domingo, 21 de junho de 2026


 pequeno mapa do tempo

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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evangelho do jejum

a balança é tribunal.
ponho-me nua diante dela como ré que já confessou.
o ponteiro grita sentença...menos, menos, menos.
aplaudem os fantasmas do armário, cabides batem palmas.
visto roupas antigas e danço dentro delas, tango de viúva com defunto ausente.
tenho fome de gente e nojo de gente.
na feira, as frutas riem com cara de plástico.
o açougueiro me oferece conselho embrulhado em papel pardo.
pago com moedas de banha derretida, troco nenhum.
á noite, meu estômago recita baudelaire em grego.
as tripas, coristas roucas, desafinam a ária do vazio.
ligo o rádio... só chiado, sermão de estática.
desligo o rádio... o chiado continua dentro.
perdi peso, perdi esperança, perdi promessa.
do humano, guardo o fiapo que se usa pra amarrar presunto.
do divino, guardo a nota fiscal...
e durmo com a luz acesa,
porque o escuro engorda de medo.

simone bacelar

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«a beleza é uma forma de medo ou de inquietude».

jorge luis borges

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o eu escrito por ninguém

quem é borges? o homem que caminha por buenos aires? o nome que aparece nas listas e nos dicionários? o jovem que assobia junto ao ródano? o velho que morre em adrogué? o escritor que ainda não escreveu o livro que escreverá? o autor que detesta a sintaxe que é sua? as respostas não se excluem nem se somam: aproximam-se, desviam-se, corrigem-se, deixam sobras. e talvez esse resto seja o mais borgiano — mais do que o infinito, o labirinto, o tigre, o punhal ou o espelho tomados como emblemas fáceis: o resto que uma simetria imperfeita deixa atrás de si, impedindo o nome de coincidir com o homem, o jovem com o velho, o sonho com a vigília, a morte com o cenário, a sintaxe com quem a escreve. da falha não emerge uma identidade — resta apenas a forma impessoal de si mesmo.

rodrigo gurgel

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pequeno mapa do tempo

eu tenho medo e medo está por fora
o medo anda por dentro do teu coração
eu tenho medo de que chegue a hora
em que eu precise entrar no avião
eu tenho medo de abrir a porta
que dá pro sertão da minha solidão
apertar o botão, cidade morta
placa torta indicando a contramão

faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão
faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão

belchior

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livre no começo

se conseguirmos compreender a compulsão que se encontra por detrás do nosso desejo de dominar ou de sermos dominados, então talvez possamos libertarmo-nos dos efeitos debilitantes da autoridade. ansiamos por ter certezas, por estarmos certos, por termos sucesso, por sabermos; e este desejo de certeza, de permanência, constrói dentro de nós mesmos a autoridade da experiência pessoal, enquanto externamente cria a autoridade da sociedade, da família, da religião, e assim por diante. mas ignorar, simples mente, a autoridade, abalar os seus símbolos exteriores tem muito pouco significado.

libertarmo-nos de uma tradição para nos moldarmos a outra, abandonar este líder para começar a seguir aquele, é apenas uma atitude superficial. se estivermos conscientes de todo o processo da autoridade, se percebermos o quanto esse processo é interno, se compreendermos e conseguirmos transcender o nosso desejo de segurança, então teremos uma ampla compreensão e uma tomada de consciência profunda e instantânea, temos de estar livres não no final, mas no começo.

krishnamurti | a vida | editora presença | pág - 33

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a raiz da autoridade: o medo da incerteza

krishnamurti argumenta que a autoridade externa (a religião, o mestre, o político, a tradição familiar) só tem poder sobre nós porque nós, internamente, ansiamos por segurança.

a vida é incerta, caótica e, muitas vezes, assustadora. para lidar com isso, queremos um mapa. queremos garantias. queremos «estar seguros». quando entregamos essa necessidade a alguém ou a alguma doutrina, criamos a autoridade. o mestre ou a tradição não nos escravizam; nós nos escravizamos ao pedir que eles nos deem a segurança que, no fundo, sabemos que não existe.

