sábado, 25 de janeiro de 2014

Martim César


ah américa!... te falo de martim!


por enilton grill


para martim césar


américa...ah, américa!
queria saber-te ler. te descrever.
no entanto mesmo tão perto
sou de ti quase analfabeto.

ah, américa!
como e quanto te devo
por teus vates, teus rapsodos. teus aedos
teus atahualpas, violetas. teus alfredos.

queria saber-te ver. e de ti dizer.
mas não nego. sou de ti
quase mudo. quase cego.

como e quanto te devo
por tuas selvas, montes, fontes e mares.
por teus evos... morales.

queria saber-te entender. te compreender.
mas me é impossível. de tão incrível
me és incompreensível.

ah, américa
como e quanto te devo
por tua filosofia e geografia.
pela utopia. por tua poesia.

retribuir? gostaria. me engrandeceria.
agradecer? claro. se tivesse palavras
agradeceria.
não sei como pagar. mas deveria. talvez um dia.

ah, américa!
quem dera penetrar tuas entranhas
dizer tuas façanhas. decifrar tuas manhas
cantar tuas espanhas.

quem dera...ah, quem dera!
mas não passa de uma quimera
não tenho o dom.
¡perdón!

és grande. muito grande!
como grande e muito grande é
quem para mim te escreve. te descreve.
te desnuda.

não, não falo de neruda. nem de san martín
ah, américa! te falo de martim
ele já fez poesia cor de sangue. cor de carmim. e claro
cor de marfim. poesia escrita a nanquim.
poesia pra ti. poesia pra mim.

poesia viglietti. poesia benedetti.
poesia cor de céu envolto em véu
poesia como inverno
de montevidéu.

poesia de andar longe
poesia de andar perto.
poesia de vida e morte.
poesia de azar e sorte.

poesia longa
como uma milonga
poesia leve e pequena
como se tivesse pena.

poesia de tuas rezas
e de tuas crenças
nascida de tuas mortes
de teus cortes. de teus recortes.

poesia arteira, matreira, brasileira.
poesia guerrilheira. como pedra de atiradeira.
que fala não cala abala
teus limites e barreiras.
tuas fronteiras.

poesia para os que sentem frio.
poesia para os que vivem na beira do rio.
poesia pra quem ficou. pra quem lutou. não deserdou.
pra quem encarou o vazio de quem partiu.
não fugiu. cumpriu.  e depois sorriu.

poesia que soluça.
chama. clama. reclama
depois chora e dorme
poesia por alfonsina storni.

poesia que em aleph se reconhece
em labirintos e desertos se esquece
poesia que em círculos
se propaga.  cresce. aparece.

e isso é tudo?
é  nada. até parece!

poesia pra quem por nós
deu tudo que é seu.
se deu. perdeu. morreu.

e deixou uma última lição:
diante do algoz, não temeu.
nem tremeu.

poesia que emana de tua foz
que diz de nós
poesia hermana
latino-americana.

poesia quintana
como o frescor de tu mañana
poesia vinicius
como a noite e seus muitos vícios.

poesia chorada. sussurrada. desesperada.
poesia como última cartada.

e isso é tudo?
que nada.
é página virada.

antes que apaguem-se as luzes e feche-se a cortina
se amotina...como inquilina. sem dó. em mi.
ou lá em ci-ma de uma flauta andina. na asa de uma golondrina.
na mira do cano de uma carabina.
assim como faz serrat. assim como faz sabina.

poesia pensada e trabalhada.
agalopada e inusitada.
poesia de pensar em tudo
poesia de pensar... em nada.

poesia cantada, (en)cantada.
trova trovada.palavra flechada.
raiz alada.

e isso é tudo?
que nada.
é nada.

são madrigais. poemas provençais
são rosas entre cristais. versos de um poeta
do amor demais.

é poesia no varal.
poesia oral, visual.
poesia como aval
de um amor total. o verso é como um punhal.
a poesia é visceral.  

e isso é tudo?
que nada.
é quase nada.

poesia como quem foge do inferno (de dante).
montado num rocinante. atrás de um sonho
(se um tal quixote) de cervantes.

atrás do que não existe.
e ainda assim insiste.
subsiste.

o que se imagina.
o que renova e ilumina.
o que em nós germina. e não termina.

como a pachamama
ou como aquelas sementes de flores
que dormem no deserto do atacama
que a cada dez anos voltam
e sem drama dão colorido e sentido
a quem já havia desistido.
a quem acreditou que as flores haviam morrido.

ah, américa! te falo de martim!
nele, és algo assim
como meio e como fim.

algo assim...
como um recomeço
sem fim...
             outubro, 2013