mais uma pra estrada
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«ele não tem onde pôr a cabeça, mas consegue se sentir em casa em qualquer lugar.»
bob dylan
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«nada é mais útil ao homem do que o próprio homem; os homens não podem desejar nada de melhor, para conservar o seu ser, do que concordarem todos em tudo, de modo que as mentes e os corpos de todos formem como que uma só mente e um só corpo.»
baruch espinosa
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«se essa seca durar mais um mês
vou-me embora para o paraguai
vou de muda para o maranhão»
vou-me embora para o paraguai
vou de muda para o maranhão»
nei lisboa
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no início dos anos 80, quando meu pai nos levou para o maranhão, passei uns meses em são luís e logo fui para turiaçu, quase fronteira com o pará. levei na mochila livros e erva para o chimarrão. passei não lembro exatamente quanto tempo lá, mas foi o suficiente pra aprender muita coisa do que hoje eu sei. manejo de tratores, por exemplo, não sabia nada. o pouco que sei aprendi lá. acho até que me saí bem. afinal, quando chovia — e na fronteira do maranhão com o pará chove bem —, havia trechos na estrada onde ninguém passava que só eu passei. turiaçu — fogueira grande em tupi-guarani — era quase uma terra sem lei. eu estava onde queria e fazia o que queria. muito mais que dinheiro, buscava farra e forria. um belo dia, no entanto, cansei. e viajar, viajei.
não quis ser o melhor
sossego trago de longe
não sou louco, poeta
nem sou profeta ou monge
mas viajar, viajei
viajar, viajei...
em 1995, com 30 anos, fui para a estrada pedir carona para assistir a uma cantoria de almir sater, em porto alegre. na época, o américas recém começava, e eu ainda não sabia até onde aquele programa de rádio me levaria. hoje eu sei: ele me trouxe até aqui e ainda pode me levar além.
cantei ao velho peão
fiz versos pra burguesia
e de quando em quando
o dono das terras falava
fique, violeiro
pois tem dinheiro e pousada
e eu viajar, viajei
viajar, viajei...
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ontem, dia dos pais, convidado por uma irmã de alma, saí da casa dos aedos e fui comer um assado e me encontrar com amigos. cheguei, cumprimentei a todos, me oitavei no balcão e por ali fiquei. tava tudo uma maravilha: a carne, a maionese, as charlas, as gentes, o ambiente. enfim, fui muito bem recebido, como sempre.
mas, como eu ia dizendo, me oitavei no balcão, pedi uma água mineral com gás e ali fiquei, mais ouvindo do que falando. lá pelas tantas, como o assunto se proporcionou, comecei a contar uma história minha — que tinha a ver com dois dos três participantes da roda na qual eu me encontrava. comecei, mas não terminei, pois quando estava na metade da minha, um deles se lembrou de uma história dele que era melhor que a minha, e o outro se lembrou de outra e de mais outra; e eu fiquei ouvindo, esperando a minha vez para voltar a contar a minha. normal. afinal, eles estavam no chopp e eu na água mineral. não demorou muito, a vez chegou: um deles olhou pra mim e se lembrou de um hippie; o outro, de espinosa. e eu pensei, cá comigo, nada como ter amigos.
afinal, a história que eu comecei a contar lá e não terminei, eu já a havia contado aqui. e a história que estou contando aqui agora tem a ver com as histórias que ouvi lá.
senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.
foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. lar de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.
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mais um café para a estrada,
mais um café antes de partir,
para o vale profundo.
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#américas