portanto, se a sua mente continua funcionando baseada no mesmo desejo de segurança, no mesmo medo e na mesma necessidade de ser liderado, você não mudou nada. você mudou de lugar, maso lugar não mudou você.

em suma: krishnamurti nos desafia a olhar para nós mesmos agora, sem o filtro de nenhuma tradição, mestre ou desejo de sucesso. se você precisa de um «caminho» para ser livre, você ainda está preso à necessidade de um guia. a liberdade, para krishnamurti, é o ato de olhar com total clareza, sem o desejo de que essa clareza lhe dê segurança.

trocando em miúdos: se você busca liberdade para se sentir seguro, você não está buscando liberdade, está buscando um «porto seguro».

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medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo que belo horizonte
eu tenho medo de minas gerais
eu tenho medo que natal, vitória
eu tenho medo goiânia - goiás
eu tenho medo salvador - bahia
eu tenho medo belém, belém do pará
eu tenho medo pai, filho, espírito santo, são paulo
eu tenho medo eu tenho c eu digo a
eu tenho medo um rio, um porto alegre, um recife
eu tenho medo paraíba, medo paranapá
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará

medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo e já aconteceu
eu tenho medo e inda está por vir
morre o meu medo e isto não é segredo
eu mando buscar outro lá no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí

pequeno mapa do tempo | belchior (1977)

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de volta a borges

«quem leu shakespeare, tolstói ou machado e não sentiu, em algum momento, uma pontada de medo, de insegurança, de desequilíbrio, então não leu, só passou os olhos. o que seria um soneto de camões sem a vertigem que ele provoca? de que serve uma beleza que não nos questiona, não nos abala, não nos incomoda? é por isso que borges recordava a súplica de seu mestre, rafael cansinos-asséns: "oh, senhor, que não haja tanta beleza". e a constatação de browning: "quando nos sentimos mais seguros acontece alguma coisa, um pôr do sol, o final de um coro de eurípides, e estamos de novo perdidos"»

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de volta a krishnamurti

«para krishnamurti, a verdadeira revolução interna acontece quando compreendemos por que ansiamos tanto por segurança. ao perceber esse mecanismo, a necessidade de se apoiar em autoridades (internas ou externas) desaparece naturalmente. a liberdade é o ponto de partida para observar o mundo com lucidez, e não uma meta futura.»

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(introdução)

«muito obrigado amigos. nós somos tão privilegiados por nos podermos reunir em momentos como estes, quando grande parte do mundo está mergulhado na escuridão e caos.»

os pássaros cantavam,
ao romper do dia,
«recomece», eu os ouvi dizer,
«não se prenda ao que
já passou,
nem ao que ainda está por vir...»

ah, as guerras,
elas serão travadas novamente.

a pomba sagrada,
ela será capturada novamente,
comprada e vendida,
e comprada de novo.
a pomba nunca é livre.

toque os sinos que ainda podem tocar.
esqueça sua oferta perfeita
há uma falha em tudo,
é assim que a luz entra.

pedimos sinais,
e os sinais foram enviados:
o nascimento traído,
o casamento desfeito.

sim, a viuvez,
de todos os governos,
sinais para todos verem

não posso mais fugir,
com essa multidão sem lei,
enquanto os assassinos em altos cargos
fazem suas orações em voz alta.

mas eles invocaram, eles evocaram,
uma nuvem de tempestade,
e eles vão ouvir falar de mim.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma rachadura em tudo,
é assim que a luz entra.

você pode somar as partes,
mas não terá o todo.
você pode começar a marcha, mas
não há tambor.

todo coração, todo coração,
virá ao amor,
mas como um refugiado

toquem os sinos que ainda podem tocar
esqueçam sua oferta perfeita
há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma falha, uma falha em tudo,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra.

anthem | leonard cohen (2008)

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carpe diem
bom domingo