era, pode ficar descansado». o alemão, no maior desplante, me olha e me diz: «não, não, tudo bem, tudo bem, nem esquenta, nem esquenta. amanhã vem a retroescavadeira e derruba isso aí num minuto. eu só pedi pra vocês irem derrubando pra não ficarem sem fazer nada o dia inteiro hoje». rapaz, mas eu fiquei tão bravo, mas tão bravo! pedi o dinheiro do dia e já dei a letra: “ô: amanhã, nem me viu! o senhor ouviu bem? nem me viu!».

não demorei a me dar conta de que aquela era uma conversa inútil. com um extenso histórico de fugas semelhantes, que inclusive lhe rendera o apelido de seu madruga, meu primo não chegava a ser exatamente flor que se cheirasse. podia ter razão naquela história, mas também podia não ter: sua versão dos fatos não era a melhor base possível para eu tentar decidir se aceitava substituí-lo ou não. ademais, eu não estava em condições de sair por aí recusando propostas de emprego. longe disso, para falar a verdade. a fome já despontava em meu horizonte, e mesmo que o trabalho de fato fosse o quadro do terror pintado por meu primo, eu tinha obrigação de pelo menos tentar suportar o suplício pelo maior tempo que pudesse.

no dia seguinte, sacolejando dentro do ônibus lotado, lá íamos nós, eu e o michel, que, segundo meu primo, havia baixado a cabeça, isto é, havia se conformado com a situação supostamente desfavorável.

— é, meu primo não ficou lá muito contente com esse trampo — comentei, na esperança de ouvir do michel uma interpretação menos medonha dos acontecimentos.

— só se o teu primo fosse louco pra ficar contente — sorriu ele, com o bom humor que lhe era característico.

— então é uma bomba mesmo?

— è um caralho voador, aquilo de lá! deus que me perdoe!

ri da expressão «caralho voador», que para mim era nova. em seguida, perguntei se procedia a história de destruir um casarão de tijolos maciços com martelos.

— sim! o alemão lá é ruim, meu. teu primo ficou putaço. ficou puto até comigo, pra tu ter uma noção.

— ué! contigo? por quê?

— porque o alemão pediu pra gente ficar trampando até seis e meia…

— seis e meia? — interrompi-o, assustado.

— seis e meia, sem cuspe nem nada. tô te falando que o cara é ruim. daí, quando passou das seis hora, nós lá, os dois podre, os braço pura câimbra de ficar martelando aquelas porra daqueles tijolo maciço, eu comecei a cantar, só pra viajar: «são seis horas e dez minutos, já rezei minha ave maria».

tornei a rir. era impossível ficar perto do michel sem dar pelo menos uma risada a cada minuto. mas, ao mesmo tempo, compreendi que meu primo tivesse se irritado com ele: quando se está amofinado, as piadas costumam surtir efeito contrário.

— e é verdade que, no fim, esse tal de alemão disse que uma retroescavadeira ia derrubar o casarão?

— sim, sim. essa aí foi a gota d’água pro teu primo. porra, tu tinha que ver que engraçado que foi os dois discutindo! o teu primo, bufando: «mas que loucura é essa? se a máquina vai derrubar o bagulho, passei o dia martelando essa porra pra quê? sou palhaço, por acaso?». e o alemão, com aquela voz anasalada dele: «vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? vocês já tavam aqui, eu ia ser obrigado a pagar o dia de vocês de qualquer jeito, e não tinha outra coisa pra fazer. tu achou que eu ia te pagar pra passar o dia sentado, é?».

ri mais uma vez, com vontade redobrada. o michel reproduzindo a fala do tal alemão, imitando à perfeição aquele portoalegrês anasalado dos brancos endinheirados da cidade, era algo digno de aplausos.

nem bem chegamos ao local da obra, vi que havia, no flanco esquerdo do terreno, um amontoado de cacarecos: colchões, cobertas, roupas, latas, bancos, tudo imundo e sem a mínima condição de uso.

— e esses bagulho?

— é dos mendigo.

— que mendigo?

— morava uma pá de mendigo nesse casarão, porque tava abandonado. no primeiro dia, tivemo que mandar todo o mundo embora. o que eles pudero carregar, carregaro, mas agora o alemão não deixa eles entrar pra pegar o que ficou pra trás. vai ir tudo fora.

— porra, esse tal alemão é ruim mesmo.

— tô te falando. nas esse lance não é coisa dele, na real. ele é só o encarregado da obra, arquiteto, engenheiro, sei lá. a dona mesmo, pelo que eu entendi, é uma outra alemoa, que aparece aí de vez em quando, e foi ela que falou que não era pra deixar os mendigo voltar pra pegar os bagulho.

começamos a trabalhar. cavamos, carregamos, martelamos, serramos: tudo debaixo de sol forte, porque não havia uma minúscula sombra sequer no terreno inteiro. para piorar, a água do local ainda não fora ligada, de maneira que, após o almoço, quando a tarde ia a meio, já não aguentávamos mais de sede.

— olha lá a mulher regando as planta. vamo lá com uma garrafinha e vamo pedir um pouco d’água.

tivemos que abandonar o trabalho por um instante para procurar garrafinhas de refrigerante ou qualquer coisa assim, que alguém eventualmente houvesse jogado fora. em seguida, já de posse dos recipientes, nos aproximamos da vizinha da obra, que regava distraidamente suas samambaias.

