amor é apenas uma palavra de quatro letras
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«aprendi a ser formal e cortês
cortando o cabelo uma vez por mês
e se acabou a formalidade
é que nunca gostei da sociedade.»
charly garcía
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«qui m´importa, qui m´importa
o seu preconceito
qui m´importa»
renato teixeira
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«você tem uma única tarefa: concretizar sua própria natureza; e, para isso, precisa estar na sociedade como se não fizesse parte dela. a sociedade que é tão medíocre que continua apostando em coisas que nunca funcionaram nem funcionarão.»
facundo cabral
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vai trabalhar, vagabundo
por eduardo marinho
antigamente, eu pedia comida olhando no olho das pessoas – eu ainda não sabia vender meus artesanatos. o ato de pedir é uma grande escola se não nos deixamos humilhar por isso. por exemplo, se eu chego em um restaurante e vejo o dono do estabelecimento, vou até ele e digo: «estou viajando de carona, sem dinheiro, e estou sem comer há alguns dias. estou com muita fome, e você está cheio de comida aí. você vai me negar um prato de comida? não acredito nisso!».
ele se espanta pelo fato de alguém que esteja pedindo comida fale de igual para igual com ele, sem humilhação. se ele negar o prato de comida, eu me retiro. já aconteceu de me retrucarem: «mas você quer comida sem trabalhar?». respondi: «se tiver trabalho aí eu trabalho. faço qualquer coisa: lavo os pratos, varro o chão, sirvo as pessoas, limpo os banheiros, estaciono os carros… ». ele: «mas eu tenho funcionários para fazer tudo, não preciso de seus serviços». eu: «mas eu preciso comer. você não vai me negar um prato de comida, né?».
é constrangedor para ele negar comida, mas se ele o fizer, o faz violentamente, através de xingamentos, então eu vou no restaurante vizinho repetir o mesmo processo, até que me deem um prato de comida.
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ao vento
não tive muita sorte
com as mulheres
como poeta
uma me mandou trabalhar
a outra já de saída
deu de me podar
a mesma poesia
que me levou a elas
foi a que
me afastou delas
grill
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«devolva o neruda que você me tomou
e nunca leu»
chico buarque
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«a "rainha das cantoras de folk", essa tinha que ser joan baez. joan nasceu no mesmo ano que eu, e nossos futuros iriam se conectar, mas, naquela época, seria um despropósito sequer pensar nisso. eu a vira na tv. ela estava em um programa de música folk.
não consegui parar de olhar para ela, não queria nem piscar.
ela tinha uma aparência bem travessa - cabelo negro cintilante, pestanas encurvadas, parcialmente erguidas... a visão dela me deixou enlevado. tudo aquilo, e ainda a voz. uma voz que expulsava os maus espíritos. era como se ela tivesse vindo de outro planeta.
de origem escocesa e mexicana, ela parecia um ícone religioso, alguém por quem você se sacrificaria, e cantava com uma voz direto para deus... também era uma instrumentista excepcionalmente boa.
joan parecia muito madura, sedutora, intensa, mágica. nada do que ela fazia dava errado. o fato de ela ter a mesma idade que eu quase fez com que me sentisse inútil.
no entanto, por mais ilógico que pudesse parecer, algo me disse que ela era meu complemento - aquela com quem minha voz poderia encontrar perfeita harmonia.
naquela época não havia nada além de mundos de distância e enormes barreiras entre ela e eu. eu ainda estava atolado na roça. não obstante, alguma sensação estranha me disse que inevitavelmente nos encontraríamos.»
bob dylan, crônicas - volume um, pg 277.
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«ele parecia um caipira urbano, com os cabelos batidos em volta das orelhas e encaracolados no topo. deslocando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto tocava, ele parecia pequeno por trás do violão. ele era um absurdo, sua jaqueta era de couro surrado, dois números menor do que o seu tamanho, andava sempre maltrapilho, mas tinha algo nele que o fazia maior do que ele parecia ser...»
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«tentei convencer bobby a cuidar da saúde, a beber e fumar menos, a escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas todas (...) ele é uma pessoa complicada, problemática e difícil. vejo bobby como um diamante levemente danificado na cabeça. mais sensível do que a média das pessoas. quando eu estava na plateia assistindo-o tocar, percebia quão facilmente ele ficava arrasado com um comentário ou com algo que passava! mas nunca se sabe quando ele sente essas coisas, porque ele é muito bom em ocultar tudo isso. na minha opinião, por alguma razão, ele quer se aliviar de toda a responsabilidade, para apenas sobreviver com o que as pessoas têm para oferecer. se você não se preocupa consigo mesmo de verdade, então não tem de se preocupar com mais ninguém. ele é assustadoramente inteligente, com um curioso imã dentro de si que nos atrai. quer dizer, eu amo bobby, e faria qualquer coisa por ele, sempre.»
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«eu andava por aí roubando as músicas dele. quer dizer, literalmente. ele escreveu "four letter word", deixou cair atrás de um piano e esqueceu. eu peguei a música lá em casa e aprendi a tocar. um ano depois, eu estava cantando e ele disse: "eita, que música boa, de quem é?". e eu ri: "foi você que escreveu, seu idiota!".»
joan baez
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parece que foi ontem
que deixei minha mente para trás
lá no café cigano
com uma amiga de uma amiga minha
que estava sentada com um bebê pesado no colo
mas falava de uma vida totalmente livre da escravidão
com olhos que não mostravam nenhum traço de sofrimento
uma frase me veio à mente, associada a ela:
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras
do lado de fora, na vitrine de uma loja desorganizada
gatos miavam até o raiar do dia
eu, por minha vez, mantive a boca fechada
para você, não tinha palavras a dizer
minha experiência era limitada e insuficiente
você falava enquanto eu me escondia
para aquele que era o pai do seu filho
você provavelmente não imaginou que eu tivesse ouvido, mas eu ouvi
você dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras
eu me despedi sem ser notado
empurrado para dentro dos meus próprios jogos
flutuando entre vidas
indescritíveis por nome
procurando meu duplo, buscando
a evaporação completa até o âmago
embora eu tenha tentado e falhado em encontrar qualquer porta
devo ter pensado que não havia nada mais absurdo
do que dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras
embora eu nunca tenha sabido exatamente o que você quis dizer
quando falava com seu homem
só consigo pensar em termos de mim
e agora eu entendo
depois de acordar vezes suficientes para achar que vejo
o beijo sagrado que deveria durar a eternidade
se transformar em fumaça, é o destino
recai sobre estranhos, viaja livremente
sim, agora eu sei, as armadilhas só sou eu quem arma
e eu realmente não preciso que me garantam
que amor é apenas uma palavra de quatro letras
é estranho estar ao seu lado
há muitos anos a situação se inverteu
você provavelmente não acreditaria em mim
se eu te contasse tudo o que aprendi
e é muito, muito estranho mesmo
ouvir palavras como «para sempre»,
frotas de navios passam pela minha mente,
não consigo enganar
é como olhar diretamente nos olhos do professor
não posso dizer nada a você, a não ser repetir o que ouvi
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras
love os just a four letter word | bob dylan (1967)
canta: joan baez
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com 85 anos, e ainda jovem, baez parece saber coisas que sempre confundiram, e continuam a confundir o bardo.
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«não consigo ver meu reflexo nas águas
não consigo expressar os sons que não revelam dor
não consigo ouvir o eco dos meus passos
nem lembrar o som do meu próprio nome»
dylan
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ao vento
com o passar do tempo
o poeta errante e a morena estonteante
foram ficando cada vez mais distantes
quarenta anos depois, dylan emitiu um mea culpa:
«eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira… não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo... lamento ver esse relacionamento terminar.»
de sua parte, baez não guardou rancor, mas disse melancolicamente:
«meus instintos de mãe verteram porque ele era uma bagunça desalinhada... dylan é um diamante a ser lapidado... um poeta em estado bruto.»
a musa que me perdoe, mas lapidar dylan seria tirar dele o que o torna único. ele é um diamante porque permaneceu bruto.
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diamantes e ferrugem
atrás
de nós
a paisagem
já é
memória
o tempo
corre
não
para a frente
mas
para dentro
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
o tempo
que corre
para dentro
é o mesmo
que oxida
o ferro
enquanto
você
faz silêncio
eu
pacientemente
espero
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
enquanto
você
fala
eu
berro
grill
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você apareceu no cenário
já como uma lenda
a pedra bruta
o poeta errante
o vagabundo original
você veio para os meus braços
e lá ficou
sim, eu te amava demais
e se você está me oferecendo diamantes e ferrugem
eu já paguei
diamonds and rust | joan baez (1975)
(legendas em português)
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#américas