quinta-feira, 2 de julho de 2026


quando nietzsche chorou

(ao pé do rádio)

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«aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.»

friedrich nietzsche. além do bem e do mal. aforismo 146 p. 69.

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corre o vento, o rio passa...

em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa de minha irmã e do atual marido dela, josé lino. minha sobrinha, maria eduarda, era recém-nascida. o técnico da seleção brasileira era o dunga — dunga de ijuí — lembra, magrão? pois então... mas não é de dunga que vim lembrar. vim lembrar meu pai.

logo nos primeiros dias, fui visitar meus pais no barra-mar. havia anos que não os via. fui para charlar e lembrar como é saborosa a comida que a minha mãe faz. onze horas da manhã. bato à campainha, minha mãe atende com um sorriso e os braços abertos. eu fecho os olhos para receber aquele abraço que, mais que meu pai, só minha mãe sabe dar. ao abri-los, dou de cara com meu pai, sentado no sofá, vendo televisão. custei a reconhecer naquele homem à minha frente a figura altiva e confiante que eu guardava na memória; ver meu pai assim, estático diante da tela de uma tv, era um cenário totalmente inusitado para mim. era como se o tempo tivesse corrido rápido demais para ele.

corre o vento, o rio passa e, se alguém vier me visitar às onze da manhã ou às seis da tarde, só não me verá de pijama e assistindo à tv, pois não os tenho. nem quero.

diferente de ontem
hoje
se eu olhar para o precipício
caio e não levanto mais
os sinos que tocavam
não tocam mais
os anjos
que me habitavam
não me habitam mais
não é que perdi a esperança
perdi a velha autoconfiança
isso é ruim?
não
no momento
isso é bom pra mim
isso é tudo?
que nada
ainda ouço um chiado de rádio
no fim da estrada

grill

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corre o vento, o rio passa.
correm nuvens, nuvens correm
pela estrada que leva à minha casa.

minha casa, meu refúgio,
todos partem, eu fico
sem companheiro nem amigo.

fico contemplando
as chamas das casinhas
pelas quais vivo suspirando.

a noite chega..., o dia acaba,
os sinos tocam ao longe
o toque da «ave maria».

eles tocam para que eu reze;
rezo apenas com soluços,
afogando-me, ao que parece,
como se eles estivessem rezando por mim.

sinos de bastabales,
quando os ouço tocar,
morro de solidão.

corre o vento, o río pasa | rosalía de castro-amancio prada 1997
amancio prada · maria del mar bonet
real filharmonía de galicia

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#américas
#casadesatolep