sábado, 4 de julho de 2026


 canciones & negocios de otra índole

(de poesias, ironias & autoironias)

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grandes negócios

nós os poetas sempre pensamos ter grandes ideias para prosperarmos, que somos gênios para projetar nossos negócios, ainda que gênios incompreendidos. lembro que, impelido por uma dessas combinações florescentes, vendi a meu editor no chile, em 1924, a propriedade de meu livro crepusculário, não para uma edição, mas para a eternidade. acreditei que ia prosperar com essa venda e assinei o contrato no tabelião. o sujeito me pagou quinhentos pesos, que eram pouco menos que cinco dólares naquela época. rojas giménez, álvaro hijonosa, homero arce me esperavam à porta do cartório para dar-nos um grande banquete emhonra deste êxito comercial. com efeito comemos no melhor restaurante da época, la bahía, com vinhos suntuosos, charutos e licores. previamente tínhamos mandado lustrar os sapatos que luziam como espelho. os que tiveram proveito com o «genial» negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. a prosperidade não chegou até o poeta.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 44.

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ao vento

ó mundo, ó mundo
que mundo?
não sei nada do mundo
o lugar mais longe que andei
fica no sul do mundo
cheguei passando o chapéu
sem eira nem beira
dono de mim mesmo
vivendo ao léu
um dia ouvi o chamado da terra e o canto do vento
olhei para o céu e vi montevidéu

grill

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na minha cidade tem poetas, poetas
que chegam sem tambores nem trombetas,
trombetas e sempre aparecem quando
menos aguardados, guardados, guardados,
entre livros e sapatos, em baús empoeirados
saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
onde vivem com seus pares, seus pares
seus pares e convivem com fantasmas
multicores de cores, de cores
que te pintam as olheiras
e te pedem que não chores
suas ilusões são repartidas, partidas
partidas entre mortos e feridas, feridas
feridas mas resistem com palavras
confundidas, fundidas, fundidas
ao seu triste passo lento
pelas ruas e avenidas
não desejam glórias nem medalhas
medalhas, medalhas, se contentam
com migalhas, migalhas, migalhas
de canções e brincadeiras com seus
versos dispersos, dispersos
obcecados, pela busca de tesouros submersos
fazem quatrocentos mil projetos
projetos, projetos, que jamais são
alcançados, cansados, cansados nada disso
importa enquanto eles escrevem, escrevem
escrevem o que sabem que não sabem
e o que dizem que não devem
andam pelas ruas esses poetas, poetas, poetas
como se fossem cometas, cometas
num estranho céu de estrelas idiotas
e outras e outras
cujo brilho sem barulho
veste suas caudas tortas
na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
de palavras retorcendo-se confusas, confusas,
confusas, em delgados guardanapos
feito moscas inconclusas
andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
que eles veem nos vão dizendo, dizendo
e sendo eles poetas de verdade
enquanto espiam e piram e piram
não se cansam de falar
do que eles juram que não viram
olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
inteiro, inteiro, fossem vendo pra
depois voltar pro rio de janeiro

guardanapos de papel | leo masliah 1984
(versão: milton nascimento)

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#américas
#casadesatolep
#umoutromundoépossível