quinta-feira, 16 de julho de 2026


a vida é uma loteria

••••••••••••••

«fora de campo, messi é um cidadão bem pequeno, bem minúsculo.
não se manifesta contra o racismo e vai lá beijar as botas do trump.»

milly lacombe

.

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

••••••••••••••

diego

para sempre rebelde
rebelde para sempre
ave, diego
ave

grill

••••••••••••••

maradona

por eduardo galeano

diego armando maradona era adorado não apenas por suas jogadas prodigiosas, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas, ou pelo menos masculinas: mulherengo, glutão, bêbado, trapaceiro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável. mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam. maradona jamais conseguiu voltar para a multidão anônima de onde vinha. a fama, que o havia salvado da miséria, tornou-o prisioneiro. diego foi condenado a se achar maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório.

.

jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. estava esgotado pelo peso de sua própria personagem. tinha problemas na coluna vertebral, desde o longínquo dia em que a multidão havia gritado seu nome pela primeira vez. maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo. «necessito que me necessitem...»

.

mais devastadora do que a cocaína é a «exitoína».

.

... era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar com a canhota, que segundo o dicionário significa «com a esquerda» e também significa «o contrário de como se deve fazer».

.

em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.

.

quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso...

.

(eduardo galeano, trechos - em: futebol ao sol e à sombra)

••••••••••••••

«recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração»

••••••••••••••

se eu fosse maradona viveria como ele
(porque a vida é uma loteria que se vive à flor da pele)

houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e percorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão. tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).

o tempo passa e hoje o futebol pra mim perdeu a graça.

mas é bom às vezes re-cordar, ou seja, voltar a passar pelo coração. mesmo porque a memória parece funcionar a nossa revelia, como se tivesse vida própria.

a vida é vivida e o jogo jogado. não sei o que é certo nem o que é errado. não sou guiado pela razão nem por resultado. como dizia o poeta, «comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração». o que não quer dizer nada. cada um que viva como quiser. ou como puder.

se eu fosse maradona viveria como ele.

e quem disse que não? foi com maradona que aprendi a ser tolerante e radical. corajoso e covarde. alegre e triste. com ele aprendi a perder e a ganhar. lembrei de lembrar, pois maradona já me fez sorrir e já me fez chorar.

.

a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tombola
y arriba y arriba

la vida tómbola | manu chao (2007)

.

#américas