domingo, 23 de agosto de 2026

 

casa das putas 

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stefanie

«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.

com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»

alfredo zitarrosa

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eu cresci na 28, em meio às putas

por elaine tavares

meu avô abrigava nossa família em um bar/armazém que também servia de abrigo para os visitantes da famosa «casa das putas» vizinha. aos três ou quatro anos, eu picotava salaminho no longo balcão de pedra onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos.

a «casa das putas» ficava colada à casa do vô, e circulávamos entre as mulheres que tomavam sol, penteavam os cabelos ou raspavam as pernas, sem qualquer preconceito por parte da família. havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente.

eram as mulheres do bordel as responsáveis pelo passeio mais lindo: os passeios de carruagem, cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. elas me apareciam como fadas, princesas, rainhas, e até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura.

a rua 28 segue viva em mim. e vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. e aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. ainda somos irmãs.

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canção de amor para francisca

por enilton grill

quase todos conhecemos «sólo le pido a dios», de león gieco. poucos de nós, no entanto, fomos apresentados a «canção de amor para francisca». proibida pela ditadura argentina nos anos 70, a faixa nasceu como uma homenagem de león a uma prostituta de sua cidade natal, de quem ele se lembrava dos tempos de menino.

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«numa casa no bairro de san pedro, francisca mostra todo o seu corpo, guardando dinheiro entre os seios, bebendo vinho tinto e um pouco de gim. veste-se de verde, veste-se de rosa e despe-se em completo silêncio. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras. pele de canela, olhos de relva, cabelos longos e hálito de trigal. num quarto nos fundos da casa, os homens passam, os homens passam; ninguém lhe oferece trabalho porque têm medo de perdê-la. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras.»

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«canção de amor para francisca» retrata a vida de uma profissional do sexo. a letra expõe a crueza de sua rotina diária e revela seu lado mais humano, terno e maternal durante seus dias de descanso, tornando-se um ato de empatia social e resistência contra a censura da ditadura militar.

cantar francisca ao vivo custou a león gieco detenções em comodoro rivadavia e córdoba.

por causa de sua temática realista, a canção acabou censurada e banida pelo regime vigente.

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links

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léon gieco / joana gieco / alejo león
avô / filha / neto
8 out 2021



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clipe



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[león gieco ao vivo luna park 28 de julho de 1978]

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lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.

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ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

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[ao vivo e com letra]

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recuerdos da 28

lembro de uma outra vez na casa das putas, em santa vitória do palmar. se da primeira vez, eu me apaixonei, dessa vez, eu briguei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. brigar, não brigo mais, mas ainda me apaixono como uma vez me apaixonei.


a paixão é o motor da arte. por isso, quando falta o amor real, o poeta inventa uma paixão de mentira para manter viva a sua obra. ou seja: na falta da verdade, apaixona-se de mentira.

mas há quem pense que a paixão é de verdade.

fazer o quê?!

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de vez em quando quando boto a mão nos cobre não existe china pobre, nem garçom de cara feia eu sou de longe, onde chove e não goteia não tenho medo de potro, nem macho que compadreia boleio a perna e vou direto pro retoço quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito e o chinaredo, que de muito me conhece sabe que pedindo desce, meu facão na «28» remancheio num boteco ali nos trilhos enquanto no bebedouro mato a sede do tordilho ouço mugindo o barulho da cordeona e a velha porca rabona, retoçando no salão quem nunca falta é um índio curto e grosso de apelido pescoço, da rabona o querendão entro na sala no meio da confusão fico meio atarantado que nem cusco em procissão quase sempre chego assim meio com sede quebro o meu chapéu na testa de beijar santo em parede e num relance se eu não vejo alguém de farda eu grito me serve um liso daquela que mata o guarda guardo o trabuco empanturrado de bala meu facão, chapéu e pala e com licença, vou dançar nestes fandangos, levo a guaiaca recheada danço com a melhor china, que me importa de pagar o meu cavalo, deixo atado no palanque só não quero que ele manque quando terminar a farra a milicada sempre vem fora de hora mas eu saio porta afora, só quero ver quem me agarra desde piazito, a polícia não espero se estoura a reboldosa, me tapo de quero-quero 

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por juarez brasil e grupo os gaudérios
10ª califórnia da canção nativa do rs

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verdade seja dita, salvo honrosas exceções, hoje não tenho quase nenhuma afinidade com a música nativista. não gosto dos temas, das letras, do ritmo, da entonação e, muito menos, da postura ideológica da maioria dos seus artistas. mas nem sempre foi assim. houve um tempo em que eu tomava mate ao fim da tarde, na calçada em frente de casa, milongueando paixões.

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esta canção
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor


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falando em paixões
voltemos à paixão de alfredo
por stefanie

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exílio. buenos aires. stéphanie

por carlos bouzas (uruguay)

«em fevereiro de 1976, diante da intensificação da repressão ditatorial, tive que atravessar para a argentina.

a família de alfredo pediu-me para estabelecer rapidamente uma relação com o "flaco", uma vez que o seu estado de ânimo não era dos melhores. encontrei-o trancado num minúsculo quarto de hotel, no escuro, com um leve aroma de tabaco. conversamos bastante, preparei um mate e combinamos de tentar trabalhar juntos. seu relacionamento com o seu empresário não ia nada bem.

pouco depois, surgiu a oportunidade de um contrato para alfredo e três violonistas se apresentarem em são paulo. alfredo insistiu para que lutasse por mais uma passagem, para mim, como seu representante, e assim sair da argentina, voltar e ter novamente o visto de turista. não foi possível. apenas quatro passagens, estadia em um bom hotel, e acima de tudo, pagamento antecipado na chegada ao brasil. foi um dinheiro muito bom, para quatro apresentações. e a comissão permitir-me-ia melhorar um pouco a minha triste economia.

[...]

alfredo voltou feliz. naquela segunda-feira conversamos longamente em seu apartamento. ele resumiu a situação brasileira, em contraste com a do uruguai e da argentina, como muito mais aberta e menos repressiva. você pode fazer coisas artísticas e algumas políticas.

já terminando a conversa, me interessei pelo dinheiro, pela minha comissão.

«ah, carlitos, eu não trouxe peso nem dólar.»

«mas, "flaco», não te pagaram adiantado?», perguntei.

«sim, sim», ele respondeu meio hesitante. largou o mate, serviu-se de um uísque e começou: «no sábado, antes da segunda apresentação daquela noite, me senti muito, muito deprimido. no bar do hotel pedi uma bebida, depois outra, e de repente uma mulher de excepcional beleza aparece na minha frente. pago uma bebida para ela, conversamos, subimos para o meu quarto. e eu me apaixonei perdidamente. sugeri viajar para buenos aires. viver juntos. me casar. eles bateram na porta do meu quarto para fazer minha segunda apresentação. nada mais importava para mim. havia descoberto o amor novamente. e isso me demoliu, carlitos, me demoliu. ela me disse que não ia a lugar nenhum, que estava fazendo isso por dinheiro. mas carlitos, tenha paciência, seus dólares vão aparecer. tenho uma música na cabeça que vai dar muito certo, tenho certeza, e se chamará "stefanie".»

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stefanie, no hay dolor más atroz que ser feliz.
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie

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(legendado en español)

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quatro horas da madrugada
é hora de ir embora

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são quatro horas da madrugada os galo já está cantando eu tenho de ir-me embora morena, vou lhe dar a despedida

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«one more cup of coffee for the road
one more cup of coffee ’fore i go
to the valley below»

dylan

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carpe diem
bom domingo