somos um bando e muitos outros
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«grandes pinturas não deveriam estar em museus. museus são cemitérios. pinturas deveriam estar nas paredes das ruas, em estações de trens, em mictórios...»
bob zimmerman
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recordar é viver
algum tempo atrás, numa postagem minha no facebook, na qual eu falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:
«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
resposta minha:
«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim de infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»
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como nossos pais
que me desculpem os «velhos de espírito»
mas não são as rodas de ciranda
nem os jardins de infância
que têm que acabar
o que tem que acabar são os «museus»
grill
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velha roupa colorida
diferente do que muitos de nós, da esquerda, pensamos
não somos santos
muitas vezes nos atrapalhamos,
nos enredamos
seres humanos que somos.
nem sempre nos amamos,
muitas vezes nos odiamos
nós, da esquerda
somos mais justos
mais solidários
mais fraternos
somos mais livres
mais humanos
mais inteligentes
nós, da esquerda
não somos nada disso
quando em nome disso
traímos tudo isso
(idem)
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«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva
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«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)
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que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia
que fim levaram todas as flores | joão ricardo (1974)
(homenagem aos que tomaram posição contra a ditadura militar)
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31 de março de 1964
nunca entendi esse dia
(agora entendo)
quando os tanques tomaram as ruas do rio e de brasília, jango ainda estava no país. mesmo assim, ninguém foi capaz de atirar uma pedra, nem uma pedra, uma pedra, simbólica que fosse, contra os tanques. brizola queria armar a resistência a partir de porto alegre, como havia feito em 61. jango foi contra. apesar da insistência de brizola, jango seguiu para o exílio no uruguai. na real, antes mesmo de jango deixar o país, o presidente do senado, auro de moura andrade, já havia declarado vaga a presidência da república.
o dia que durou 21 anos
(trailer)
500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança
200 mil detidos por suspeita de subversão
50 mil presos só entre março e agosto de 1964
11 mil acusados em inquéritos das auditorias militares
dezenas de milhares de pessoas torturadas
10 mil brasileiros exilados
4.862 mandatos cassados
1.148 funcionários públicos demitidos
6.592 militares reformados ou punidos
(por defenderem a constituição e se oporem ao golpe de estado)
1.202 sindicatos sob intervenção
congresso nacional fechado por três vezes
sete assembleias estaduais postas em recesso
censura prévia à imprensa e às artes
434 mortos
243 desaparecidos
não esqueço, não perdoo
éramos muitos. mas não foram muitos os que se entrincheiraram.
foram poucos os que levantaram barricada.
viva lamarca! viva mariguela!
viva dandara! viva zumbi! viva sepé!
viva os que caíram e morreram de pé!
onde estávamos? que fazíamos? como dormíamos?
é isso que me dói. sempre me doeu.
custei muito a entender.
agora está tudo muito claro e fácil de compreender.
me dói tudo, não vejo nada.
grill
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«a gente tem um país, mas ainda não tem uma nação»
paulinho da viola
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desilusão, desilusão
danço eu, dança você
na dança da solidão
dança da solidão | paulinho da viola (1972)
.
canta: marisa monte
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desilusões
por luis fernando veríssimo
«desilusão, desilusão…» o samba dança da solidão, do grande paulinho da viola, cantado pela grande marisa monte, seria um fundo musical perfeito para estes estranhos tempos. poderíamos chamá-lo de «leitmotiv» da nossa desesperança, se quiséssemos ser bestas. a desilusão começou quando? dá para escolher. no fim da ditadura que o bolsonaro diz que nunca existiu, quando tancredo ia tomar posse como o primeiro presidente civil em 20 anos, mas os germes hospitalares de brasília tinham outros planos? depois viria o entusiasmo seguido de grande frustração com collor, o breve, tão bonito, tão moderno, tão raso, a desilusão com o pt e a desilusão com os políticos em geral, agravada com as revelações de que até grão senhores da república levavam bola.
por falar em escândalos… o samba do paulinho também tem um verso que, ligeiramente adaptado, nos diz respeito. «quando eu penso no futuro, não esqueço o passado.» se essa eleição presidencial por grande maioria provou alguma coisa é que nosso passado não tem mais nenhuma relevância política. a ditadura foi esquecida, até os generais estão voltando. bolsonaro pode ter razão, a ditadura pode nunca ter acontecido, o golpe de 64 pode ter sido apenas um movimento de tropas, como disse o toffoli.
foi tudo um delírio, vamos esquecê-lo. rubens paiva, stuart angel, vladimir herzog, manoel fiel filho e as centenas de supostos desaparecidos podem voltar. acabou a farsa. e façam suas apostas: o que vai ser esclarecido primeiro, o caso da bomba no riocentro, do qual nunca se ouviu mais nada, ou o caso da marielle, que também não?
publicado originalmente n’o estado de s. paulo.
8 de novembro de 2018.
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aos patrulheiros de plantão
ser esquerdista e criticar a esquerda é algo que a esquerda, em geral, simplesmente não tolera. eu que o diga. por causa de tamanho atrevimento, já fui chamado de fariseu, infantil e golpista. militante de sofá. militante de facebook. fanfarrão, delirante, pessimista, ingênuo, inocente... até de bolsonarista já me chamaram.
em suma, vivo num mundo de fantasia alheio a tudo e não proponho nada.
diferente do que muitos pensam, não fico chateado nem perco o sono com a imagem que alguns fazem de mim. aliás, muito pelo contrário. às vezes, me dá até vontade de rir de alguns «livres-pensadores» e de suas análises rasas.
judas, fariseu, golpista, bolsonarista, quinta-coluna, militante de sofá, rebelde de apartamento, revolucionário de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, bufão, fanfarrão, falastrão, saudosista, ultrapassado, sonhador, idealista, futurólogo, delirante, inadequado, desagradável, inoportuno, inconsequente, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, raso, inútil, azedo...
vale tudo, só não vale me chamar de insensível. insensível é a pessoa que tem dificuldade em demonstrar seus sentimentos.
sinto muito, mas não é o meu caso.
.
a tristeza tava me inundando. saí da frente do pc e fui lavar a louça. mesmo assim, ela continuava — a tristeza, não a louça suja. saí da frente da pia e fui limpar o fogão. botei o arroz e o feijão para cozinhar. sem ter mais o que fazer, comecei a escrever. enquanto eu escrevia, a comida ficou pronta. talvez saciar a fome aplaque a tristeza. talvez...
— mas e quem não tem o que comer, como mata a tristeza?
— cantando, compondo, escutando música.
— mas e quem não tem música? faz o quê?
— vai ler... vai escrever...
— mas e quem não sabe ler nem escrever?
— que tente enganar a morte...
— como?
— como uma pedra que rola...
grill
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a princesa na torre do castelo e toda a gente elegante,
bebendo, achando que estão no topo do mundo,
trocando presentes caros e futilidades afins.
é melhor tirar o anel de diamante, é melhor penhorá-lo, querida.
você costumava se divertir tanto
com napoleão em farrapos e a poesia que ele usava.
vá até ele agora, ele te chama, não dá para recusar.
quando você não tem nada, não tem nada a perder.
você agora é invisível, não tem mais segredo a esconder.
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[legendado em português]
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rolling stone - antes de terminarmos a conversa, quero perguntar sobre a controvérsia a respeito das citações nas suas músicas das obras de outros escritores... alguns críticos dizem que você não citou as suas fontes com clareza. no entanto, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?
bob dylan - ah, sim, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. isso certamente é verdade. é verdade para todo mundo, menos para mim. quer dizer, todas as outras pessoas podem fazer isso, menos eu. as regras são diferentes para mim. se você acha que é tão fácil fazer citações e que isso vai ajudar no seu trabalho, faça isso e veja até onde consegue chegar. reclamões e covardes falam dessas coisas. é algo bem antigo – faz parte da tradição. remonta a um passado bem distante. essas são as mesmas pessoas que tentaram me classificar de judas. judas, o nome mais odiado da história humana! se você acha que já foi xingado de um nome feio, tente imaginar o que é isso.
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bob dylan é chamado de judas
[clique no link acima]
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rolling stone - você considera esse tipo de crítica irrelevante, ou boba?
bob dylan - tento superar tudo isso. de todo modo, não é para essas pessoas que eu toco.
.
rolling stone - mas você certamente já ouviu falar dessa controvérsia específica?
bob dylan - pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho. sempre tem coisa ruim a ser dita a meu respeito. isso acontece há tanto tempo que talvez agora eu não seja mais capaz de viver sem isso. tudo que as pessoas dizem a respeito de você ou de mim, estão dizendo a respeito de si mesmas. estão se entregando. já reparou nisso?
bob dylan - tento superar tudo isso. de todo modo, não é para essas pessoas que eu toco.
.
rolling stone - mas você certamente já ouviu falar dessa controvérsia específica?
bob dylan - pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho. sempre tem coisa ruim a ser dita a meu respeito. isso acontece há tanto tempo que talvez agora eu não seja mais capaz de viver sem isso. tudo que as pessoas dizem a respeito de você ou de mim, estão dizendo a respeito de si mesmas. estão se entregando. já reparou nisso?
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rolling stone - o lado oposto é que também há o público, que ama você de verdade.
bob dylan - claro que sim. eles acham que sim. eles amam a música e as canções que eu toco, não eu.
.
rolling stone - por que diz isso?
bob dylan - porque as pessoas são assim. elas dizem que amam um monte de coisa, mas, na verdade, não amam.
bob dylan - claro que sim. eles acham que sim. eles amam a música e as canções que eu toco, não eu.
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rolling stone - por que diz isso?
bob dylan - porque as pessoas são assim. elas dizem que amam um monte de coisa, mas, na verdade, não amam.
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«o amor é apenas uma palavra de quatro letras»
bob dylan
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agora ofélia, ela está perto da janela
por ela eu temo tanto
em seu vigésimo-segundo aniversário
ela já é uma solteirona velha
para ela, a morte é bem romântica
ela veste um colete de ferro
sua profissão é sua religião
seu pecado é sua falta de vida
desolation row | bob dylan (1965)
[com letra em português e imagens reais]
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«sentir tudo de todas as maneiras,
viver tudo de todos os lados,
ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.»
álvaro de campos
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quanto tempo você tem para incorrer na vida
que pulsa louca no peito, rebentando de vontades, de desejos,
atentando à experiência?
quanto tempo você tem para encontrar nas deformações
a posição exata, e de saber quanto de tempo você tem
pra acreditar em tanta coisa, se levar nos ventos, se livrar dos tentos
e amar como importaria?
quanto tempo você tem para esperar sem garantia
e se curvar a deuses tontos e enlouquecidos pela época?
quanto tempo você tem já bastaria para inverter,
se somar a qualquer grito, a qualquer palavra que explodisse forte no horizonte.
quanto tempo é o que se diz cansados, todos os dias que acabamos na escuridão.
e quanto mais tudo seria, sonhar com uma cantoria
de milhões de bocas por tantas milhas de terra.
e, enquanto se fizesse luta, se saberia:
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
de um bando | bebeto alves (1981)
[bebeto alves e os blackbagual]
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antes do fim,
voltemos ao jardim de infância.
voltemos a falar de filosofia.
— filosofia?
— sim, filosofia.
— mas em 2018, o bolsonaro fechou a faculdade de filosofia. e se o lula não ganhar, ganha o flávio.
— que flávio?
— flávio bolsonaro.
— pois é, que coisa... mas já que estamos falando de filosofia — e filosofia é a arte de colocar ponto de interrogação onde o senso comum põe ponto final —, eu pergunto:
por que o que não era pra ter nascido continua vivo?
voltemos ao jardim de infância.
voltemos a falar de filosofia.
— filosofia?
— sim, filosofia.
— mas em 2018, o bolsonaro fechou a faculdade de filosofia. e se o lula não ganhar, ganha o flávio.
— que flávio?
— flávio bolsonaro.
— pois é, que coisa... mas já que estamos falando de filosofia — e filosofia é a arte de colocar ponto de interrogação onde o senso comum põe ponto final —, eu pergunto:
por que o que não era pra ter nascido continua vivo?
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mais uma
era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos
milongueando uns troços | mauro moraes (1994)
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foto: eu
onde: praça, pelotas, rs
quando: 1990
autor: antonio soler
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américas
