sábado, 11 de julho de 2026

 


te mando notícia de mim

(ainda estou aqui)

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morrer

tenho morrido muitas vezes.
depois, respiro fundo,
lavo o rosto, sigo em frente.
não é fácil morrer,
difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar a lua,
beber o mar.
detestável seria ter a covardia
dos que me mataram.
eu sigo renascendo,
eles seguem covardes.

pedro munhoz

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filme de mim mesmo

depois de um período de desintoxicação em são luís, aos cuidados da família, onde fui tratado com todo amor e carinho, retornei a pelotas. voltei com a cara e a coragem. não sabia onde ia ficar e nem o que ia fazer. tinha tudo pra dar errado. mas sabia que ia dar certo.

pouca gente sabe, mas quando voltei, tinha gente que esfregava os olhos quando me via na rua.

só mais tarde vim a saber o porquê: espalharam um boato aqui onde moro que eu havia morrido.

quando fiquei sabendo, primeiro levei um susto, depois, sabendo dos detalhes de como o boato se espalhou, fiquei incrédulo. não podia acreditar. eu havia morrido de várias formas.

uns, disseram que eu morri numa briga de bar, outros, que me viram embaixo das rodas de um carro, outros, que me viram cair de bêbado e bater com a cabeça no chão, outros, que me viram sumir dentro de um camburão, outros, que me viram pedindo esmola com uma lata vazia na mão, outros, que me viram dormindo na rua, morrendo de frio, abraçado a um cão.

e todos tinham razão.

morrer é fácil. morre-se de várias formas e todos os dias. viver sem se deixar morrer é que é difícil. por quê? porque a única forma de viver sem se deixar morrer é viver em paz --- em paz consigo mesmo. paz interior. paz que eu sabia que existia, mas que não encontrava.

por quê? porque eu procurava fora o que está dentro.

grill


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«diógenes, toda vez que passava pelo mercado, ria porque achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz em ver quantas coisas tinha no mercado que ele não necessitava.»

facundo cabral

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«toda vez que passo pelo corredor de bebidas do supermercado, sorrio por dentro. fico muito feliz em ver a quantidade de coisas que existe ali que eu simplesmente não preciso mais.»

(inspirado na reflexão de facundo cabral sobre diógenes de sinope)

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o tempo tá feio na fronteira
tem vento e polvadeira, vai chover
ouvi na rádio uruguaia, o boletim não falha
vem água no anoitecer

nesta longa avenida
eu transito minhas mágoas
entre dois mundos
nestas calçadas vazias
eu divido os meus dias
numa fronteira absurda

assim mesmo, procuro os teus olhos
na visão de quem olha, apenas por ver
meu desespero é às avessas
depois das promessas que prometemos
por prometer

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

pra semana, arrumo minha mochila
dou de mão na viola, é hora de partir
compro passagem pra trienta y três
jaguarão fica mais perto da gente ir

faço planos pra volta
vontade não falta de acertar
aos olhos de minha filha
sou o mesmo herói, que eu queria
que fosse meu pai

no mais eu vou indo, quem sabe, qualquer dia desses
a gente se encontra
como diria o amigo plínio
lá por franças, bahias e europas

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

te mando notícia de mim | pedro munhoz (1997)

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raul vive
(por enilton grill)

um dia a terra parou. raul fingiu que não viu e seguiu. o tempo passou e raul ficou. em 1989, ele deu adeus, embarcou num disco voador e voou.

raul sempre leu muito. começou explorando os livros da biblioteca de seu pai, onde ficava horas viajando por galáxias e estrelas distantes nos livros de astronomia.

depois de sair de salvador e passar fome na cidade maravilhosa, raul resolveu fazer terapia e cursar filosofia. só mais tarde é que foi viver de cantoria.

raul se recusou, terminantemente, a aceitar o determinismo enquanto viveu: «eu que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar».

para ele o hoje era apenas um furo no futuro, por onde o passado começava a jorrar. viveu como quis. morreu quando cansou deste lugar, onde jamais conseguiu se encontrar.

há dez mil anos atrás raul havia começado a sonhar em ser cantor e compositor. mas para ele a passagem do tempo parecia não importar tanto assim. se tempo presente ou futuro tanto faz quanto fez. e assim ele se fez.

tempos depois ele declarava: «eu sou tão bom ator que me finjo de poeta e profeta e todo mundo acredita».

«se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou / se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor». era chato chegar a um objetivo num instante. ele se transmutava a todo instante. e o ritmo que isso acontecia era tão alucinante era tão estonteante que raul tornou-se «metamorfose ambulante».

mas com o passar do tempo ficou difícil ordenar o pensamento. seu tempo era ao mesmo tempo perto e distante. nesse instante o álcool entra em sua vida. uma anestesia para a monotonia do dia-a-dia.

no final, já estava cansado de viver drogado. tarde demais. quando quis dizer não, o álcool e a droga já o haviam jogado ao chão. então raul disse: «eu não morri de overdose; eu morri foi de tédio».

o diretor do documentário, raul: o início, o fim e o meio, walter carvalho, disse que raul morreu de amor.

«do passado me esqueci / no presente me perdi / se chamarem diga que eu saí, para o futuro não estou nem aí».

o maluco vivia a esmo. fugia de si mesmo. não que fosse um frustrado ou fracassado, apenas tinha um universo inteiro a rodar em seu costado. outro dia, disse: «o universo me espanta e não posso imaginar que esse relógio exista e não tenha relojoeiro».

raul nunca conseguiu ficar sozinho. ao mesmo tempo, nunca conseguiu ficar com ninguém por muito tempo: «como poeta e cantor, sou o homem ideal; como marido, sou uma merda total».

um turbilhão de ideias e um copo sempre à mão. uma profusão de imagens e possivelmente uma confusão na mente. mas antes do álcool lhe derrubar de vez, deixou a semente. «eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez».

lúcido o bastante para não entrar em toda e qualquer luta. com onze anos de idade já desconfiava da verdade absoluta: «tem gente que passa a vida inteira / travando a inútil luta com os galhos / sem saber que é lá no tronco / que está o coringa do baralho».

tal qual um fora da lei, raul viveu de lutar contra o rei. mas o mundo é um moinho, e raul morreu sozinho.

e assim é a vida: o caminho do acaso é o azar ou a sorte. e o caminho da vida, seja no início no fim ou no meio, é a morte.

mas, antes da morte, raul nos deixa um mote: «jogue as cartas, leia a minha sorte / tanto faz a vida como a morte / o pior de tudo eu já passei».

morte? que morte?

raul não morreu, isso sabe ele e sei eu.

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veja quanto livro na estante
dom quixote, o cavaleiro andante
luta a vida inteira contra o rei

do passado me esqueci
no presente eu me perdi
se chamarem, diga que eu saí

as minas do rei salomão | raul seixas / paulo coelho (1973)

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ao vento

ontem
depois de um bom tempo
cabelo ao vento
saí e não me perdi
(ainda estou aqui)

grill

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quem vai chorar, quem vai sorrir?
quem vai ficar, quem vai partir?
pois o trem está chegando
tá chegando na estação
é o trem das sete horas
é o último do sertão

o trem das sete | raul seixas, 1974
(clipe oficial)

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foto: minifúndio café
satolep, 2007

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#raulpresente
#choveemsatolep
#américas