quinta-feira, 20 de agosto de 2026


soneto de fidelidade

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«quem salta para o vazio,
não deve explicações àqueles que ficam apenas observando.»

jean-luc godard

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a arte conhecer a si mesmo

querer o menos possível e conhecer o mais possível, eis a máxima que conduziu minha trajetória de vida. pois a vontade é o que há de mais comum e de pior em nós.

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portanto, não posso me afligir ao pensar que me faltam coisas que fazem parte da trajetória normal de um indivíduo: emprego, casa, jardim, esposa e filho.

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o instinto, que é próprio a todos aqueles que têm objetivos intelectuais, também se tornou um guia seguro para mim, de forma que deixei de lado os interesses pessoais e tudo concentrei em minha existência espiritual. por isso também o fato de a trajetória de minha vida parecer desconexa e destituída de plano não pode me surpreender: ela se assemelha ao acompanhamento na harmonia, que igualmente não pode conter em si nexo algum, visto que serve apenas de fundo para a voz principal, na qual se encontra o nexo.

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as coisas de que necessariamente sou privado em minha vida pessoal me são compensadas de outra maneira, ao longo do tempo, pelo pleno gozo do meu espírito e empenho em favor de sua orientação inata; de fato, se as possuísse, não as fruiria, e ser-me-iam até mesmo impeditivas.

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para um espírito que doa e realiza por si mesmo aquilo que nenhum outro pode da mesma forma doar e realizar, e que justamente por isso subsiste e perdurará – seria ao mesmo tempo cruel e insano querer forçá-lo a fazer outras coisas, ou mesmo atribuir-lhe tarefas obrigatórias, afastando-o do seu dom natural.

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já nos primeiros anos de minha juventude, notei que enquanto todas as outras pessoas aspiravam a bens exteriores, eu não me dirigi para tais bens, pois trago em mim um tesouro infinitamente mais valioso do que quaisquer bens exteriores; trata-se apenas de desenterrá-lo, para o que as primeiras condições são formação espiritual e ócio total, portanto, independência.

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ofício algum no mundo, nenhum cargo de ministro ou de governador me indenizariam pela perda de meu ócio livre, privilégio que me veio de família.

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em todas as situações da vida em sociedade, um homem como eu, sobretudo na juventude, sente-se continuamente como alguém que usa roupas que não lhe servem.

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nos súbitos ataques de insatisfação sempre reflito sobre qual o significado de um homem como eu viver toda a sua vida dedicando-se ao desenvolvimento de suas aptidões e vocação inata, e como milhares se colocaram contra um, dizendo que isso não levaria a nada, e que eu seria muito infeliz. mas, se de tempos em tempos me senti infeliz, isto ocorreu mais devido a uma «méprise», a um equívoco em relação à minha pessoa, visto que me tomei por um outro e não por mim mesmo, e, assim, lastimei o
tormento.

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arthur schopenhauer. páginas 1, 2, 3 e 9.

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nirvana

sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a carolina do norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
o cozinheiro dizia
coisas malucas.
o lavador de pratos,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
agradável.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.

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[legendado em português]

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ao vento

estou há exatos três meses na cidade. eu, cinco cachorros e duas gatas. sabia que seria difícil. mas sabia, também, que era preciso resistir.

(abro parênteses: chove sem parar no rio grande do sul. eu resisto, tu resistes, ele resiste, nós resistimos, vós resistis — mas e eles, os que não têm o que nós temos, resistem como? fecho parênteses)

para não cair em tentação, valeu-me a mão de pessoas tão caras quanto raras. não preciso nominá-las: elas sabem quem são.

sabia que, vencida a primeira curva, o que estava escuro clarearia e que daí em diante a estrada se abriria e seria mais leve a travessia.

grill

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e as paralelas dos pneus na água das ruas
são duas estradas nuas em que foges do que é teu
no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
grito quando o carro passa: teu infinito sou eu
sou eu, sou eu, sou eu

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[vídeo não oficial]

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interview

não é nenhum incômodo
explicar-lhe o que penso do infinito
o infinito é
simplesmente
um rude vento frio
que arrepia as mucosas
a pele
e as metáforas
e nos põe nos olhos
lágrimas de rotina
e na garganta um nó
de sortilégio
seguramente você já se deu conta
que no fundo não creio
que exista o infinito.

benedetti

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o infinito é uma abstração
mas a abstração pode ser arte

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e assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama

eu possa me dizer do amor (que tive)
que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure

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[tom e vincicius ao vivo]

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telas: edward hopper

nighthawks, 1942

cobb's barns and distant houses, 1930–1933.

gas, 1940

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas