quarta-feira, 23 de setembro de 2026


bruce 77
[na estrada do deserto de nevada] 


meu pai
na minha cidade quando atravessávamos as portas de um bar, entrávamos no reino místico dos homens. nas raras noites em que minha mãe ia procurar meu pai na rua, percorríamos a cidade devagar até parar junto à única porta que ainda estava iluminada. ela apontava e me dizia: «vá lá dentro buscar seu pai.» da minha altura, via apenas o banco e, depois, o rosto, ligeiramente pálido e deformado pelo álcool, me observando em meio à fumaça do tabaco, ao me ouvir pronunciar aquelas palavras já tão conhecidas: «a mamãe quer que você vá para casa.» ele dizia apenas: «vá indo que eu já vou.» então eu saía do bar, ia em direção ao carro e me sentava no banco de trás, dizendo à minha mãe: «ele já vem.»

meu pai não gostava muito de mim. quando era criança, achava que os homens eram assim mesmo, distantes, incomunicáveis, sempre ocupados com o que acontecia no mundo dos adultos. se não falam conosco, é porque não merecemos que nos dediquem esse tempo. se não nos cumprimentam com amor e afeto, é porque não merecemos. se somos ignorados, é porque não existimos. controlar nosso comportamento é a única carta que temos na mão na esperança de modificar o deles. talvez tenhamos que ser mais duros, mais fortes, mais atléticos, mais espertos, melhores em qualquer coisa... quem sabe? certa vez, uma noite, meu pai quis me dar aula de boxe na sala de estar. eu me senti lisonjeado e animado com a atenção dele e queria muito aprender. tudo corria bem. até que ele me deu uns tapas no rosto, com a mão bem aberta e com mais força. doeu. não ficou marcado, mas um limite tinha sido ultrapassado. sabia que ele estava querendo me dizer alguma coisa. tínhamos escorregado para a obscura terra de ninguém entre pai e filho. senti o que ele queria me dizer: eu era um intruso, um desconhecido, um adversário dentro de nossa casa, uma decepção medonha. fiquei com o coração partido e caí sentado no chão. ele foi embora com nojo de mim.
bruce springsteen | born to run - autobiografia, p. 39.


ontem à noite sonhei que era criança lá onde os pinheiros crescem bravos e altos
eu tentava voltar para casa através da floresta antes que a escuridão caísse 
ouvi o vento sussurrando pelas árvores e vozes fantasmas surgindo dos campos 
corri com o coração martelando por aquele caminho quebrado 
com o diabo mordendo meus calcanhares 
cruzei as árvores e ali na noite 
a casa do meu pai se erguia brilhando forte e clara 
os galhos e espinhos rasgaram minhas roupas e arranharam meus braços 
mas corri até cair tremendo nos braços dele 
acordei e imaginei que as coisas duras que nos separaram 
nunca mais senhor iriam nos arrancar do coração um do outro 
me vesti e fui até aquela casa 
lá da estrada eu podia ver suas janelas brilhando em luz 
subi os degraus e fiquei na varanda 
uma mulher que eu não reconheci veio e falou comigo por uma porta na corrente 
contei minha história e por quem eu tinha vindo 
ela disse sinto muito meu filho mas ninguém com esse nome mora mais aqui 
a casa do meu pai brilha forte e clara 
ela se ergue como um farol me chamando na noite 
chamando e chamando tão fria e sozinha 
brilhando através desta estrada escura onde nossos pecados jazem sem perdão

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[legendado em espanhol]

nebraska, 1982

eu tinha uma idade dentro da idade,
uma claridade
que ignorava a escuridão nas coisas.

tudo chegava inteiro.
o céu sem dolo,
a tarde com os dedos sujos de luz,
as pessoas coincidentes com o que diziam.

era estúpida de um modo magnífico.

cria no gesto,
na palavra recém-nascida,
na mão estendida
sem prever o que uma mão faz
quando aprende a fechar.

depois veio a lucidez,
doença cara,
hóspede nos olhos.

passei a desconfiar da fruta antes do gosto,
da carícia antes da pele,
da alegria antes que manchasse o próprio nome.

tudo ganhou forro,
uma película escura sob o visível.

vi o mecanismo
onde antes só havia forma.

tenho saudade daquela idiota.

não da idade,
nem das fotografias,
mas da ignorância feroz
que deixava tocar
sem cobrar o preço depois.

luxo em não compreender.

não sabia das facas invisíveis nas mãos,
das palavras que já nascem com veneno,
da ternura com pontaria de armadilha.

não sabia.
por isso fui feliz sem notar.

agora conheço o avesso.

vejo a fissura antes da queda,
a podridão antes da polpa,
o cálculo no fundo do sorriso.

minha lucidez é ave de rapina,
circula,
desce sobre cada gesto
e arranca o que deveria ficar inteiro.

penso naquela garota
sem ternura,
com inveja.

ela ainda acreditava que céu era céu,
que uma palavra podia ser só uma palavra,
que tocar não era também ferir.

daria tudo para ter de volta
aquela ignorância.

tudo, menos o que precisei perder
para perdê-la.

o obsceno é que
aquela garota continua viva,
num lugar
onde minha lucidez não entra,
de mãos abertas
diante de um mundo que agora me dá nojo tocar.

simone bacelar


conheci uma garota e fomos dar uma volta
eu tinha dezenove anos e ela dezesseis
nós passeamos pelas cidades de nebraska
e quando nossa viagem terminou, dez pessoas estavam mortas
pegue sua arma e venha comigo
vamos dar uma volta pelo estado de Iowa
vou encostar o carro no acostamento
e ver as luzes da cidade brilhando no parabrisa
lá no lincoln county, eles fecharam a estrada
eles me cercaram com a sirene aberta
eles me tiraram do meu carro e me jogaram no chão
e me disseram que eu não iria a lugar nenhum
eles me perguntaram por que fiz o que fiz
disseram que meu trabalho não trouxe nada além de dor
mas acho que há apenas um vazio no meu peito
um vazio que nada consegue preencher
eles me levaram para para a cadeia e me amarraram na cadeira elétrica
puseram uma fita na minha boca e me colocaram para dormir
quando o xerife puxar a alavanca e minha alma for embora
você pode garantir que minha garota vá sentar no meu colo?
eles querem saber por que eu fiz o que fiz
eles querem saber por que matei aquelas pessoas
bem, senhor, acho que não sei o que dizer,
não sei como explicar
acho que há muita maldade neste mundo
acho que a maldade está no ar

clique no título para ouvir

nebraska, 1982


foto: ansel adams
road, nevada desert, 1960


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