— boa tarde, tia. será que a senhora consegue um pouco d’água?

ela nos olhou de cima a baixo, de baixo cima, e disparou:

— não.

incapaz de acreditar naquela categórica negativa, imaginei que a mulher talvez tivesse entendido errado.

— só um pouco de água, nessas garrafinha aqui, ó. claro que não queremo usar a água da senhora na obra.

— não — repetiu ela, ainda mais categórica.

voltamos com o rabo entre as pernas, rindo de nossa própria desgraça. e o michel, ciente de que, entre suas palhaçadas daquele dia, eu gostara particularmente de vê-lo imitando o alemão, tornou a entrar no personagem.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que a água é de graça, é?

para nossa sorte, havia um supermercado na outra esquina, e o michel tinha trazido consigo uns trocados, que deveriam bastar para comprar uma garrafinha de água mineral. para nosso azar, os seguranças do supermercado não nos deixaram entrar, alegando que constrangeríamos os clientes, por estarmos muito sujos.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que pode entrar nos lugares assim, parecendo um indigente, é?

e o resto do dia não foi melhor. o tempo arrastou-se como nunca antes, cada minuto parecendo durar um mês inteiro, na medida em que íamos experimentando infortúnio após infortúnio. a cereja do bolo foram os sacos de cimento. trezentos sacos de cimento, para ser preciso. tínhamos passado a tarde inteira esperando chegar a carreta que os traria, engolindo a vontade de chorar que nos assaltava só de imaginar que teríamos de carregá-los um a um até um canto adequado, e quando por fim o relógio marcou seis e meia da tarde, sem que houvesse o menor sinal da carga, fomos ingênuos o bastante para nos deixarmos arrebatar pelo alívio de termos escapado pelo menos daquilo. trocamos de roupa, usamos a saliva e o polegar parar remover dos braços uma ou outra sujeira mais grossa e tentamos disfarçar nosso bodum com desodorante. tão logo estávamos prontos para ir embora, a carreta chegou.

desnecessário comentar que nem por um segundo passou pela cabeça do alemão mandar a carreta ir embora e voltar no dia seguinte; ao contrário, bastou o veículo aparecer e buzinar, lá estava ele, com a maior boa vontade do mundo, fazendo as vezes de flanelinha.

— isso, estaciona aqui, pode vir, pode vir mais, isso, vem, vem, mais um pouco…

tornamos a colocar as roupas de trabalho e nos pusemos a descarregar a carreta, levando saco de cimento após saco de cimento até o local que o alemão achara melhor: do outro lado do terreno, exatamente no ponto mais afastado possível de onde a carreta tinha estacionado.

o leitor por acaso já carregou cimento? há algo curioso a respeito disso: quanto mais sacos se carrega, tanto mais parece pesar cada um deles. quando chegamos ao saco de número duzentos, a dor permanente que havia se instalado em nossas costas era o de menos: nossos joelhos, a essa altura, pareciam ter adquirido vontade própria, e de vez em quando, num passo ou outro que dávamos com o acréscimo de cinquenta quilos no ombro, ameaçavam se dobrar sob o peso extra, de tal modo que precisávamos fazer esforço para não cairmos de quatro no chão.

numa das ocasiões em que eu ia levando um saco e meus joelhos vacilaram brevemente, o michel, que cruzava comigo naquele preciso instante, bem no meio do terreno, já retornando com o ombro livre após largar seu saco lá do outro lado, tentou me fazer rir, para que eu perdesse as forças de vez e acabasse de quatro no chão: parou onde estava, colocou as mãos nas cadeiras e se empertigou todo, dizendo:

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu tá morrendo pra carregar esse saco de cimento, é?

até hoje imitamos aquele alemão, nas mais variadas circunstâncias. eu, por exemplo, tenho ímpetos de imitá-lo quando aparecem os progressistas de meia tigela, os intelectuais de araque, que não sabem da missa a metade, que não fazem a mais vaga ideia do que as pessoas sempre passaram em porto alegre e que se surpreendem com o fato de a ascensão fascista dos últimos tempos ter sido amplamente apoiada na capital gaúcha, só porque era aqui que aconteciam as cirandas do fórum social mundial.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu acha que uma cidade vira fascista da noite pro dia, é?

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falando em «cirandas»...

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vai trabalhar, vagabundo
vai trabalhar, criatura
deus permite a todo mundo
uma loucura

link

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clipe exclusivo
hamilton de holanda com participação de chico buarque.

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isso tudo acontecendoe eu aqui na praça
dando milho aos pombos

link

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legendado / ao vivo

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antes do fim

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«uma pessoa que passa a vida toda, todos os dias, dez horas no trabalho, acaba por sentir-se indispensável aos propósitos da organização, da empresa e do negócio. se dispõe de tempo para si, não sabe como usá-lo.»

domenico de masi

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bem-vindo meu filho, bem-vindo à máquina
onde você esteve?
está tudo bem, nós sabemos onde você esteve
você esteve nos subterrâneos, passando o tempo
provido de brinquedos e coisas de garotos
você comprou uma guitarra para punir sua mãe
e você não gostava da escola,
mas sabe que ninguém é tolo
então, bem-vindo à máquina

link

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[legendado em português]

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de volta ao começo

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada cheia de dentes
esperando a morte chegar

[com ilustrações e letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas