domingo, 2 de agosto de 2026

 

pensei, pensei, pensei

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em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa da minha irmã e do meu cunhado, o josé lino. lembro como se fosse hoje: apesar do tratamento carinhoso, afetuoso e generoso com que fui recebido, custei a me restabelecer e a querer sair e ver gente. mas tudo muda. depois da noite escura vem um dia claro — e um belo dia eu acordei com uma vontade danada de me reencontrar comigo mesmo. lembrei então de uma poeta — uma poeta de verdade — que a ilha do amor havia me apresentado — há dez mil anos atrás. não me lembro como achei seu contato. não me lembro se havia celular na época; se havia, minha irmã certo que tinha e claro que resolveria — como sempre resolve — mais essa parada para mim.

— oi...
— e aí, tchê...

combinamos o (re)encontro para o final da tarde, início da noite. havia anos que não nos víamos. mas quando nossos olhos se cruzaram, o tempo sumiu e a distância desapareceu. olhos nos olhos, mãos nas mãos, corações a mil. bocas próximas uma da outra...

coisas da vida, quis o destino que o nosso reencontro fosse na véspera da minha volta para o rio grande do sul. passagem de volta marcada para a noite do dia seguinte, deu tempo de nos vermos mais uma vez. foi uma despedida tocante e emocionante. na hora do beijo, recebi um livro — nietzsche, além do bem e do mal. estou com ele agora aqui diante dos meus olhos e nas minhas mãos. estava arrumando minha estante, procurando algo que falasse de mim, quando dei de cara com o filósofo e poeta alemão. mas não é ele que fala de mim, e sim a dedicatória escrita pela poeta para mim.

antes da dedicatória, deixemos que o nosso poeta fale do beijo.

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o beijo que eu não dei

o beijo | nelson coelho de castro (1981)

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«enilton,

como eu tinha que passar a noite no hospital com minha filha, resolvi ir à banca de revistas procurar algo pra ler e (re)encontrar nietzsche — brasil, esse país gigantesco, de contradições não menores com seus milhões de analfabetos, porém único onde se compra filosofia no mesmo lugar em que se compra cigarros.

tentei reler além do bem... mas meu pensamento se desviava sempre para ti. acho que era porque eu queria te ligar ontem à noite. acho que era porque o texto lembra do que nós fomos. acho que era porque parece contigo. acho...

a verdade é que desde nosso reencontro tenho pensado mais em ti do que seria aconselhável pra nós dois. posso te falar da alegria de pela primeira vez em sei lá quantos anos de amizade conversar contigo e ouvir de ti frases e pensamentos completos, articulados. acho que eu nunca tinha te visto sem álcool e sem ressaca. foi bom, continua assim!

posso te falar também do meu orgulho em constatar tua fidelidade aos teus princípios, teu amor-próprio, tua altivez, tua sinceridade, tua abertura. me fez muito bem te ouvir.

fiquei tão feliz em reencontrar imagens e texturas — tua voz, teu cabelo, teus olhos, tua boca e seu movimento, tua barba de cobre. teus pés na areia, mesmos calçados, mesmos chinelos de dedo. tuas mãos nervosas, úmidas, tensas, as mais lindas interjeições pra tuas sentenças!

na verdade, quando fui te buscar aquela noite, foi preciso só um relance lá da esquina na penumbra pra eu te reconhecer. tua voz tá mais madura e a vida mapeou lindamente teu rosto. é tudo!

espero que tu gostes do livro que fala da busca de verdades, escrito pelo filósofo que elegi há tempos como o poeta de minha alma.

o que nos une — a mim e a ti — foi ele quem expressou melhor:

«somente os que trazem o caos dentro de si podem gerar estrelas dançantes».

são luís, 24.07.07 — POETA»

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zeca baleiro fala sobre o tchê
0:00 até 01:00


a lua que manda sua cara
que plena cara boa
outro mar, outro verão
e uma luz de lua
e o azul, do azul, da barra
que nem é mais da barra
nem do céu, nem do avião

ali, além, após aurora
mais que plena hora
será você, recordação
ajude-me a dizer que não
lá vem você, cabeça, perna
que perna muita perna
tudo bronze, seu deus é bom

ah, meu amor, agora nada resta
meu amor, cantar essa canção que manhã
ah, meu amor, trena toda pressa
meu amor, guarda meu coração e vem
não quero mais ninguém
intacta cena quem
que já pleno sol
que chama outro sol

zeca baleiro - o amor no caos - música de nelson coelho de castro

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repecho, 2025

acordei. levantei. fiz xixi, escovei os dentes, tomei um café preto, fiz o mate e, quando o sol nasceu, eu já tava no aviário. limpei o chão, pus palha nos ninhos e voltei pra casa. vivi acordou. tomamos café, levantamos, vivi ficou se arrumando para o trabalho e eu voltei pra rua, pro aviário. 10 e meia nos despedimos. vivi foi pra cidade.

meio-dia

aqueço a comida. almoço. tomo um café preto. preparo um mate. me sento na frente do computador. abro o face e qual não é a minha surpresa... havia uma mensagem... a mensagem não dizia nada além disso:

e aí, tchê...

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não responder.

vivi voltou. jantamos. deitamos e eu custei a dormir
na verdade, dormi muito pouco
quando acordei, ainda estava no mesmo dia
vi a passagem de um dia para o outro na frente do computador
pensando, pensando, pensando
pensando se respondia
ou não

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não

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vivi e eu nos conhecemos no cfc. namoramos pela internet. noivamos. sim, noivamos. cerimônia íntima. reservada apenas para nós dois. estávamos em estado de graça. casamos em 24 de outubro de 2009. há quem diga que foi o casamento mais bonito que viu. sou suspeito pra falar... mas também acho. sempre achei e pra sempre vou achar. a verdade é que juramos fidelidade. e cumprimos. sim, eu sei, posso falar apenas por mim. mas não tenho dúvidas em relação a vivi. tem coisas que a gente não precisa saber pra saber que sabe.

«se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.»

r. d. laing

portanto, não me arrependo. fiz o que queria fazer. se quisesse fazer diferente tinha feito. não respndi porque não quis. amor é tudo o que move. não sou movido pela razão. sou todo coração.

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oh, meu amor, pela primeira vez na minha vida
minha mente está completamente aberta
oh, minha amada, pela primeira vez na minha vida
minha mente pode sentir

oh my love | john lennon / yoko ono (1971)
[letra em português]

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pelotas, 2026

vivi e eu nos separamos. tudo numa boa. sem estresse. somos ótimos amigos. ela foi viver a vida dela e eu tô vivendo a minha. acordo, levanto, faço xixi, escovo os dentes, tomo um café preto, preparo um mate, ligo o computador e escrevo, escrevo e escrevo. só paro de escrever quando acho um livro para ler.

dias atrás, tava querendo me lembrar de algo referente a nietzsche e comecei a folhear os livros que possuo do filósofo alemão. não são muitos, pelo contrário. foi fácil, portanto, chegar a este que está em minhas mãos, em cujo prefácio diz:

«admitindo-se que a verdade seja feminina --- não haveria alguma verossimilhança ao afirmar que todos os filósofos, enquanto forem dogmáticos, não sabem como lidar com mulheres? que a trágica seriedade, a indiscreção inoportuna com que até agora estavam acostumados a conquistar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar o coração de uma mulher? o que é certo é que essa não se deixou cativar --- e todos os dogmáticos têm hoje um semblante desencorajado. se é que têm um semblante qualquer?» 

bem, essa história está se alongando e a ideia não é falar do livro, mas da dedicatória que uma POETA escreveu para mim.

eu até ia falar o nome dela
mas pensei
pensei
pensei
e achei melhor não

explico
quando pensei em escrever 
disse pra mim mesmo
só vou revelar o nome se ela disser sim
enviei uma mensagem por instagram
e até agora nada 
nada, nada
nada, absolutamente nada 

no pasa nada 
eu só queria contar a história 
e saber dela
que anda pelo mundo
frança bahia e oropas

(eu sou só um cara solitário
esperando..)

se ela preferia 
que eu revelasse seu nome 
ou que eu a chamasse
de POETA

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a esperança é a última que morre
continuo esperando 
esperar (do latim sperare)
(ter esperança em;)

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hay medio mundo esperando
con una flor en la mano
y la otra mitad del mundo
por esa flor esperando

con una flor en la mano | facundo cabral (1972)

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carpediem
chove em satolep
bom domingo