terça-feira, 9 de julho de 2013



Facundos para o mundo


La Plata,
Maio, 22, 1937
Cidade da Guatemala,
Julho, 09 2011


por Enilton Grill


Texto publicado no
Diário da Manhã
09 de julho de 2011
Pelotas
Rio Grande do Sul




Facundo Cabral nasceu em La Plata, província de Buenos Aires, sem data certa e precisa - supõe-se que tenha sido dia 22 de maio -, e com outro nome, Rodolfo, o nome de seu pai.

Um dia antes de seu nascimento, seu pai deixou a casa largando a mulher - Sara - com sete filhos, que emigraram para a Terra do Fogo, no sul da Argentina.

A dificuldade financeira e a impossibilidade de sustento obrigaram Sara a ir mudando de lugar e cidade. Levou nove anos cruzando o deserto, com os sete filhos pela mão. No meio do caminho, ante a pergunta de um deles sobre a razão de não terem uma casa pra morar, se todos tinham uma, Sara respondeu: "Os outros têm uma só casa pra morar, nós temos o mundo por caminhar, segue andando".

Quando enfim cruzaram o deserto e chegaram à Patagônia, Facundo decidiu voltar a Buenos Aires. Tinha então nove anos de idade.

—Era o ano de 1946, Perón recém havia assumido e eu havia escutado que ele daria trabalho a quem necessitasse. Fui pedir trabalho a quem prometia trabalho.

Durante uma visita de Perón a La Plata, o pequeno Facundo pediu trabalho ao general o que chamou a atenção de Evita: "Enfim alguém que pede trabalho e não esmola". Logo encarregou a um de seus assessores que cuidasse do menino.

-Me levaram a uma escola em La Plata. Tomei banho, me deram roupa nova, e me trataram como se estivesse chegando hoje em um hotel cinco estrelas.

No dia seguinte estava em Buenos Aires. Eva Duarte Perón atendeu o menino em seu escritório. Poucas horas depois, estava num avião de volta a sua casa na Patagônia.

-Quando cheguei, minha mãe parecia não acreditar. Me havia dado por perdido; e três meses mais tarde apareci num avião e com uma carta pessoal de Eva Perón. A carta oferecia trabalho de zeladora a minha mãe numa escola de Tandil, ao sul da província de Buenos Aires.


Ao longo da vida, rica em reportagens e entrevistas, Facundo contou várias vezes esta história. Mas às vezes de forma diferente. Às vezes, a viagem ao sul é feita de trem. Às vezes está sozinho. Outras vezes está acompanhado pela mãe. 

De qualquer forma, as versões que Facundo contou de sua infância coincidem nos temas centrais (a jornada precoce rumo à capital e o amor incondicional pela mãe) e no fato de que estão muito bem contadas. E isso é o bastante para dá-las como verídicas. Ao menos é o pacto que nos propõe Facundo para que entremos em seu mundo.

De tudo isso, o certo é que a dor da mãe vai transformar Facundo em um jovem problemático e rebelde.

As brigas e os pequenos delitos levaram Facundo mais de uma vez às prisões. Em uma delas é recebido por um jesuíta, que decide alfabetizá-lo.

Dois anos e meio mais tarde, quando Facundo já havia aprendido as lições, e podia defender-se na vida com algo mais que socos e pontapés, o próprio jesuíta ajudou-o a fugir da prisão.

Nas suas andanças posteriores pela costa bonaerense, Facundo conheceu um mendigo que o iniciou no evangelho. Desde então, Jesus, os profetas e a Bíblia ocuparam, dentro do imaginário de Facundo, o mesmo lugar que filósofos e escritores, aos quais também começou a conhecer por essa época.

Na cidade, Facundo trabalhou de engraxate. Mas foi no meio rural que conheceu a milonga e os milongueiros. E isso viria marcar a ferro e fogo seu futuro artístico. 

- "O dia que conheci o maior deles, Pedro Mendizábal, soube que esse seria era meu ofício”.


Enquanto isso, sua tendência anarquista, herdada de sua avó, o fazia ser demitido e expulso do trabalho continuamente.

—Eu queria fazer a revolução e repetia a frase de Proudhon que eu trazia gravada desde pequeno:

“Toda propriedade é um roubo”.

Facundo diria: “Estoy forzado a robar porque he llegado muy tarde, desde antes de nacer las cosas eran de alguien. Si me gusta una mujer está de novia o casada, si soy ladrón es por culpa de la propiedad privada."

Em meados dos anos 1960, Facundo passou um largo tempo fora da Argentina, primeiro na Ilha de Páscoa e depois em Cuzco.

—Na Ilha de Páscoa a única coisa que eu fazia era ler Lao Tsé e Whitmann. Em Cuzco, além disso, visitava o bordel.

Finalmente, depois dessa longa viagem, voltou aos palcos no final dos anos 1960 e compôs sua canção mais conhecida: “No soy de aquí ni soy de allá”.

Apesar da fama e do reconhecimento, Facundo não acumulou nenhum tipo de bem material. Acreditava que quem menos tem é mais livre e mais feliz: “tener menos para tenerse más”.

Em 1978, sua mulher, Bárbara, e sua filha de um ano de idade morrem num acidente de avião. Durante dois anos Facundo esqueceu os oito idiomas que falava e perdeu a visão parcialmente. Madre Teresa de Calcutá, ao inteirar-se do que estava acontecendo, perguntou:

“ ¿Dónde vas a poner el amor que te va a sobrar?”

E desde então, Facundo transformou sua dor em amor. Visitou, cantou e andou por mais de 160 países.

Nos últimos tempos, dizia ter aprendido que há uma só religião, o amor; uma só linguagem, a do coração; uma só raça, a humanidade; e um só Deus e está em todas as partes.

Em reconhecimento ao seu constante apelo à paz e ao amor, em 1996, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) o declarou "Mensageiro Mundial da Paz”.


Depois disso tudo, com o mundo tão necessitado de Facundos, Facundo morreu assassinado, na Cidade da Guatemala, quando se dirigia para o aeroporto, depois do último concerto e das últimas palavras: 'No soy de aqui ni soy de allá'. 

Mas muitos anos antes, o misto de poeta e profeta já havia escrito seu testamento:

À família não deixava nada e pra nós deixava tudo.


*Autor deste blog, radialista, pesquisador e ativista cultural